Casa do Imigrante, na Feitoria Velha, em São Leopoldo. Foto anterior a 1941

Pelo ano de 1979, o coordenador deste blog, Renato Klein, começou a interessar-se pela história do seu município e da sua região. Era muito difícil encontrar alguma informação a respeito. A única obra recente editada sobre o assunto era Montenegro de Ontem e de Hoje. Nela se destaca a contribuição de Antônio Carlos Fenandes Rosa, com a sua História de Montenegro. Outra obra importante que, embora não tratasse especificamente sobre a história do Vale do Caí, mas serviu muito para orientar as pesquisas do, então, jovem historiador, foi O Biênio 1824/25 da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul, de Carlos Henrique Hunsche.

Estimulado pelos ensinamentos destes grandes mestres, Klein começou a ler, ouvir, anotar, reunindo o material que, hoje, é utilizado na elaboração de textos para este blog.

Ainda no início destas pesquisas, por volta do ano de 1980, o pesquisador principiante deparou-se, muitas vezes, com referências feitas à Real Feitoria do Linho Cânhamo. Como todas as pessoas que conhecem a história da imigração alemã para o Rio Grande do Sul já sabiam, a Real Feitoria era uma fazenda pertencente à coroa portuguesa que, tendo sido desativada, teve suas terras aproveitada para a instalação dos colonos alemães atraídos pelo governo imperial brasileiro a partir do ano de 1824. Ela situava-se onde hoje se encontram a cidade de São Leopoldo e seus arredores e foi o berço da colonização alemã no Estado. Pode se dizer que o fracasso deste empreendimento governamental foi importante para que estas terras se tornassem disponíveis para a fixação dos colonos naquele local.

Em dado momento da nossa pesquisa tivemos a curiosidade despertada para um aspecto. O que seria este tal de Linho Cânhamo, produto que motivara a criação da feitoria ? Quanto a isto, as informações encontradas nos livros que tratam do assunto eram poucas. Constava apenas que o linho cânhamo servia ao fabrico de cordoaria para as embarcações. Como naquela época os navios militares eram veleiros que precisavam muito de cordas e do tecido das velas, entende-se que importância que tinha para o governo a produção do linho cânhamo, usado para a confecção destes produtos tão necessários para a navegação.

Mas uma questão intrigou o jovem pesquisador:

Que planta é este tal de linho cânhamo. Será uma variedade do linho ou do cânhamo?

Nenhum dos livros consultados esclarecia esta questão.

Ao resolver buscar a resposta para esta pergunta, Renato Klein fez uma descoberta impressionante. Um caso típico de sorte de principiante.

Linho Cânhamo é maconha

Para tentar esclarecer a questão, Renato Klein (então um jovem pesquisador) consultou uma pequena enciclopédia: a Tudo, da Editora Abril. Deparou-se com uma informação instigante no verbete Cânhamo. O seguinte:

Os imigrantes alemães, ao chegar, foram alojados na senzala de uma antiga fazenda do governo chamada Real Feitoria do Linho Cânhamo. Mas, afinal, o que é linho cânhamo?

“Cânhamo (Cannabis sativa), planta herbácea da família das Monáceas, originária da Ásia Central. De sua casca extraem-se fibras utilizadas na indústria têxtil e em cordoaria; o lenho, além de fornecer óleo de propriedades medicinais, pode ser usado como forragem, adubo e matéria-prima para a fabricação de papel. As folhas e as inflorescências femininas possuem qualidades alucinógenas. Introduzida no Brasil no final do século XVIII para uso têxtil, seu cultivo foi proibido e abandonado em meados do século seguinte, restando pequenas plantações clandestinas, para emprego como entorpecente. No Brasil, a planta é mais conhecida como maconha, diamba ou marijuana. No Oriente, recebe o nome de haxixe.”

Este curto verbete diz muito e sugere fortemente que a fazenda implantada no Rio Grande do Sul pelo governo português era uma grande plantação de maconha. Mas restavam dúvidas. Afinal, o nome da feitoria não era Real Feitoria do Cânhamo. O produto da fazenda governamental tinha um outro nome: linho cânhamo. Seria um nome antigo do cânhamo ou uma outra planta?

Conseguimos eliminar esta dúvida ao consultarmos uma antiga enciclopédia editada em Portugal, que encontramos na biblioteca pública de São Leopoldo: a Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira. Na página 168 do volume XV desta grande obra encontramos exatamente o que estávamos procurando: o verbete Linho Cânhamo. É curto, mas esclarecedor:

“Linho Cânhamo: Nome que, por vezes, se atribui ao cânhamo.”

Não restava dúvida, portanto. O que se produzia na feitoria era, realmente, a planta que conhecemos hoje pelo nome de maconha.

Numa outra enciclopédia, a enorme Enciclopédia Universal Ilustrada Europeu Americana, escrita em espanhol, encontramos detalhadas informações sobre o cânhamo, inclusive um esclarecimento importante: quando cultivado em clima tropical, a cannabis sativa desenvolve características diferentes das que apresenta ao ser plantada em clima frio. É chamada, então, de cânhamo da Índia. Consta também desta enciclopédia que estas plantas são “conoscidas com el nombre de Hashish ó Haschisch y que fuman los orientales con objeto de experimentar una embriaguez especial.”

Com o conhecimento de que o Linho Cânhamo é, afinal, a tão popular maconha e que ela, ao ser cultivada no nosso clima tropical desenvolve fortemente as suas propriedades alucinógenas, torna-se fácil entender os problemas enfrentados pelos administradores da antiga feitoria, que acabaram levando o empreendimento à ruína.

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