A democracia dos intolerantes?

Oscar Bessi

Há coisas que a política explica, mas não justifica. Uma delas é a mania de transformar divergências ideológicas em sentenças de exclusão. Nos últimos dias, listas compartilhadas em grupos de WhatsApp e redes sociais, em cidades do Vale do Caí e de outras regiões do Rio Grande do Sul, passaram a apontar estabelecimentos comerciais e profissionais supostamente identificados com a esquerda, com o petismo ou responsabilizados pela derrota de Flávio Bolsonaro nas eleições nacionais. A recomendação, explícita ou disfarçada, é cancelar, boicotar, deixar de comprar, de contratar, de frequentar. Como se a preferência política, que na maioria das vezes é até circunstancial, fosse um atestado de competência ou de caráter. Como se o voto de alguém autorizasse os outros a condená-lo publicamente.

Além da intolerância, há nessas listas uma impressionante falta de inteligência comercial. Um estabelecimento não pertence ideologicamente ao seu proprietário, muito menos à opinião deste ou daquele funcionário. Um profissional não deveria precisar apresentar sua ficha política para exercer seu ofício. Quem decide boicotar um negócio por causa das convicções atribuídas a seu dono, ou a algum dos seus integrantes, pode estar prejudicando não só empregados, mas fornecedores, parceiros e famílias que nada têm a ver com a disputa. É uma estratégia de gestão tão rudimentar quanto tentar apagar um incêndio espalhando gasolina. E há uma ironia adicional: quem se julga defensor da liberdade de empreender acaba defendendo que o mercado seja submetido a uma espécie de tribunal ideológico.

O consumidor tem, evidentemente, o direito de escolher onde compra, de quem contrata e quais empresas merecem sua confiança. Esse direito é parte da liberdade. Mas existe uma diferença enorme entre fazer uma escolha individual, baseada em critérios legítimos, e organizar campanhas de constrangimento público para punir pessoas por suas supostas posições políticas. A primeira atitude é liberdade de consciência. A segunda pode se transformar em intimidação coletiva, difamação e perseguição. Especialmente quando listas circulam sem provas, sem contexto e sem que os apontados tenham sequer a oportunidade de se manifestar. A liberdade de expressão não deveria servir de licença para destruir reputações, assim como a liberdade de consumir não deveria ser confundida com o direito de perseguir.

O mais curioso é que muitos dos entusiastas desse tipo de campanha provavelmente se consideram defensores da democracia, da liberdade e do direito de pensar diferente. Mas a democracia não é um contrato pelo qual aceitamos a liberdade apenas quando ela favorece os nossos. Não se pode exigir respeito ao próprio voto e, ao mesmo tempo, tratar o voto alheio como motivo para exclusão. Não se pode defender a livre iniciativa e estimular o boicote a um concorrente porque ele supostamente pensa diferente. Tampouco se constrói uma sociedade melhor transformando vizinhos, clientes, colegas de profissão e comerciantes em inimigos. A política já tem divisões suficientes. Importá-las para cada balcão, consultório, oficina ou mesa de restaurante é condenar a convivência ao permanente estado de guerra.

E há uma pergunta que os autores dessas listas deveriam fazer a si mesmos: será que a derrota de um candidato se explica pela existência de comerciantes, profissionais liberais ou cidadãos que não votaram nele? Será que o problema está em quem vende um produto, presta um serviço ou publica uma opinião qualquer, ou nas razões que levaram milhões de eleitores a tomar outra decisão? Uma eleição não se perde por causa de uma lista de clientes de uma padaria, de uma loja de roupas, de um escritório de advocacia, de um salão de beleza ou de um consultório. Perde-se quando um projeto político não consegue convencer uma parcela suficiente da sociedade. O resultado das urnas também exige leitura, humildade e autocrítica. E o avanço de forças de direita na composição dos governos estaduais e do Congresso, em uma dimensão histórica que merece análise cuidadosa, não autoriza ninguém a confundir maioria eleitoral com licença para perseguir minorias ou adversários.

No fim das contas, Flávio Bolsonaro não perdeu por culpa de comerciantes, profissionais ou cidadãos que pensam diferente. Perdeu por responsabilidade própria e pelas limitações de seu projeto político, inclusive pelas atitudes extremistas, preconceituosas e pouco inteligentes que afastam eleitores em vez de conquistá-los. As urnas podem ter sinalizado um desejo de mudança na condução do país, mas também deixaram uma lição que alguns parecem incapazes de aprender: não basta conquistar votos – é preciso compreender a sociedade que se pretende representar. Quem responde à derrota com listas de perseguição, ameaças de boicote e patrulhamento ideológico apenas confirma os motivos pelos quais tanta gente rejeita esse comportamento. A democracia não exige que sejamos amigos, nem que concordemos uns com os outros. Exige algo muito mais difícil: que saibamos conviver sem transformar nossas diferenças em armas. Porque, quando o ódio escolhe até onde podemos comprar, trabalhar ou conviver, já não estamos defendendo nossas ideias. Estamos apenas confessando a nossa incapacidade de respeitar as dos outros.

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