Karl Henrich Oderich (Carlos Henrique Oderich, o fundador da Conservas Oderich) com sua esposa Alzira Michaelsen Oderich, numa foto feita no Caí cinco anos depois da viagem que quase lhes foi fatal. Alzira morreu com mais de cem anos Arquivo/FN

Numa das suas crônicas, publicadas no livro organizado por seu filho Luiz Fernando, Max Adolfo Oderich conta a história de um acidente marítimo ocorrido numa viagem da qual participavam Adolfo Oderich (seu pai), Carlos Henrique Oderich (seu irmão) e suas esposas.

Eles navegavam no navio M.S.Monte Cervantes, que pertencia a uma companhia de navegação alemã. Companhia esta que tinha o incrível e impronunciável nome de Hamburgsüdamericanischedampfschiffahrtpacketaktiengesellschaft.

Perto da cidade de Ushuaia, na Patagônia, no extremo sul da Argentina, ocorreu o acidente. O navio, embora conduzido regularmente e sob a orientação de um prático argentino (conhecedor daquela parte do oceano), bateu contra um recife submerso. O que ocasionou um grande rombo no costado (parte lateral do casco do navio). Para evitar que a embarcação afundasse, o capitão ordenou imediatamente que fosse dada força máxima aos motores, impulsionando o barco para a frente. Com isto o barco ficou “espetado” sobre a montanha submersa e não afundou. Graças à perícia e sangue frio do capitão, todos os passageiros e marujos salvaram-se, sendo levados até a margem nos botes salva-vidas.

Todos menos o capitão, pois a ética da classe dos comandantes de embarcações (pelo menos na Alemanha) mandava que o capitão não voltasse com vida se o seu barco não voltasse com ele.

Consultando a internet apuramos, num site sobre faróis argentinos, que o Monte Cervantes levava cerca de 1.500 pessoas, entre passageiros e tripulantes. O acidente ocorreu em 1930 e o capitão se chamava Theodor Dreyer. Um dia e meio depois do acidente, quando todos os demais estavam à salvo, na costa, o navio afundou e o capitão, que ainda se encontrava dentro do seu navio, afundou junto com ele.

Isto faz lembrar o fato de que, nos vapores que singravam as águas do rio Caí, o cabine do comandante ficava sobre a caldeira da embarcação. Portanto, se a caldeira explodisse, a primeira pessoa a morrer era o comandante.

Esta ética, aparentemente absurda, tinha um objetivo prático. O amor pela própria vida fazia com que os comandantes fossem muito zelosos quanto à segurança de seus barcos e daqueles que neles viajavam.

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