Dia dos Namorados em plena Copa

Oscar Bessi

Eu estava no estúdio da Rádio América, com os inigualáveis monstros do rádio Jean Silva e Guilherme Batista, falando sobre o dia dos namorados. De repente Vó Heda Hesmitelz (conhecem né, aquela parente do Luia!) me envia um “zap” com sua indicação de cardápio afrodisíaco para a noite especial dos casais apaixonados: cuca de rabanete com bergamota. “Mas aí dá é separação!”, protestou o Guilherme, na hora, se referindo aos possíveis efeitos colaterais desta iguaria, principalmente sob o edredon. “Tem coisa pior”, filosofou Jean – que tem essa mania de filosofar, o que ajuda muito na audiência da rádio, ainda mais com aquela voz de Pavarotti. Concordo. Como o que aconteceu numa copa passada com o casal Libório e Dorotéia. Amigos meus. Por isso não vou dizer quem, dos dois me contou.

– Amor…

– Hum?

– Vamos almoçar juntos, hoje?

– Bah, hoje não dá. Combinei com os guris.

– Oi? Guris?

– Do trampo.

– Li! Sabe que dia é hoje?

– Claro.

– E?

– Abertura da Copa, Dô! Brasil e Croácia. Pensa!

– Não acredito!

– Pode acreditar. O jogo é às 13h, mas o chefe já nos liberou da tarde pra ver o jogo. Gurizada já reservou o chope e coisarada!

Ela virou o rosto lentamente.

– Libório Santos do Nascimento!

– Ih.

– …

– Quando tu fala meu nome completo…

– Então.

– Aniversário da tua mãe? Teu? Não era em setembro?

– Pô! É Dia dos Namorados!

– Quê?

– Dia dos Na-mo-rados! Entendeu?

– Putz. Sério? Hoje?

Ele conferiu a data no relógio. No celular.

– Bah. Pois é. Também. Que dia pra ter jogo, hein amor? Mas ó, é jogo do Brasil, né.

– …

– E é Copa do Mundo! E…

Não terminou a explicação. Mas quase terminaram o namoro. Só não romperam porque ele tomou uma decisão: disse aos amigos que estava ruim, dor de garganta, diarreia, enxaqueca, vá saber se não é gripe A, dengue, essas coisas, e ele não queria contaminar ninguém. O chefe ficou sabendo e exigiu atestado, mas quando soube que ele tinha cancelado até o chope com os amigos para ver o jogo do Brasil, ficou com remorso e desejou melhoras. Não precisava atestado nenhum, só doente mesmo para não ver a abertura da copa – e jogo do Brasil! No Brasil! – com os amigos.

Ele almoçou em casa e vibrou igual com a vitória da seleção. Não teve chope, mas não deu para reclamar do chimarrão e cuca que ela fez para ambos. Estão juntos até hoje. E o Brasil não foi campeão. Nem naquela copa e nem em nenhuma outra que veio depois.

Mas este ano, vai que dá.

Ela, a Dorotéia, estava na audiência da América, quando falamos sobre o dia dos namorados. Eu ainda ria com as receitas da Vó Heda e fazia umas declarações de amor junto com o Guilherme e o Jean (não para eles, claro, cada um para sua esposa) quando ela me mandou uma mensagem: “sugere algum filme para eu ver com o Libório hoje à noite? A piazada vai pra casa da avó, lá fora, e estaremos sozinhos. Tô preparando uma jantinha de dia dos namorados pra ele”.

Ainda não respondi. É que, poucos instantes antes, ele me havia perguntado onde eu assistiria a partida entre EUA contra o Paraguai. É que estava a fim de uns chopes com os amigos para ver o jogo. “É Copa, né Oscar? Copa do mundo!”.

Pobre Libório.

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