Ezequiel ganhou uma bola do Inter de aniversário e faz dois meses que vive com os pais e três irmãos em Montenegro, cidade que deve receber mais de 350 venezuelanos Crédito: Guilherme Baptista/FN

Rafael Diaz chegou a Montenegro em junho. Enfrentou o frio intenso e outras dificuldades. Faz duas semanas que chegaram também esposa e os quatro filhos, incluindo uma menina de 10 meses e três garotos de 5, 7 e 10 anos. “Na Venezuela eu trabalhava na feira. O que ganhava não dava para sustentar a família”, disse, agradecendo a acolhida em Montenegro. Ele trabalha na JBS diariamente das 23h às 7h da manhã. E trabalhou inclusive no feriado de 7 de setembro.

Bruno e Luisa, da Aldeias Infantis SOS Brasil, com a família de Ezequiel que ganhou uma bola de presente de aniversário
Crédito: Guilherme Baptista/FN

O menino mais velho estava de aniversário no dia 3 de setembro, sexta-feira. Ezequiel Alejandro completou 10 anos. E ganhou de presente, Luisa Camargo e Bruno Munci, da Aldeias Infantis SOS Brasil, uma bola de futebol do Inter, clube que já começou a torcer, inclusive usando uma touca do colorado. “Pelota, pelota (bola em espanhol)”, gritava, feliz, já saindo chutando pela casa e no pequeno pátio da margem da Estrada Selma Wallauer, no bairro Faxinal, novo lar da família de venezuelanos.

O futebol não é o esporte mais praticado na Venezuela. Está atrás do beisebol. Mas Ezequiel sonhava com uma bola de futebol e teve o seu sonho realizado.

Mais de 350 devem chegar

Um total de 120 trabalhadores venezuelanos e suas famílias devem ser recebidos em Montenegro dentro do programa de interiorização. Serão entre 350 e 400 refugiados que devem vir através da Operação Acolhida, integrada pelo Governo Federal, Forças Armadas, Organização das Nações Unidas (ONU) e entidades como Rotary Clube e Aldeias Infantis SOS Brasil.

A força tarefa logística humanitária busca atender aos refugiados e imigrantes da Venezuela que entraram no Brasil através da fronteira com o Estado de Roraima. Eles deixaram seu país em razão da crise política e econômica. São pessoas de várias profissões, que não tinham mais comida, remédios e segurança. Mais de 50 mil refugiados que deixaram o território venezuelano, através da Operação Acolhida foram recebidos em diversos municípios do Brasil. E um dos destinos é Montenegro.

Conforme os assistentes de desenvolvimento familiar e comunitário Luisa Camargo e Bruno Munci, da Aldeias Infantis SOS Brasil, em entrevista à Rádio América, a primeira turma de venezuelanos chegou em Montenegro em 20 de junho. Depois vieram mais em julho e agosto. Hoje seriam 43 trabalhadores venezuelanos que já foram acolhidos pelo programa. No total são 120 vagas garantidas pela JBS para venezuelanos que chegam com emprego garantido. Eles estavam num abrigo em Boa Vista, capital de Roraima, sendo que após chegarem a Montenegro ficaram inicialmente trinta dias num hotel, custeados pela ONU, para o período de adaptação, e depois passam com suas famílias a ocupar casas de aluguel.

Só de chinelo

Foram inúmeras as dificuldades no início. Além da cultura diferente, também o clima. Praticamente vieram só com a roupa do corpo, saindo do calor de Roraima para uma onda de frio no Rio Grande do Sul. Alguns chegaram só de chinelo de dedo e roupas de verão. Com o apoio de entidades, empresas e poder público, receberam roupas e calçados, além de mobiliário e utensílios nas moradias. As organizações envolvidas também tiveram dificuldades em conseguir locar casas devido à exigência de fiador. Ainda se busca vagas para as crianças nas escolas públicas e a regularização da documentação.

São pessoas de diferentes profissões que agora estão num outro tipo de trabalho e num país diferente, mas aproveitando a oportunidade de uma vida melhor, em que possa sobreviver com suas famílias, algo que não estavam conseguindo na Venezuela. Os empregos oferecidos são em áreas como de produção e expedição. “Estavam passando fome lá”, diz Luisa. Ela cita que devem chegar ainda em Montenegro mais cerca de 80 venezuelanos para trabalharem na JBS. Inclusive uma nova leva está prevista para chegar na próxima semana. Quem puder ajudar, seja através de doações de roupas, calçados, móveis, eletrodomésticos e utensílios, pode entrar em contato com o Rotary e a Aldeias Infantis SOS Brasil. “Nós buscamos”, diz Luisa, que agradece o apoio do Rotary e da Defesa Civil.

Alguns venezuelanos já estão acomodados em casas, com suas famílias. “É um movimento migratório inevitável, por questões econômicas, sociais e políticas”, afirma Luisa. “Estão buscando proteger seus filhos e familiares. E por isso temos que ter um olhar humanitário”, considera. Sobre o emprego, a permanência vai depender do empenho de cada um. Em alguns casos, casais já estão trabalhando na mesma empresa.

Sobre o fato de venezuelanos estarem dormindo nas ruas em algumas cidades brasileiras, o que teria sido denunciado também em redes sociais de Montenegro. Um casal, recentemente, foi visto junto a uma sinaleira, sendo que o homem trazia um menino nos ombros e com um cartaz informava que eram venezuelanos e estavam dormindo na rua. Entidades e Guarda Municipal buscaram verificar, tendo descoberto que a família não integra o programa de acolhimento e que na verdade estaria residindo em Porto Alegre e pedindo dinheiro em várias cidades.

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