O Cine Gaúcho funcionou nas décadas de 1930 e 1940 Arquivo/FN

Mery P. Berwanger, escreveu para o Fato Novo, no ano de 1982, um artigo em que relembrava um dos encantos da sua juventude:

“Lá pelos idos de 1930, um cidadão empreendedor dotou de um cinema a cidade de São Sebastião do Caí. O nome escolhido era másculo: Cine Gaúcho. Todo de madeira, ele era grande e dotado de galerias laterais, as minhas preferidas.

E não é que lotava?!

A grande novidade era a sirene. Quando tocava, todos se apressavam a chegar. O dono ficava à porta, esperando os retardatários para começar a sessão. Havia uma lei não escrita segundo a qual cada um tinha o seu lugar. E ai daquele que ousasse ocupá-lo. Ouviria uma voz irritada que lhe diria: “Faça o favor. Este lugar é meu.”

A princípio, o cinema era mudo. Mas havia a orquestra boa e afinada. Flauta tocada pelo Danilo, o bonitão; piano pela simpática Anita; contrabaixo pelo Athalíbio, o conquistador. Eles tocavam sempre as mesmas músicas. Aquelas que conheciam de cor, pois os músicos também queriam ver o filme. A plateia, compreensiva, dava um desconto. Quando o filme terminava, a orquestra ainda tocava uma tremida Ave Maria, enquanto os jovens casais, em suas casas, já chegavam às vias de fato.

E os intervalos! Eram o melhor de tudo. Acendiam-se as luzes e os namorados aproveitavam para linhar (paquerar) de longe. Ocorriam, as vezes, oito intervalos durante a apresentação de um filme. Então os cavalheiros aproveitavam para ir até a copa tomar uma cervejinha e comentar o lindo busto da artista. Voltavam trazendo as famosas balas de coco, de fabricação caseira, para as suas patroas.

Nos filmes de Buster Keaton, havia um frequentador que dava incríveis risadas, que iam crescendo, crescendo e terminavam de repente, como o estalar de um chicote.

E quantas vezes, sem o calejo das tele-novelas, saíamos com a cabeça baixa, olhos vermelhos de chorar, faces borradas de rímel. Nos escondendo dos nossos admiradores.
Filmes bons eram estes, que faziam rir ou chorar. O beijo na boca era o ponto culminante.

De vez em quando passava um filme pornô. Mas era só para homens.

Até hoje, parte do Cine Gaúcho nos contempla do alto do Cine Aloma, pois o seu teto transmigrou para lá.

A sirene também é a mesma que até hoje nos chama.

Cine Gaúcho. Estarás sempre na nossa saudade.”

Notas: o Cine Gaúcho pertenceu ao dentista João Juchem, que tinha o seu consultório e residência na casa que depois pertenceu ao, também dentista, Artur Schaeffer. O prédio do cinema ficava ao lado desta casa. Músicos citados: Danilo Zimmermann, Anita Blauth (irmã do seu Helmuth) e Athalíbio Berwanger.

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