Desde o ano passado o infectologista Felipe Canello Pires alertava para o risco de uma nova onda, ainda mais agressiva - Crédito: ACOM/Prefeitura

Em entrevistas concedidas no ano passado, o médico infectologista e hospitalista Felipe Canello Pires alertava sobre o risco de uma nova onda na pandemia, principalmente após o relaxamento nas restrições e medidas de prevenção. Coordenador da Medicina Hospitalar do Hospital Montenegro (HM) e infectologista da Secretaria Municipal da Saúde, Felipe temia que viesse a ocorrer um novo aumento nas internações e óbitos. E que o coronavírus poderia ser ainda mais agressivo.

Entre setembro e outubro, por exemplo, Montenegro chegou há ficar um mês sem registrar nenhum óbito de paciente com Covid-19. Até então não passavam de 20 óbitos no município desde o início da pandema. Mas no final de outubro voltou a ocorrer uma morte. E a partir daí os casos foram aumentando. Em menos de seis meses foram mais 70 óbitos e hoje somam 90, sendo que só em março, mesmo antes de terminar o mês, já foram 32 vítimas fatais. Ou seja, mais de um terço de todos os óbitos  aconteceram neste mês de março. A média agora é de mais de um óbito por dia. E está piorando. Foram 13 mortes registradas nos últimos quatro dias.

Faltam leitos, medicamentos e profissionais para atender o grande número de internações
– Crédito: HM

O doutor Felipe, mesmo quando passou o inverno e houve uma queda nas mortes e internações, alertava para a população não baixar a guarda. E como já havia ocorrido em outros países, tinha o risco de uma nova onda. Em junho ele chegou a ser criticado em redes sociais quando defendeu mais restrições. “Se não fechar vamos ficar sobrecarregados”, temia. Também surgiram críticas quando declarou que não concordava com o tratamento precoce e defendia a prevenção como melhor remédio. Em agosto, mesmo com a melhora no cenário da pandemia, alertou novamente sobre o risco de uma nova elevação nos casos, defendendo a suspensão de cirurgias eletivas para evitar a falta de medicações, pois na época (seis meses atrás), já estava difícil adquirir sedativos, que são necessários para a intubuação.

Veio o pior momento

Lamentavelmente a situação piorou muito. “Está muito difícil. Pacientes tratados de maneira improvisada, acarretando óbitos por covid e outras doenças”, afirma o infectologista, sobre a falta de medicação, como sedativos e bloqueadores, para intubação, e de leitos em UTI para os casos mais graves. Ressaltou ainda a falta de profissionais, com os hospitais tentando contratar médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem. “Não tem material humano. Os profissionais estão exaustos”, declara. “Está muito complicado. Todo dia alguém da equipe médica passa mal”, completa, sobre a falta de recursos, sobrecarga e o convívio com o drama das famílias dos pacientes.

Sobre a chamada nova variante do vírus, o médico acredita que está sendo mais transmissível e agressiva. “Os pacientes pioram muito rápido. E tem atingido pacientes mais jovens, que já chegam com estado grave, necessitando de intubação”, afirma. Além dos óbitos, ressalta as seqüelas nos pacientes, que tem uma recuperação lenta. “A impressão é que não vai passar tão cedo”, teme o infectologista, que aposta na vacinação e na prevenção como as principais medidas para conter o contágio.

Outra preocupação é com a chegada do outono e depois com o inverno, quando costumam aumentar os problemas respiratórios e outras doenças. Com a grande demanda das complicações decorrentes do coronavírus, poderá comprometer ainda mais o atendimento aos pacientes.

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