Quando o cão vira um perigo, a negligência é humana

Oscar Bessi

Sair para caminhar ou correr pelas ruas deveria ser um hábito saudável, não uma aventura com risco de ataques. Em Montenegro, uma jovem foi atacada por um cão enquanto saía para sua atividade física, no centro da cidade. No Parque Centenário, durante o Dia da Criança, um pitbull atacou um cão de pequeno porte e provocou pavor entre dezenas de crianças que estavam no local. O responsável pelo animal simplesmente não apareceu. São situações que deixam uma pergunta incômoda: até quando a população terá de conviver com a irresponsabilidade de quem não consegue cuidar adequadamente dos próprios animais?

Não se trata de demonizar cães, muito menos de condenar raças inteiras. O problema está na falta de responsabilidade dos tutores, que deixam animais soltos, permitem fugas e, muitas vezes, ignoram regras básicas de segurança. É frequente encontrar cães de grande porte circulando sem coleira adequada e animais com potencial de causar ferimentos graves sem a focinheira exigida em determinadas situações. No início de setembro, em Arroio do Sal, no Litoral Norte gaúcho, um homem de 57 anos morreu após ser atacado por três pitbulls que escaparam de uma residência. O caso evidencia uma verdade dolorosa: um portão mal fechado pode separar a rotina de uma tragédia.

Não é possível afirmar, com segurança, quantos ataques de cães acontecem diariamente no Brasil sem estabelecer uma fonte e um critério claros. O Ministério da Saúde registra atendimentos por acidentes envolvendo animais potencialmente transmissores da raiva, mas essa categoria não equivale exclusivamente a ataques de cães nem permite, por si só, estabelecer um número diário de agressões. Este detalhe já revela o descaso público geral com um problema que já matou crianças e adultos no país e se repete todos os dias. Mas o que não podemos é esperar por estatísticas perfeitas para reconhecer um perigo real. Cada pessoa ferida, cada criança aterrorizada e cada animal atacado representam uma situação que poderia, em muitos casos, ser evitada com cuidados básicos.

Os proprietários precisam responder pelas consequências de sua negligência, inclusive nas esferas civil e criminal, quando cabível. Mas responder de fato e sofrer uma punição severa por isto. Ter um animal é assumir um compromisso que vai muito além de oferecer comida e abrigo. Significa mantê-lo em segurança, impedir que ameace outras pessoas e respeitar as normas de circulação e contenção. A força, o porte e o comportamento de determinados cães exigem cuidados ainda maiores. Amor pelos animais não é deixá-los fazer o que quiserem; é protegê-los e proteger também quem vive ao redor.

Mas não basta cobrar dos tutores. O poder público precisa agir com fiscalização efetiva, identificação dos responsáveis, aplicação das penalidades previstas e uma política permanente de recolhimento, atendimento veterinário, castração e acolhimento dos animais abandonados ou em situação de risco. Abrigos adequados, campanhas de adoção responsável e canais para denúncias precisam fazer parte de uma solução duradoura, não apenas de ações isoladas após uma tragédia. Uma cidade que respeita os animais também precisa respeitar as pessoas. Porque a liberdade de um cão não pode significar o medo de uma criança ou idoso, risco para quem caminha na rua ou a perda de uma vida. Prevenir não é crueldade. É responsabilidade. E, quando a sociedade se omite, o perigo continua solto.

 

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