Montenegro: a vez e a voz das mulheres na Casa do Povo

É histórico. E a história vivida, em tempos onde tudo se registra, em todos os cantos, têm capítulos importantes que precisam ser destacados em meio ao turbilhão de informações. Pois as escadarias da Câmara Municipal de Montenegro carregam, a partir de agora, o peso e a leveza de uma conquista que ficará registrada na história local. Em um Rio Grande do Sul que ainda sangra sob as estatísticas alarmantes de feminicídios em 2026, a criação da Procuradoria da Mulher, anunciada no legislativo esta semana, surge não como um órgão burocrático, mas como um farol de esperança e resistência. É um marco que transforma o Vale do Caí em um exemplo de vanguarda, especialmente quando olhamos para o cenário nacional: apenas cerca de 10% dos municípios brasileiros possuem uma estrutura similar em suas casas legislativas. É a prova de que Montenegro não aceita mais o silêncio como resposta. E muito menos a omissão ou a inércia.
A escolha da vereadora Josi Paz para ser a primeira Procuradora da Mulher do município traz uma carga emocional e simbólica profunda. Autora do projeto e detentora de uma trajetória de vida visceralmente ligada à defesa dos direitos das mulheres, assim como dos tantos grupos mais vulneráveis da nossa sociedade, Josi personifica a luta que agora se institucionaliza. Sua eleição pelos pares é o reconhecimento de que a política, quando feita com alma e propósito, serve para proteger a dignidade de quem sempre foi marginalizado. Ela assume o posto com a responsabilidade de ser o braço estendido da Câmara para cada montenegrina que busca amparo e voz. E a conquista, como ela mesmo frisou, enquanto autora do projeto, é de todos os vereadores que abraçaram a causa e a concretizaram enquanto realidade.
Essa transformação não ocorre por acaso, mas como fruto de uma configuração política sem precedentes na cidade. Pela primeira vez, vivemos um período em que a paridade deixou de ser sonho para se tornar realidade: metade das cadeiras do Legislativo é ocupada por mulheres (5 de 10 vereadores), e a Mesa Diretora atual é composta exclusivamente por elas. Ver o poder exercido por mãos femininas é um convite à reflexão sobre a justiça democrática, afinal, as mulheres representam a maioria da população e do eleitorado brasileiro. Nada mais justo que o espelho do poder reflita o rosto da sociedade.
O papel dessas procuradorias nas cidades onde já funcionam é transformador. Elas atuam no recebimento de denúncias, na fiscalização de políticas públicas e, principalmente, no combate à violência institucional. Em um ano em que os números de violência doméstica no estado e no país ainda assustam, ter um canal direto e acolhedor dentro da Casa do Povo pode ser a diferença entre o medo e a sobrevivência. Até para denunciar quem poderia fazer algo para proteger, orientar ou amparar e, por algum motivo, deu de ombros. Ou se aliou a agressores. É um mecanismo que humaniza a política e garante que as leis não fiquem apenas no papel, mas cheguem às casas, aos postos de trabalho, às escolas, às igrejas e às ruas de cada bairro ou localidade rural.
Ao final desta sessão histórica, o que se sente no ar de Montenegro é o frescor da mudança em torno da força que não se curva, não se cala e não se rende. O exemplo dado pelos vereadores locais ressoa para além das fronteiras do município, lembrando que o combate à desigualdade de gênero é uma tarefa de todos. Que a Procuradoria da Mulher seja o solo fértil onde novas políticas de proteção floresçam, e que o nome de Josi Paz seja lembrado como o primeiro de muitos que ainda virão para garantir que nenhuma mulher se sinta sozinha em sua jornada. A Casa é do Povo. E, hoje, o povo tem o rosto e a força da mulher montenegrina.



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