Desfile cívico no centro de São Sebastião do Caí Reprodução/FN

Alceu Masson era funcionário da prefeitura municipal em 1940, quando escreveu o livro Caí, a respeito do município que, então, era assim denominado. O prefeito era Egydio Michaelsen. Um homem de grande visão que estimulou Masson a fazer o livro, que foi financiado pela administração municipal.

Foi, portanto, uma publicação oficial. E não é de esperar-se que nele fossem abordados aspectos críticos que pudessem desmerecer a administração. No capítulo das estradas, o autor fez questão de ressaltar que as estradas municipais estavam em “excelente estado de conservação”.

O que, talvez, tenha sido uma avaliação otimista.

As principais estradas foram assim descritas por Masson:

Faria Lemos. Começa no km 42 da estrada Rio Branco. segue pela margem direita do rio Caí, e vai até a linha Sebastopol.”

Esta localidade, hoje, pertence ao município de Caxias do Sul. A estrada, que liga Sebastopol a Vila Cristina, asfaltada em 2010, pela prefeitura de Caxias.

“Estrada do Vale do Lobo. Começa na estrada do Rio Branco, junto ao arroio Escadinhas, transpõe o Morro Grande, e, passando pela linha Nova, vai até a linha Olinda, onde se liga à estrada Presidente Lucena.”

“Estrada da Forqueta. Começa na estrada Rio Branco, junto ao arroio do Ouro, e segue até Nova Milano, no município de Farroupilha, onde se liga à estrada Júlio de Castilhos.”

Esta estrada, no seu trecho inicial (que vai das localidades de Arroio do Ouro até Forqueta Baixa, ambas no município de Vale Real) hoje é asfaltada.

Esta estrada liga Escadinhas (que hoje é praticamente um bairro de Feliz) a Linha Nova e segue em direção a Nova Petrópolis. Passa, então pela antiga e pitoresca localidade de Linha Olinda.

“Estrada da Picada Cará. Partindo da ponte da Feliz, segue pela margem esquerda do rio Caí, e termina nas proximidades da divisa com o município de Taquara.”

Em 1940, os municípios do Caí e de Taquara faziam divisa entre si. O que deixou de acontecer devido às inúmeras emancipações ocorridas na segunda metade do século XX. Uma parte desta estrada está asfaltada na ligação de Feliz com Linha Nova.

“Estrada de São José do Hortêncio. Partindo de Vila Rica, arrabalde da cidade de Caí, vai ligar-se à estrada do Vale do Lobo no Morro Grande, passando por Chapadão, arroio Cairé (antigo Arroio Bonito) e S. José do Hortêncio.”

“Estrada de Linha Nova. Sai da estrada S. José do Hortêncio, passa por Linha Nova Baixa, e vai terminar na povoação que lhe dá o nome.”

“Estrada de Sant’ Ana do Rio dos Sinos. Também é conhecida por estrada da Capela. Partindo da estrada Júlio de Castilhos, à margem esquerda do arroio Cadeia; atravessa a estrada Buarque de Macedo nas proximidades da estação Capela; passa pela sede do distrito de Capela, antiga Sant’Ana do Rio dos Sinos, que lhe deu o nome; transpõe o arroio Mineiro, e penetra no município de Canoas, terminando no passo do Rio dos Sinos.”

Esta é a estrada mais antiga do Vale do Caí. Existe, por isto, a expressão “mais velha que a estrada da Capela”. Por ela, antigamente, se chegava tanto a Montenegro (pela estrada do Paquete), como ao Caí.

Masson retrata a situação da estrada em 1940. Ela começava no ponto em que hoje se encontra a entrada do núcleo da UCS Vale do Caí. Seguia até as proximidades do campo de futebol do Altaneiro e dali seguia até o Passo da Taquara. Na sequência, chegava ao Virador, local de terreno arenoso, onde carretas viravam com facilidade e o trânsito fez com que se formasse um pequeno cânion, com altos barrancos nas laterais da estrada. Seguindo em direção de Capela, hoje ela atravessa a RS-240 e, logo depois disto, desce por uma forte lomba, na qual a prefeitura do Caí fez um investimento importante para a época: uma pavimentação com pedra irregular. Isto deve ter acontecido no tempo dos primeiros automóveis, que tinham muita dificuldade em subir lombas, principalmente em terrenos arenosos, que levavam os carros a patinar. Logo em seguida, a estrada atravessa o arroio Mineiro. Mas isto não constou da descrição de Masson. Chegava, então à vila de Capela de Santana. Depois, passando novamente pelo arroio Mineiro, seguia por um caminho hoje menos conhecidos que, em 1940 (segundo Masson) pertenciam ao município de Canoas e que, depois, passaram à posse do municípo de Portão.

O passo do Rio dos Sinos deve ser o mesmo que hoje é mais conhecido como Passo do Carioca, no bairro do Carioca (da cidade de Sapucaia do Sul). Próximo ao Zoológico de Sapucaia. Por este passo deu-se a penetração dos primeiros colonizadores que transpuseram o rio do Sinos e foram se estabelecer em Capela de Santana (anteriormente conhecida como Sant’Ana do Rio dos Sinos e, mais antigamente ainda, como Ilha do Rio dos Sinos).

Antes da construção da estrada estadual Buarque de Macedo (atual RS-122), a estrada da Capela ia até o Caí. Ao invés de entroncar com a Buarque de Macedo, ela passava, então, pela lomba da Roseta. Outro local que ficou famoso pela dificuldade que os antigos automóveis encontravam nos aclives. Em seguida havia o armazém de Jacob Thomas Klein (prédio ainda hoje muito bem conservado). E, depois, o Passo do Cadeia, local onde se atravessava o arroio a vao (caminhando ou sobre uma montaria) ou numa balsa. Por fim, chegava-se ao Caí, pelo bairro Quilombo (atual rua Esperanto).

 

“Estrada do Paquete. Partindo da sede do distrito de Capela, passa pela Fazeda Paquete, e vai ligar-se à estrada Buarque de Macedo nas proximidades do passo do Manduca.”

Na época em que Alceu Masson escrevia, não existia ainda a atual ponte da RS-240 e a única forma de cruzar o rio Caí para chegar de carro a Montenegro era usando a barca existente no Passo do Manduca (situado na cidade de Montenegro). Tanto a estrada estadual Buarque de Macedo como a estrada do Paquete (municipal) convergiam para o passo.

A estrada do Paquete começa, em Capela de Santana, nas proximidades do antigo e histórico cemitério católico da cidade.

Pode causar estranheza no leitor o fato de que a área situada do outro lado do rio, em frente à cidade de Montenegro, pertencia ao município do Caí (hoje pertence ao de Capela de Santana, que emancipou-se do Caí). Da mesma forma, as terras situadas no outro lado do rio, em frente à cidade do Caí, pertenciam a Montenegro (hoje pertencem ao ex-distrito montenegrino de Pareci Novo). Antigamente, os rios e arroios eram usados preferencialmente para marcar as divisas entre municípios.

Segundo a Wikipédia, paquete é a denominação dada aos antigos navios de luxo de grande velocidade, geralmente movidos a vapor. Na origem do nome está a designação inglesa de packet boat e que pode ser traduzida para português como navio dos pacotes. Estes navios faziam travessias regulares levando encomendas (pacotes) e correio. Posteriormente, alguns armadores realizaram contratos com a Coroa de Inglaterra para levar o correio, ganhando o direito de usar o prefixo RMS (Royal Mail Ship). O Titanic tinha este prefixo, por exemplo.

Introduzida em 1850, a linha de Paquetes a Vapor ‘estabelecida por conta Régia de Sua Majestade Britânica’, rompeu mais de três séculos de incerteza do tempo de travessia do Atlântico pelos navios à vela. O impacto dessa linha a marcou o imaginário popular.”

Consta que o nome da fazenda Paquete se deve ao naufrágio de um navio no rio Caí, em frente a esta fazenda. Poderia ser o caso do vapor Horizonte, que naufragou naquelas imediações. Ou talvez um caso mais antigo que não identificamos.

 

“Estrada do Campestre. Sai da estrada Júlio de Castilhos nas proximidades do povoado de Conceição, e termina no arroio Feitoria.”

É a estrada do Campestrão. O arroio Feitoria é um afluente do Cadeia que banha os municípios de Dois Irmãos, Ivoti e Lindolfo Collor.

“Estrada do Pareci. Partindo da estrada da Capela, perto do entroncamento desta com a Júlio de Castilhos, passa por Pareci Velho e pela Estação Pareci, na linha da viação férrea, e liga-se à Buarque de Macedo, no distrito de Capela.”

Esta estrada começa nas imediações do campo de futebol do Altaneiro, na Barra do Cadeia, passando pela localidade de Pareci Velho e, logo depois, penetra no município de Capela de Santana, na localidade hoje denominada Estação Pareci.

 

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