PRECONCEITO E MISOGINIA

Adejair Silva

PRECONCEITO E MISOGINIA (I)

A HOMOSSEXUALIDADE, em síntese, é uma característica da identidade de uma pessoa, e não uma escolha ou opção de comportamento. Ou seja, nenhum gay, ao nascer, optou por ser gay, assim como o heterossexual não optou por ser heterossexual. Simples assim.

Desde 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não considera a homossexualidade uma doença, tampouco reconhece qualquer tipo de terapia de “cura”.

Eu, como gay, posso garantir que minha condição não me causou nem causa qualquer tipo de problema, preocupação, consciência pesada ou culpa. Talvez por isso não dê importância a conceitos ou preconceitos, venham de onde vierem. Sou muito bem resolvido.

Isso significa que opiniões sobre moralidade vindas de grupos religiosos, políticos ou de parcelas da sociedade preconceituosa em nada abalam minha plena existência. Mesmo não sendo uma opção, vivo numa boa, sem culpas ou crises existenciais. Até porque o amor-próprio é tudo, e isso, por si só, descarta qualquer possibilidade de não se aceitar por ser “diferente”. Se é que existe essa diferença.

PRECONCEITO E MISOGINIA (II)

No meu caso, trato a homossexualidade como um processo natural e bem resolvido. Nunca tive problemas com isso. Entretanto, devo lembrar que muitos gays vivem verdadeiros infernos diários. Muitas vezes, não são aceitos pela própria família, o que considero um absurdo.

Além disso, sofrem com o preconceito de algumas religiões, de uma sociedade doente e com o ódio de uma parcela de políticos. Desse inferno resultam números preocupantes de suicídios, agressões e assassinatos contra gays.

Ou seja, em nome de um falso moralismo imbecil, causam dor e sofrimento a seres humanos que, por direito, deveriam viver suas vidas conforme são.

Aliás, as agressões físicas e verbais, em muitos casos, partem de pessoas que tentam esconder os próprios defeitos ou que nunca tiveram coragem suficiente para SAIR DO ARMÁRIO. Se é que me fiz entender, né?

PRECONCEITO E MISOGINIA (III)

FEMINICÍDIO, em suma, é o assassinato de uma mulher motivado por razões da condição do sexo feminino, envolvendo violência doméstica e familiar ou menosprezo e discriminação contra a mulher. A Lei nº 13.104/2015 tipificou o feminicídio como crime hediondo, com pena de 20 a 40 anos de reclusão.

No Brasil, a cada cinco horas ocorre um feminicídio.

A MISOGINIA é o ódio, a aversão, o desprezo ou o preconceito enraizado contra as mulheres ou o gênero feminino. Todos esses ingredientes fazem com que as mulheres se tornem alvos de homens inescrupulosos e covardes.

Geralmente, são os tais “machões” (?) que não aceitam um “não” ou o término de uma relação. E quase diariamente assistimos, nos noticiários, a mais e mais vítimas dessa terrível realidade.

PRECONCEITO E MISOGINIA (IV)

E veio o primeiro turno das eleições. O povo brasileiro foi às urnas exercer sua cidadania.

Depois de uma campanha em que os candidatos deveriam expor suas ideias e projetos, pouco disso se viu. A polarização impede uma visão positiva sobre as propostas e reduz a capacidade de os candidatos apresentarem uma perspectiva mais ampla sobre assuntos de real interesse da população.

Daí se fala sobre tudo, menos sobre o que realmente interessa. E surgem verdadeiras comédias se apresentando como candidatos: figuras quase circenses, gente sem a menor capacidade de nos representar na Câmara ou no Senado.

Embaladas pelo alto engajamento nas redes sociais, essas figuras cômicas e vazias aproveitam-se da ingenuidade de seus seguidores para “lacrar”, utilizando temas polêmicos como plataforma política. Temas que, muitas vezes, desviam a atenção de suas atribuições como representantes públicos.

Afinal, saúde, saneamento básico, infraestrutura, emprego e habitação também precisam estar entre as prioridades dos políticos. Fora disso, corre-se o risco de ficar apenas na lacração e em discursos sem utilidade prática.

PRECONCEITO E MISOGINIA (V)

E aberração foi o que acabou ocorrendo nesta eleição. A deputada mais votada por São Paulo, por exemplo, representa, na minha opinião, tudo o que relatei acima.

Segundo declarações atribuídas à parlamentar eleita, ela afirmou que o feminicídio não existe e que o homem teria o direito de mandar na mulher por ser superior a ela. A mesma deputada, que se intitula “antifeminista”, também teria declarado que pretende lutar contra a proposta que tramita na Câmara sobre a criminalização da misoginia.

Ou seja, elegeram uma mulher — inclusive com votos de outras mulheres — que, na visão aqui expressa, se posiciona contra direitos e pautas de respeito às próprias mulheres. Seria cômico se não fosse trágico.

Além dessa figura, foi eleito outro deputado que se posiciona contra os direitos dos gays. Segundo declarações atribuídas a ele, pretende combater conquistas dessa comunidade por considerá-las imorais.

Aliás, na minha visão de especialista no assunto, ambos demonstram, por suas posições, atitudes que considero incompatíveis com o respeito à diversidade. E, para manter o tom provocativo desta coluna, fica a pergunta: será que não têm coragem de SAIR DO ARMÁRIO? (Rsrs.)

PRECONCEITO E MISOGINIA (VI)

Lendo esta coluna desde o início, o nobre leitor entenderá alguns dos motivos que levam os homossexuais a sofrer tanto preconceito e que ajudam a explicar a persistência da violência contra as mulheres.

Além de outros fatores, surgem figuras circenses e medíocres que, pelo voto popular, são eleitas e eleitos e, em vez de se dedicarem às atribuições de suas funções políticas, preferem alimentar polêmicas que pouco contribuem para a solução dos problemas da população.

É lamentável que essas figuras usem seus mandatos para atacar seres humanos, como se fossem donos da moralidade. É lamentável que, em vez de construírem algo útil para a sociedade, prefiram a falácia, o ódio, o preconceito e a ofensa.

Infelizmente, foram eleitos. E isso comprova que muita gente fez das urnas um belo de um PINICO.

E tenho dito!

E, com essas, só me resta dizer: inté!

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