Monstros também usam fantasias

Oscar Bessi

Quem não ficou chocado com a notícia da prisão do Mickey Mouse abusador de crianças? A realidade deste crime hediondo é asquerosa e terrível. E o pior: mais comum do que imaginamos. Sim, há monstros que não vivem em cavernas, não aparecem em filmes de terror e não precisam de máscaras para esconder o que são. Eles estão ao nosso lado. Alguns vestem crachás, uniformes ou fantasias pueris, conquistam a confiança de famílias e circulam em lugares onde crianças deveriam estar seguras. Alguns, estão dentro das nossas casas.

A recente megaoperação policial no condado de Polk, na Flórida, nos Estados Unidos, escancarou essa realidade. Foram 281 pessoas presas em uma semana de investigação contra o tráfico humano e a predação sexual de menores. Entre os suspeitos, 17 trabalhavam em parques temáticos da região, 13 deles na Disney. Um dos presos, de 24 anos, já havia interpretado o personagem do Mickey Mouse. Ao apresentá-lo, o xerife Grady Judd o classificou como uma das pessoas mais doentes e repugnantes que já havia prendido. É difícil imaginar contraste mais perverso: alguém que vestia uma fantasia para divertir crianças, segundo a investigação, escondia intenções criminosas contra elas. Detalhe: esse sujeito abominável até estoque de fraldas possuía.

A notícia assusta, mas também nos obriga a olhar para além dos personagens e dos cenários. O abuso e a exploração sexual infantil não acontecem somente em becos escuros ou em ambientes clandestinos. Podem estar escondidos em relações de confiança, em pessoas próximas, em instituições respeitadas e até – e com muita frequência – no ambiente virtual, onde predadores encontram maneiras de se aproximar de suas vítimas. É nesse contexto que circulam histórias assustadoras sobre crianças desaparecidas em parques da Disney, supostamente levadas por passagens secretas, enquanto suas mães seriam desacreditadas ou tratadas como loucas.

No Brasil, a realidade não é menos alarmante. Um estudo do UNICEF, da ECPAT Internacional e da Interpol revelou que, em apenas um ano, cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes brasileiros, entre 12 e 17 anos, sofreram alguma forma de violência sexual facilitada pela tecnologia. Isso representa aproximadamente uma em cada cinco pessoas nessa faixa etária. O levantamento também identificou que 34% das vítimas não contaram a ninguém o que haviam sofrido. O silêncio, portanto, não é um detalhe: é parte do mecanismo que permite a continuidade da violência. Vergonha, medo, ameaças e a dificuldade de reconhecer o abuso fazem com que muitas vítimas permaneçam sozinhas diante de seus agressores. E, quando o criminoso é alguém conhecido, a dor pode ser ainda maior.

É preciso compreender que a proteção da infância não pode depender apenas de operações policiais, por mais necessárias e importantes que sejam. Governos precisam investir em políticas públicas, investigação, acolhimento e educação preventiva. Escolas, instituições esportivas, espaços de lazer e organizações que trabalham com crianças devem estabelecer protocolos rigorosos de proteção.

Mas há uma responsabilidade que começa dentro de casa. Pais e responsáveis precisam conversar, ouvir e acompanhar. Não se trata de vigiar cada passo dos filhos, mas de conhecer suas relações, observar mudanças de comportamento e, especialmente, prestar atenção ao que consomem na internet, com quem conversam e a que tipo de conteúdo eles estão sendo expostos. Redes sociais, jogos e aplicativos de mensagens também podem ser portas de entrada para o aliciamento. Crianças precisam saber que nenhum segredo imposto por um adulto deve ser maior do que sua segurança.

Talvez o maior desafio seja construir uma cultura em que a proteção das crianças seja um compromisso de todos. Uma sociedade que não se cale diante de comportamentos suspeitos, que não relativize abordagens inadequadas, que não culpabilize vítimas e que não tenha medo de denunciar. No Brasil, o Disque 100 recebe denúncias gratuitas e anônimas de violações contra crianças e adolescentes. Mas a denúncia precisa ser acompanhada de acolhimento, investigação e responsabilização. Não podemos aceitar que a infância seja tratada como território disponível para predadores. Não podemos naturalizar o silêncio, a omissão ou a indiferença. Porque os monstros existem, sim. E, às vezes, estão muito mais perto do que imaginamos. O que não pode existir é uma sociedade que, mesmo diante de todo esse quadro monstruoso, continue só fingindo que não vê.

Monstros também usam fantasias, para se disfarçarem. E dos personagens mais amados do mundo. Mas a pior fantasia que podem usar para se esconder é, e sempre será, a nossa ignorância sobre o tema, a nossa inércia perante os perigos ou, pior ainda, o nosso descaso e desinteresse. Quem ama, protege.

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