Avanço das palometas, chamada de “piranha gaúcha”, causa preocupação no rio Caí

Espécie tem proliferado e ameaça outros peixes - Crédito: Gustavo Weber/Arquivo pessoal

A existência de Palometas no rio Caí, também conhecida como “piranha gaúcha”, causa preocupação. O fato foi constatado recentemente por pescadores como Marcos e Gustavo Weber (pai e filho) que fisgaram os peixes nas águas do rio Caí em Bom Princípio.

A Prefeitura de Bom Princípio já havia feito alerta há alguns dias sobre as precauções a serem tomadas por conta da constatação da existência destes peixes no rio Caí. Weber costuma pescar com o pai há 20 anos. Ficou intrigado ao encontrar o peixe pela primeira vez e logo comunicou à prefeitura, que emitiu um alerta à população em uma rede social no início do ano. “O ferimento deve ser lavado com água e sabão, para evitar uma infecção bacteriana. Em casos de mordidas mais profundas, recomenda-se procurar a UPA”, orienta a publicação.

Marcos Weber e o filho Gustavo ficaram surpresos com as palometas encontradas e pescadas no rio Caí em Bom Princípio – Crédito: Gustavo Weber/Arquivo pessoal

O fato foi destaque na última semana no jornal Zero Hora. No rio Caí, Marcos e o filho Gustavo costumavam pescar lambari, piaba, joaninha, jundiá e pintado. Mas estes dois últimos já não encontram mais. Depois de terem achado as palometas, a dupla não pescou nada mais naquele dia, além de dois peixes já comidos pela metade. Disseram que chegavam a ver as palometas perseguindo os peixes na água, enquanto pescavam no trecho entre a ponte da Bela Vista e o Balneário de Bom Princípio.

A espécie de piranha, que é carnívora, tem causado desequilíbrio no ecossistema, já que se alimenta das demais espécies nativas, tornando os outros peixes mais escassos. Sabrina Schuh, bióloga da Secretaria do Meio Ambiente de Bom Princípio, diz que a prefeitura ainda analisa o assunto, mas deve acionar o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) ou a Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam).

As palometas também já foram encontradas em outros pontos do rio Caí, em diversas cidades da região. O primeiro registro, segundo o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Caí (Comitê Caí), foi em 30 de março de 2022, em Pareci Novo. Oriunda da Bacia do Rio Uruguai, a espécie também já chegou a outros rios do Estado, como Jacuí, Taquari, Antas e Sinos, além do Guaíba e lagoas como dos Patos.

Presidente do Comitê Caí alerta sobre palometas

O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do rio Caí, Rafael Altenhofen, falou sobre a proliferação das palometas na região.

“A captura de palometas no Rio Caí é uma situação relativamente recente, cujo primeiro registro no trecho médio chegou ao Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica em 30 de março de 2022, com um espécime pescado no município de Pareci Novo – aproximadamente um ano depois dos primeiros registros que surgiram no Vale do Taquari, em General Câmara.

Já no Jacuí há relatos das primeiras capturas ou vestígios de predação de pescado ainda em 2020 – rio no qual se acredita que tenham sido introduzidas pelo Rio Vacacaí (seu afluente) via canais de irrigação de lavouras de arroz no município de São Gabriel, que captam águas de afluentes do Rio Ibicuí (bacia do Uruguai – onde estudos indicam sua presença desde 1983). Vale destacar que os primeiros registros de palometas para o Vacacaí datam de 2015.

Não se pode descartar, entretanto, a possibilidade de alguma soltura ou fuga de criação em cativeiro. Não podemos esquecer que nos nossos rios temos espécies exóticas como as tilápias ou as carpas por exemplo que também foram introduzidas de alguma forma e essas não o foram por transposição de bacias, já que são espécies de outros continentes. Há alguns dias, por exemplo, foi capturado um peixe da espécie Pacu (nativo das bacias do Paraná e Paraguai) no rio Caí, no município de Montenegro, possivelmente um escape de açude.

Em outubro de 2023 já foram registradas capturas de palometas em dois pontos do Cai no Município de Feliz – o local mais a montante que se tem registro até o momento.

Quando uma espécie animal é introduzida num ambiente e tem sucesso reprodutivo, apresentando alguma vantagem em termos de crescimento populacional sobre as nativas (autóctones) ela é classificada como invasora. São várias as formas como essas invasoras podem suplantar populações de espécies nativas; mas no caso de predadores – como as palometas – elas irão predar espécies nativas possivelmente muito antes que passem a se tornar presas e assim incorporadas à dieta alimentar das nativas, num processo de estabilização populacional. Importante também atentar ao fato de que a espécie reconhecidamente predadora de palometas na bacia do Rio Uruguai, o peixe-dourado, apresenta uma população muito reduzida em nossos rios da região hidrográfica do Guaíba devido sobrepesca, perda de habitat e poluição hídrica e, assim, com o reduzido número atual, não é capaz de controlar as palometas aqui.
Além de predar espécies nativas, podendo reduzir populações ou até mesmo eventualmente causar extinções de algumas espécies locais (há estudos em outros rios que indicam essa possibilidade, embora ainda não se tenha dados suficientes para se afirmar isso aqui em nossos rios, nem mesmo se afirmar quais as espécies nativas mais prejudicadas), há ainda o risco de acidentes (mordidas) em pessoas que estiverem na água (banhistas ou pescadores). De momento, entretanto, os impactos negativos mais significativos já constatados são sem dúvida aqueles relacionados à perda de pescado em espinhéis e redes de pesca.

A prevenção sempre é a melhor estratégia. Infelizmente na atual situação há pouco a se prevenir na Região Hidrográfica do Guaíba. Mas ainda é possível impedir que as palometas sejam transpostas da Lagoa do Casamento (bacia da Laguna dos Patos) para a Lagoa da Fortaleza, chegando assim à bacia do Rio Tramandaí, via canais de irrigação existentes naquela região.

Nos corpos hídricos que se conectam naturalmente não há alternativa eficaz para conter o avanço das palometas, somente medidas que visam tentar reduzir os contingentes populacionais – como algumas ações já aplicadas na bacia do Uruguai, que envolvem por exemplo campeonatos de pesca de palometas. Estímulo à pesca e aproveitamento culinário da espécie, por exemplo, podem contribuir para acelerar a estabilização das populações de palometas na região, mas depois que estabelecida, erradicá-la é praticamente impossível.

Se é possível se falar em lado positivo nessa situação talvez seja o aprendizado que isso pode nos trazer quanto os riscos de se introduzir espécies invasoras, contribuindo para sensibilizar a população, já que ainda hoje reiteradamente chegam ao Comitê Cai notícias de iniciativas privadas ou até mesmo públicas (por administrações municipais) de repovoamento de peixes, com introdução de alevinos. Esa atividade, conforme nossa legislação, requer licenciamento ambiental prévio, pela FEPAM, aliada a um plano maior, regional, por bacia hidrográfica, que se não for tecnicamente planejada e conduzida pode gerar várias consequências negativas ao rio.

O senso comum nos leva a acreditar que repovoar populações ou introduzir espécies é algo simples e que sempre ajuda os rios. Mas os conhecimentos em Ictiologia e Ecologia de populações e casos práticos nos mostram que a questão é mais complexa. Há que se considerarem os riscos, como, entre outros, desde eventual introdução de espécies que não ocorrem naquela bacia, eventuais patógenos presentes nesses alevinos e alterações na variabilidade genética das pulações locais por introdução de variantes de outros locais – podendo vir a suplantar genes de interesse adaptativo local ou até mesmo populações inteiras em caso de invasoras.

Importante ainda, em casos de constatação da redução de populações naturais, que se identifiquem suas causas. Se for sobrepesca, um plano de repovoamento, aliado a ações de fiscalização hoje já feitas, pode ajudar se tecnicamente conduzidas. Quando, entretanto, a causa principal é a perda de qualidade ambiental por poluição hídrica (efluentes industriais e cloacais) e pela perda de ambientes, com a degradação da vegetação ciliar por exemplo, repovoamentos são ineficazes do ponto de vista de ganho ambiental enquanto não resolvidas essas causas, além de se manterem os riscos negativos, como os que já mencionei.
O consórcio intermunicipal Pró-Sinos coordena um grupo de trabalho chamado Monitora Palometas Sinos, criado em 2022. Embora originalmente criado para a bacia Sinos ele recebe informações de registros de outros rios também. Semana passada recebemos nele a informação que foram capturadas palometas no municipio de Rolante! Fazendo-se um paralelo então entre a hidrografia do Sinos e do Caí é possivel inferir que aqui as palometas possivelmente já estejam acima também do município de Feliz, mas apenas não capturadas ou não reportados registros ainda.”

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