A urna não faz milagres

Uma eleição é muito mais do que uma contagem de votos. É uma fotografia, ainda que imperfeita, de um país que nem sempre sabe explicar o que sente, mas encontra na urna uma maneira de demonstrar sua insatisfação. O primeiro turno das eleições brasileiras deixou recados que merecem ser lidos sem a pressa dos vencedores e sem a arrogância dos derrotados. Há um desejo evidente de mudanças, um cansaço com velhas fórmulas, promessas repetidas e escândalos que se acumulam como poeira sobre os móveis da República. Mas também há uma pergunta incômoda: queremos mudar o quê, exatamente? Porque mudar por indignação é compreensível. Saber para onde queremos ir é outra história.
Mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas no primeiro turno, uma abstenção de 21,08%, a maior registrada em eleições gerais desde 1998. É gente demais para caber na explicação cômoda de que faltou interesse. Há dificuldades práticas, desencanto, descrença e a sensação de que a política virou um espetáculo permanente, no qual os atores brigam diante das câmeras enquanto a vida real continua esperando soluções. A ausência também comunica alguma coisa, embora não diga exatamente o quê. Pode ser protesto, indiferença, desânimo ou simples impossibilidade. O problema é que, quando deixamos de participar, não suspendemos as decisões do país. Apenas entregamos aos outros uma parcela maior do poder de decidir por nós. A democracia não exige entusiasmo diário, mas precisa de cidadãos que não desistam dela justamente quando mais desconfiam de seus representantes.
O resultado das urnas também revela que o desejo de mudança pode ser maior do que a compreensão sobre o destino dessa mudança. O eleitor não precisa ser especialista em economia, direito ou administração pública para escolher seus representantes. Precisa, porém, desconfiar de quem oferece soluções fáceis para problemas difíceis. Mas isto é algo que um pouquinho de conhecimento e pesquisa atenuariam. A grande questão é que promessa de ordem não garante justiça. Um discurso de liberdade não assegura respeito. E a palavra mudança, sozinha, não é certificado de competência, honestidade ou humanidade. Às vezes, queremos tanto nos livrar daquilo que nos decepcionou que não examinamos com o devido cuidado aquilo que estamos colocando em seu lugar. A insatisfação popular é legítima e precisa ser ouvida. Mas não deveria ser explorada por quem confunde esperança com cheque em branco.
Nesse cenário, os escândalos e as controvérsias envolvendo o Supremo Tribunal Federal agravam a desconfiança nas instituições. Uma democracia não pode exigir respeito cego a autoridades, muito menos conceder a integrantes de qualquer Poder uma espécie de salvo-conduto moral. Se existem indícios de irregularidades, eles precisam ser investigados com independência, transparência e rigor. Se houver culpa comprovada, deve haver responsabilização. Mas também precisamos distinguir fatos, suspeitas e versões fabricadas para servir a interesses políticos. Criticar o Supremo não é atacar a democracia; ao contrário, instituições fortes devem suportar questionamentos e prestar contas. O que não podemos aceitar é que a indignação legítima seja transformada em licença para condenações sem provas, assim como não podemos usar a defesa das instituições para proteger eventuais abusos. A lei não deveria ter partido, sobrenome ou endereço privilegiado.
Até o segundo turno, teremos mais alguns dias de discursos inflamados, vídeos recortados, notícias falsas e especialistas improvisados em redes sociais. Seria bom que, por uma vez, a paixão política não nos fizesse esquecer a educação, o respeito e o bom senso. Não precisamos transformar parentes em inimigos, amizades em trincheiras ou cada conversa em um julgamento sobre o caráter alheio. Precisamos comparar propostas, examinar trajetórias, cobrar explicações e pensar nas consequências das escolhas para além da próxima manchete. Também precisamos olhar para a segurança, a saúde, a educação, o emprego, a pobreza e o futuro de nossos filhos, sem permitir que o medo ou o ódio ocupem o lugar de todas as outras preocupações. Um país não se torna melhor apenas porque um candidato vence. Torna-se melhor quando seus cidadãos continuam atentos depois da vitória, inclusive quando o eleito é aquele em quem depositaram sua confiança.
No fim, talvez a maior lição desta eleição seja a de que a urna tem uma capacidade extraordinária de expressar a vontade popular, mas nenhuma de garantir, sozinha, que essa vontade se transforme em dias melhores. Ela não pensa por nós, não separa verdades de mentiras e não corrige nossas escolhas depois que a tela se apaga. No segundo turno, teremos mais uma oportunidade de decidir. Que não a desperdicemos escolhendo apenas contra alguém, movidos pela raiva ou pelo ressentimento. Que saibamos escolher a favor de alguma coisa: de um país mais justo, de instituições responsáveis, de uma sociedade menos violenta e de uma convivência em que discordar não seja sinônimo de odiar. Afinal, depois que as urnas fecham e os discursos terminam, continuamos todos morando na mesma casa. E nenhuma eleição, por mais disputada que seja, nos dará o direito de incendiar o telhado só para provar que o vizinho estava errado.
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