A Praça Padre Theodor Amstad em Nova Petrópolis é uma homenagem ao patrono do Cooperativismo Brasileiro Foto: Turismo Nova Petrópolis/Internet

Um pouco antes de partir para o Brasil, Amstad viu um mapa em que constavam as áreas correspondentes a cada uma das paróquias atendidas por padres jesuítas nos vales do rio dos Sinos e do rio Caí. Sem saber que seria aquela a sua futura área de atuação, ele fez a seguinte observação sobre a paróquia de São Sebastião do Caí:

“- Vejam só a paróquia que lá se acha! … Eis uma faixa estreita ao longo do rio, com cinco paróquias de cada lado e, para cúmulo de tudo, o centro paroquial dela situa-se no recanto extremo de sua parcela mais sulina!”

Amstad sequer sonhava que seria nesta paróquia, a mais desajeitada de todas, que ele teria de exercer o seu trabalho durante 22 anos seguidos. Coube-lhe a tarefa de percorrer, a cavalo, toda a extensão deste amplo território, vencendo caminhos terrivelmente mal conservados. Felizmente, ele era jovem e forte. Tinha 34 anos quando chegou ao Caí, em dezembro de 1885 e permaneceu ali até janeiro de 1908. 23 anos a fio.

E retornou mais tarde para ser, entre 1918 e 1920, o vigário da paróquia. Então, com 66 anos, ele certamente se restringia as suas funções à administração da sede paroquial, em São Sebastião do Caí, poupando-se das longas e perigosas viagens em lombo de burro.

A vida dura do missionário Amstad

As paróquias que, em 1885, estavam sob a administração da paróquia de São Sebastião do Caí eram as de São Salvador (hoje, Tupandi), Bom Princípio, Santo Inácio da Feliz, Caxias do Sul e Cima da Serra (atual São Francisco de Paula). Isto na margem direita do rio Caí. Na margem esquerda, havia outras cinco paróquias: Sant’Ana do Rio dos Sinos, São José do Hortêncio, Bom Jardim (atual Ivoti), Dois Irmãos e Mundo Novo (atual Taquara).

E grande parte deste extenso território cabia ao padre Teodoro Amstad percorrer, em lombo de mula, enfrentando caminhos difíceis e perigosos.

Certa vez o padre percorria uma picada, rumo à Linha Italiana, quando anoiteceu. O caminho estreito, no meio do mato era em declive acentuado, em direção ao rio. Podia se ouvir o murmúrio forte da corrente feroz. Não havia opção: ele tinha de arriscar a travessia, do contrário teria de voltar ou pernoitar no mato.

Conta o padre, nas suas memórias:

“Puxei do meu terço e recomendei ao Anjo da Guarda, pedindo que ele guiasse a minha mula e que ela não desse qualquer passo em falso.”

Como nos cultos dos luteranos os fiéis não se ajoelham, havia uma anedota na época. Diziam os luteranos que numa situação de grande dificuldade na travessia do rio, um padre esclamou:

– Salve-me, Nossa Senhora!

Foi a sua perdição, pois ouvindo isto, a sua mula ajoelhou-se e o padre caiu na corrente, sendo tragado pelas águas revoltas.

Ainda no início da sua atuação no Caí, o padre Amstad teve de atravessar o rio, cujas águas estavam revoltosos devido a uma enxurrada recentemente ocorrida. A travessia foi bem sucedida. Mas um comerciante que assistiu o feito, disse ao padre – tempos depois – que nem que lhe pagassem dez mil réis ele se arriscaria a fazer a travessia naquelas condições.

Noutra ocasião, Amstad percorria uma estreita picada no interior da paróquia de Nova Petrópolis. Estava escurecendo e começou a chover. A visibilidade tornou-se mínima. “De repente, senti-me puxado para trás, pos sobre a cavalgadura, até que tombasse no chão. Parecia que isso tivesse acontecido por um força invisível. De fato, porém, (um galho?) havia se enredado na manga da minha batina, furando-a. Minha alimária, nada preguiçosa naquele instante, continuou sem cavaleiro a sua marcha e eu tive de arrastar-me para frente, por bem 10 minutos, varando o caminho lodoso, até alcançar o portão do potreiro de quem me ia hospedar.”

A diocese de Amstad

Em 1885, recentemente chegado da Europa, o padre Theodor Amstad assumiu o posto de padre coadjutor do vigário Carlos Teschauer. Coadjutor quer dizer ajudante e, neste caso, queria dizer que enquanto o vigário cuidava das almas na sede da paróquia de São Sebastião do Caí e alguns arredores, cabia ao seu ajudante percorrer as localidades interioranas que pertenciam à área administrada pela paróquia de São Sebastião. Como o domínio que Amstad tinha, então, do idioma português não era dos melhores, cabia a ele, principalmente, trabalhar com as colônias alemãs. Isso incluia regiões como Escadinhas e, especialmente, a distante Nova Petrópolis. A área a ser abrangida era tão grande que não parecia uma paróquia, mas sim uma diocese. Tanto que o bispo Dom Cláudio José Ponce de Leão, o superior da igreja na então província do Rio Grande do Sul, apelidou Amstad de Bispo de Nova Petrópolis.

Pensamento da época

Quando chegou a São Sebastião do Caí, em 1885, o padre Theodor Amstad não teve uma opinião muito favorável da vila.

“Sfria ela do mal da promiscuidade étnica e confessional, que caracterizava quase todos esses lugares, sendo que os teutos protestantes superavam em muito, numericamente, os católicos. Também no concernente à sua colocação social e quanto às posses.”

Não lhe pareceu nada favorável esta situação em que “colonos católicos e protestantes moravam de mistura com os luso-brasileiros.”

Aos nossos ouvidos modernos, essas palavras parecem preconceituosas e discriminatórias. Mas refletia o pensamento das mentes bem formadas, das pessoas de bem daquela época.

O padre Arthur Rabuske, que traduziu o manuscrito de Amstad escrito por volta de 1935, comenta esta situação:

“Hoje, a partir da nossa sociedade pluralista e em clima ameno de ecumenismo, temos as nossas dificuldades em compreender a posição daqueles servos do Evangelho, parecendo-nos ela exagerada ou ao menos discutível. Fica, porém, aqui a pergunta: – teríamos nós, em circunstâncias e épocas diferentes, agido de maneira outra e mais acertada que eles?!…”

As palavras do padre Rabuske são admiráveis e demonstram como o pensamento humano evoluiu no passar de um século. Mas ao conhecermos melhor o padre Amstad veremos que ele era um homem extremamente digno e admirável. Seu pensamento estava à frente da sua época. Mais até, talvez, do que o deste outro jesuíta tão digno da nossa admiração que é o padre Rabuske.

Ruim pra cachorro

Ao chegar ao Caí, em 1885, o padre Amstad encontrou a igreja local em condições precárias. Tão baixa que, conforme nos deixou escrito o padre, “na colônia teuta costumava-se dizer:

“-Na igreja de São Sebastião existem mais cachorros do que pessoas.

Explico-me: a gente lusa, quando ia à igreja, costumava levar consigo a cachorrada. A tal inconveniente afastou-o, pouco a pouco, o mestre-trolha Unser, natural da Boêmia alemã. Empunhando um relho, postava-se ele à porta do templo e a todo representante canino, que quisesse entrar na igreja, passava um lembrete de tirar-lhe a vontade da volta.”

O que vem a ser um mestre-trolha? Amstad não nos esclarece. Trolha é um nome antigo da colher de pedreiro, usada nas construções. O mestre-trolha seria, talvez, um zelador da igreja, encarregado de fazer reparos e melhorias nos prédios da paróquia.

 

 

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