Cavaleiros em estrada colonial no Rio Grande do Sul Foto: Livro Estrada Rio Branco/FN

Os católicos que o jovem Padre Amstad encontrou no interior das colônias do Vale do Caí, em 1885, não eram do jeito como deviam ser. O comportamento de muitos deles não correspondia muito bem aos mandamentos do catecismo. Conta ele:

“Nos inícios coube-me atender às duas capelas chamadas “São Luiz das Escadinhas” ou Boa Vista e São Miguel do Cará, Tabakstal, em alemão. Cedo, ou logo no segundo ano do meu pastoreio, veio juntar-se-lhes Pareci, Novo e Velho, cujo trabalho nós o aceitamos do pároco de São Salvador, hoje Tupandi.”

Contava ainda naquele tempo esse último e novo lugarejo uma população acentuada de gente de cor, ou de ex-escravos do fazendeiro Inácio Teixeira.

As famílias pertencentes à capela de São Luiz das Escadinhas eram, quanto a seu número, de 80 a 90. Tinham sido, até então, simples colonos e passavam por gente muito laboriosa. Dado, porém, que, no tempo da minha chegada para o Brasil se construía uma nova estrada para a colônia de Caxias ou do ex-Campo dos Bugres, atravessando ela as terras de São Luiz das Escadinhas, uma nova influência ali se fez sentir… Por causa do movimento crescente e dos viajantes em trânsito, surgiram bodegas mais numerosas, e o bolão e o jogo de cartas introduziram-se, também, de modo mais intensivo no meio da Colônia Teuta.

Outra consequência foi a de as moças teutas terem aprendido das senhoras italianas modas novas, etc.

Outro mal, e pior, reinava na Picada seguinte, ou seja, no Tabakstal. Por causa da construção de uma capela, devido à reposição do professor e, por fim, em atenção da venda de terras, a comunidade achava-se dividida em dois partidos e seus membros desunidos de tal forma, que houvesse pessoas, e até padres, a me dizerem:

– Deixe essa gente do Tabakstal brigar. É de cabeça dura e não vai chegar a se reunir…”

Mas essa, pelo que escreveu Amstad, ainda era a parte boa do seu rebanho. A parte difícil era a de Nova Petrópolis, conforme ele relata:

Os primeiros colonos a se fixarem nas Picadas dianteiras e em terras privadas, ao se fundar essa Colônia, eram quase todos protestantes. Nos anos de setenta do século passado (XIX) vieram contudo juntar-se-lhes os boêmios. Haviam sido eles, em boa parte, ex-operários de fábricas e a seu respeito dizia-se simplesmente que eram católicos boêmios. Rezava assim o credo dessa gente natural da Boêmia, hoje Tchecoslováquia:

– Acreditamos todos nós num só Deus”

Mais uma vez observamos, neste caso, como era a mentalidade de Amstad e a dos jesuítas em geral. Para eles a única crença e o único Deus verdadeiro era o Deus dos católicos. Esta mentalidade, naturalmente, não favorecia muito à paz entre os povos. E até – pensando bem – pode ter ajudado bastante a ocorrência de guerras que era uma rotina na Europa e no mundo daquela época. Hoje em dia a mentalidade ecumênica revelada pelos boêmios parece até mais admirável. Amstad pensava como pensavam os jesuítas daquele tempo. Isto não o desmerece e não tira os méritos que fizeram dele um dos mais admiráveis vultos da região do Vale do Caí no final do século XIX e início do século XX.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Deixe um comentário
Please enter your name here