Alfred era o nome do nosso sapo de estimação | Reprodução/FN

Alfred era o nome do nosso sapo de estimação. Era um sapo enorme. Não cabia nas mãos, de tão grande que ele era. Sapo do tipo comum, malhado entre listras cor de areia sobre o corpo preto. Seu papo era tão grande, que quando ficava parado, encostava no chão.

Pois este sapo, num dia de chuva, de bastante chuva, apareceu inusitadamente em nosso pátio e lá se alojou. Nunca mais saiu. Meus filhos, quando o viram, acharam que ele tinha a cara do mordomo Alfredo do papel higiênico Neve, pois tinha uma boca fininha que rasgava sua face, como o mordomo. E também tinha os olhos debochados, como o Alfredo tinha. E logo o chamaram de Alfred.

Era lindo de se ver. Todas as noites ele aparecia na frente da cozinha, na luz da rua, onde diversos insetos caíam e onde ele fazia com isto seu banquete. Alfred era comilão. Ficava muito tempo ali, se alimentando, puxando os insetos para dentro de seu enorme papo com sua língua gosmenta. As duas glândulas atrás de sua cabeça, onde os sapos fabricam um leite venenoso, eram tão grandes que pareciam um par de olhos adicionais.

A maioria das pessoas diz ter nojo de sapos. Muitas vezes tentei encontrar a razão de tal interpretação. Afinal, o sapo é como qualquer outro bichinho, e quando se acostuma a um pátio, fica de estimação, não sai mais. E se é posto para fora, sempre volta.
Alfred viveu em nosso meio mais de ano, quando de repente, um dia o encontramos esmagado no meio da rua, atropelado por algum automóvel. Os filhos sentiram bastante o ocorrido, pois haviam se afeiçoado ao sapo.

Minha infância foi toda vivida sem ter medo ou nojo de sapos, pererecas e afins. A gente se acostumou a conviver com os bichinhos, e nossos pais nos instruiam da importância deles em nossa vida. Ficamos sabendo que eles realmente soltam um jato de urina em sua defesa quando são provocados, mas de que esta urina não cega como muitos dizem. Já o leite de suas glândulas pode cegar. Por isso que devemos ter um certo respeito por eles. Mas, eles não soltam aquele leite tão facilmente. Lembro que a gente, quando criança, pegava uma varinha e começava a esfregar a glândula. O sapo ficava desconfortável com aquilo, se irritiva, ficava de ‘quatro’ o que não é normal no sapo e depois de muito provocar, eles deixavam sair o líquido de sua defesa da glândula. Quem sabe, um dia outro sapo vem e se instale no meu pátio. Mas quero que seja grande, gordo, de cara debochada que nem era o Alfred.

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