No aniversário de emancipação de 107 anos do Caí, Walter Füller, leitor do Fato Novo, fez uma bem humorada análise da evolução política e econômica do município Reprodução/FN

Seu Walter Füller não era um literato. Era um homem simples, mas bem humorado e com boas ideias, que ele gostava de expor no jornal Fato Novo (com alguma ajuda do editor). Quando se comemorava o 107º aniversário da emancipação de São Sebastião do Caí, em 1º de maio de 1982, o assunto do momento era a emancipação do distrito de Bom Princípio.

Saiu uma matéria assinada por ele, com o título Caí: 107 anos de diminuição: uma bem humorada análise da evolução política e econômica do município.

“O Caí andou dormindo durante 100 anos. Nos últimos sete, entretanto, acordou e começou a mexer-se.

Temos hoje, por aqui, o Banco do Brasil, a Caixa Federal, a Estadual (popular cofre do povo) e o Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Sem falar do Sul Brasileiro, nosso velho Sulbanco.

Novas e grandes indústrias vieram para cá, como a Fasolo e a Vacchi (wz-Eran). Outras, locais, continuam aí, crescendo e dando mais emprego pra nossa gente. Nossos filhos não precisam mais sair do Caí para conseguir um bom emprego.

Mas, se tudo isso é bom e é motivo para que nos sintamos alegres nestes dias de festa em que comemoramos o aniversário da nossa emancipação, uma outra emancipação, a dos nossos distritos de Bom Princípio e São Vendelino, vem turvar a nossa mente e encher de tristezas o nosso coração.

Tão perturbado fiquei, ao saber que a região norte do nosso município, a nossa Suíça Caiense, iria emancipar-se, que cheguei a delirar e ouvir vozes. Vozes lúgubres que, em meio à madrugada, ecoavam nas pedras frias da nossa cidade, dizendo:
“Já fui Feliz. Minha vida teve um Bom Princípio. Mas depois abriu-se o Portão das amarguras e eu Caí na desgraça.”

Depois de tantos anos de experiência em percorrer as ruas do Caí, entregando pão, foi me acontecer de entrar na contra mão na rua da rodoviária. Por sorte foi às cinco da madrugada e não tinha nenhum brigadiano por perto. Mas por aí vocês podem ver como ando perturbado.

Estou, na verdade, desesperado. Não posso me conformar com o fato de termos perdido mais estes dois distritos que, na minha opinião, eram os mais bonitinhos que nós tínhamos.

Como poderá o Caí sobreviver a esse golpe tão rude?

Como poderá conformar-se em ser tão pequeno, um município que já estendeu-se de Canoas até Caxias?

Será que não vai adiantar o mandado de segurança impetrado pelo senhor prefeito?

Todas estas questões me angustiam. Não dormi a noite toda e o pão precisa ser entregue.

Precisamos invocar a lei segundo a qual não pode haver emancipação quando a sobrevivência do município mãe fica ameaçada. Do contrário, daqui a pouco, também se emancipam São José do Hortêncio, a Capela, Conceição (que até rima com emancipação) e não sobra mais nada do município. Só a Sede. Isso se a Vila Rica não inventar de emancipar-se, como já andam falando por aí.

E depois vai o Quilombo, a Coréia e tudo mais. Se continuar assim, o município do Caí vai acabar sendo só o prédio da prefeitura.

Algo precisa ser feito para mudar esta tendência. Se não vai acontecer até do Caí pedir a emancipação dele mesmo.”

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Deixe um comentário
Please enter your name here