foto do acervo de Felipe Kuhn Braun

Fato singelo, ocorrido em São Sebastião do Cai no ano de 1929, relatado por Carlos Henrique Hunsche, o maior historiador da colonização alemã no Rio Grande do Sul:

“O Pastor Heinrich Wilhelm Hunsche, meu inesquecível avô, quando contava já 90 anos de idade, certo dia perguntou a mim, então um jovem de dezesseis anos, se o acompanharia à igreja. Mesmo que não quisesse, como teria eu a coragem de negar-me! Não gostei do convite. Temia que o honorável ancião me perguntasse sobre a minha disposição de estudar teologia. Eu sabia ser esse o seu desejo, mas eu não estava decidido.

Heinrich Hunsche foi o primeiro pastor da paróquia evangélica que englobava as povoações de São José do Hortêncio, Linha Nova e Nova Petrópolis
Reprodução/FN

Com estas preocupações entrei, a seu lado, na igreja. Chegamos ao altar. Ele parou. Agora virá a pergunta, pensei. Que vou responder? De repente, o vovô se separou de mim, contornou o altar e começou a subir os degraus do púlpito, pausadamente, um após outro, até chegar ao topo. Lá apoiando os seus braços sobre o púlpito, disse com voz firme: “Ainda dá!”. E, no domingo seguinte, o nonagenário celebrou, em substituição ao pastor local, impedido, todo o culto festivo de Natal.”

Heinrich Hunsche, avô do formidável historiador Carlos Henrique Hunsche, foi o primeiro pastor da paróquia evangélica que englobava as povoações de São José do Hortêncio, Linha Nova e Nova Petrópolis. Quando já era muito idoso, aposentou-se das suas atividades em Linha Nova e foi morar em São Sebastião do Caí, na casa de seu filho médico: Carlos Frederico Hunsche. Mesmo em idade avançada, sempre que o pastor do Caí ficava impedido de celebrar os cultos, o velho pastor Hunsche o substituía. Como aconteceu naquele longínquo dia de Natal caiense.

Naufrágio na chegada a Rio Grande

No ano de 1868, quando o pastor Heinrich Wilhelm Hunsche chegou ao Brasil, a Alemanha apresentava um estágio de desenvolvimento muito superior ao do Brasil. Os alemães daquela época eram, em média, mais educados, qualificados e responsáveis do que os Brasileiros. O que pode se dizer, também, da época atual e de qualquer outra. Porém, esta diferença não pode ser afirmada tão categoricamente. Existe muito brasileiro (bloa) que é excelente pessoa, também existem alemães de muito pouca serventia. Daqueles “que não vale um tiro”, no dizer pitoresco de antigamente.

Prova disto é o relato da “proesa” praticada pelo capitão do navio que trouxe o pastor do porto alemão de Hamburgo até (perto do) porto de Rio Grande. Fato que contrasta com o procedimento de outro capitão alemão relatado em outra postagem deste blog https://fatonovo.com.br/blogs/historias-do-vale-do-cai/etica-na-navegacao/

É confortador para nós, brasileiros, saber que a diferença de nível entre os habitantes do primeiro mundo e as do terceiro não chega a ser tão contrastante.

A tradução deste trecho do diário do pastor Hunsche é do pastor Horst Helmuth Bergmann, de Gramado, transcrita no livro Pastor Heinrich W. Hunsche e os começos da Igreja Evangélica no Sul do Brasil. Obra do grande historiador caiense Carlos Henrique Hunsche.

“Finalmente, no dia 19 de janeiro, à tarde, enxergamos a tão esperada costa do Brasil, após 90 dias de viagem. Era domingo, o mar calmo e tranquilo. Já havíamos celebrado o culto. Não foi possível entrar, neste mesmo dia, no porto, altamente perigoso, de Rio Grande; mas, no outro dia, entraríamos com toda certeza. Este dia, 20 de janeiro, aniversário do meu colega Brutschin, tornou-se desastroso para nós; naufragou o navio a três horas e meia ao sul de Rio Grande. A manhã rompeu calma, tranquila e risonha, enchendo os nossos corações de júbilo e alegria. O vento, o tempo, a proximidade da terra – tudo prometia uma feliz entrada ao porto. Às nove horas avistamos o farol. A primeira saudação fez-se por meio de sinais. Que alegria: enxergávamos clara e nitidamente, as casas de Rio Grande! Mas, ai de nós! O capitão queria livrar-se do seu navio obsoleto. Bêbado, como toda a sua tripulação, sinalizava, propositadamente mal, que teríamos 11 pés de calado, quando, na verdade eram só 8 a 7. O farol, mesmo assim, respondeu que não haveria água suficiente na barra e que não poderíamos entrar. Visivelmente irritado, o capitão voltou para o mar. Algumas horas depois, aproximou-se novamente. Como deixara o sinal em 11 pés de calado, avisaram, outra vez, do farol: Pouca água! Voltaram a beber e, em aparente indignação pela negativa da barra, o capitão dirigiu o navio para o sul, a toda vela. Pouco depois, nos encontrávamos entre os bancos de areia. Passamos arrastando sobre os primeiros bancos. O próprio capitão havia pegado o leme e, cambaleando para lá e para cá de embriaguês, comandava, com voz de causar pavor: Colham as velas! e fez com que o veleiro encalhasse diante da arrebentação, apesar do vento e do tempo bom…

Do farol tinham observado as manobras do capitão e haviam previsto que o navio iria naufragar. “Foi a nossa sorte!” Depois de muito temer e ansiar, notaram, perscrutando apreensivamente a redondeza, a aproximação de um bote salva-vidas ripulado por seis homens corpulentos. Provinha de uma embarcação fundeada a cerca de uma hora e meia do nosso local, o paquete “Proteção”. Fincaram uma estaca na duna perto do nosso veleiro e, depois de atar na estaca um cabo, vieram de bote para o navio e firmaram nele a outra ponta do cabo. Ao longo deste cabo iniciaram a operação de resgate: “As costas de um mulato forte, cheguei à terra sem sequer molhar os pés”.

“Em honra aos brasileiros, seja dito, estes tripulantes prestaram um serviço de auxílio bom e inesquecível para nós”. O desembarque em solo brasileiro efetuou-se apenas com as roupas que vestíamos na ocasião. O restante, como bagagem, lembranças, presentes etc permaneceu a bordo da escuna “que a todo instante afundava mais”. Passaram a primeira noite a bordo do mencionado paquete, onde foram tratados com a maior cordialidade: pela primeira vez travaram conhecimento com o prato tradicional do brasileiro: feijão e arroz.

 

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