Prédio da administração da Real Feitoria do Linho Cânhamo

O importante historiador Aurélio Porto (que foi prefeito de Montenegro nos anos de 1920 a 1924), na sua obra O Trabalho Alemão no Rio Grande do Sul, faz eloquente descrição destes problemas. Embora que ele, por não saber que o Linho Cânhamo era a maconha, não tenha relacionado os mesmos problemas com o uso indevido da cannabis sativa pelos trabalhadores da Feitoria. Vejamos alguns trechos do seu livro:

“ Durante os doze anos que administrou a Feitoria do Courita, até 1801, nada de apreciável apresentou o tenente Morais Sarmento. Reproduziram-se as mesmas insubordinações, a mesma inatividade, a mesma deplorável situação que se observava no antigo estabelecimento.”

“Uma providência enérgica se impunha. E essa seria a substituição do administrador que, nos últimos tempos, perdera até a força moral ante as desordens do estabelecimento.”

A Feitoria do Courita, a que se refere Aurélio Porto nestes trechos, é a mesma Real Feitoria do Linho Cânhamo, que ele trata por este nome porque as terras nas quais ela foi implantada chamavam-se anteriormente Faxinal do Courita. Courita era o apelido de seu antigo posseiro. E ao mencionar o “antigo estabelecimento” ele se refere à primeira localização da Feitoria, em terras do atual município de Canguçu. Lá ela fora instalada no ano de 1783. Sobre os acontecimentos registrados nesta primeira feitoria, Aurélio Porto também faz narrativas sugestivas:

Os escravos “rebelavam-se, não obedecendo às ordens recebidas, de forma que o trabalho era moroso e deficiente. Sem força moral para se impor, negligente mesmo, o administrador Pegado sentia-se impotente para conjurar a insubordinação geral dos seus auxiliares.”

“No ano seguinte, não melhorara a situação da Feitoria. O inspetor não dava contas exatas dos negócios da administração.” “Tudo está desorganizado e em completa anarquia. Ninguém mais ali se entende e obedece às ordens do inspetor. O novo capelão que viera para a Feitoria comete os maiores desatinos. E tal forma se vê o padre Manuel Gomes acossado que se finge de louco, para ser retirado do estabelecimento. Uma noite, alarma toda a Feitoria com os seus rugidos, à frente de todos, em trajos menos sacerdotais. Rompe em acusações seríssimas contra o inspetor, blasfemando horrivelmente.”

Como se vê, tanto os escravos, como os administradores e até mesmo o padre capelão apresentavam um comportamento muito estranho naquela fazenda em que abundava a cannabis sativa. Não é para menos. Por certo não era fácil administrar uma plantação de maconha.

Aurélio Porto registra ainda em seu livro que era objetivo da feitoria propagar o cultivo do cânhamo. “Costumavam os inspetores, ao princípio, distribuí-la pelos agricultores do distrito. Os vice-reis, em pomposos reclamos,” (anúncios, propaganda) “prometiam compensador pagamento a todo o produto que fosse entregue ao governo. No fim da safra, pelo interesse despertado entre os ilhéus, centenas de quintais” (medida de peso equivalente a quatro arrobas, ou seja, aproximadamente 60 quilos) “foram abastecer a Cordoaria Real. Mas o pagamento não foi feito, porque não havia dinheiro. Estava o Continente em pleno regime do calote oficial”.

Reclama-se dos governos atuais. Mas vê-se por aí que os governos antigos eram bem piores. A coroa portuguesa, além de aplicar o calote nos seus fornecedores, se dedicava à produção de maconha e ainda incentivava os agricultores a também cultivá-la. Em tempo: quando Aurélio Porto se refere ao Continente, trata do Continente de São Pedro, nome que era dado ao Rio Grande o Sul em certa época.

Novo destino para as terras da feitoria

Diante da incapacidade do administrador Morais de fazer a Feitoria produzir decentemente, ele foi demitido e, em seu lugar, assumiu o severo padre Antônio Gonçalves da Cruz. Com muito esforço, exigindo o máximo dos trabalhadores, ele conseguiu – no primeiro ano – uma colheita de 2.100 quilos de linho. Com o tempo, o padre desanimou da produção do cânhamo e voltou a atividade da feitoria para a criação de gado. Assim conseguiu fazer com que ela prosperasse, produzindo grandes quantidades de couro, sebo e graxa, com o que tornou a feitoria lucrativa.

Em 1815, depois de 14 anos de trabalho enérgico no qual tantas vezes recorreu a castigos  aplicados nos negros, o padre foi vítima de um deles que, desesperado ante a iminência de um castigo, assassinou o padre com uma faca. Para substituir o Padre Cruz, veio o Tenente José Manuel Antunes Frota, que administrou a feitoria de janeiro de 1816 até a sua morte, em 1820. Na sua administração o empreendimento foi à ruína. Quando alguns anos depois o governo do imperador Dom Pedro I resolveu extinguir a feitoria, haviam ainda nela 321 escravos. E outros 334 já haviam sido remetidos para o Rio de Janeiro anteriormente. Estes números dão uma ideia da grandeza deste malfadado empreendimento estatal. O governo não poupou investimentos na sua tentativa de produzir o linho cânhamo.

Ao extinguir a feitoria, Dom Pedro tinha já o propósito de destinar as suas terras para um outro projeto estratégico. A fazenda foi dividida em lotes que foram doados para imigrantes alemães. A terra foi dividida em 160 lotes e ali se instalaram as primeiras famílias de colonos alemães chegados ao Rio Grande do Sul no ano de 1824. Eles chegaram às terras da Feitoria no dia 25 de julho, no porto da fazenda, no local onde hoje se encontra o Monumento ao Imigrante, na praça próxima à atual estação rodoviária da cidade de São Leopoldo.

 

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