Candidatos e candidatos

A cada eleição brasileira, e cada vez mais, surgem candidatos de todos os tipos. Principalmente postulantes às cadeiras dos poderes legislativos. E é cada figura que aparece, que o horário eleitoral gratuito (aquele que talvez só os interessados no pleito assistam, pois a maioria do povo nem dá bola) quase que se transforma em algo divertido. O problema é que não tem nada de engraçado em vermos a falta de seriedade da coisa política no nosso país. E saber que, sim, muitas dessas caricaturas acabam eleitas.
Já houve um tempo em que expressões como “romper com a política tradicional” ou “voto de protesto” tinham algum significado relevante. Hoje, já calejados de tantos pleitos após a redemocratização do país, podemos verificar as consequências. Talvez por isso seja necessário compreender que ser “novo” não significa necessariamente ser bom, assim como ser conhecido não significa estar preparado. A política não deveria ser um concurso de popularidade, nem o Parlamento um lugar para premiar celebridades. Afinal, aquele cantor de quem gostamos, o artista que admiramos ou o jogador de futebol que tantas alegrias nos deu pode ser uma pessoa extraordinária, mas será que tem capacidade para nos representar?
Representar não é apenas falar em nosso nome diante de uma câmera. É conhecer os problemas da comunidade, compreender as necessidades de uma categoria profissional, defender princípios, estudar leis, fiscalizar governos, discutir orçamento, formular propostas e, sobretudo, tomar decisões que muitas vezes não serão populares. A pergunta, portanto, deveria ser simples: essa pessoa tem competência para ser um dos novos legisladores do Estado ou da Nação? Ela conhece a realidade que pretende transformar? Tem preparo, experiência, equilíbrio e disposição para trabalhar depois que terminarem os aplausos? Porque saber cantar, atuar, jogar futebol ou ser famoso é uma coisa; legislar e administrar o interesse público é outra, completamente diferente. O que, de fato, essa pessoa fez até aqui para justificar ser eleito?
E chegamos à era dos chamados “influencers”, alguns com milhares ou até milhões de seguidores, que agora descobrem também na política uma possibilidade de carreira. Alguns podem, evidentemente, surpreender positivamente. Mas um currículo formado por vídeos engraçados, opiniões polêmicas, pegadinhas e milhões de visualizações não oferece nenhuma garantia de que teremos um bom legislador ou gestor público. Seguidores não são eleitores conscientes, curtidas não são experiência administrativa e viralização não é conhecimento sobre orçamento, saúde, educação, segurança ou infraestrutura. O algoritmo pode eleger alguém para a internet. Quem deveria eleger para a política é a nossa consciência.
Talvez, então, a pergunta mais incômoda não deva ser dirigida aos candidatos, mas a nós mesmos: estamos valorizando o nosso voto? Estamos compreendendo o que significa colocar alguém em um cargo público que será remunerado com o dinheiro dos nossos impostos e que terá a obrigação de dar respostas às nossas necessidades? Votar não é dar uma curtida, escolher um ídolo, fazer uma brincadeira ou simplesmente protestar contra tudo o que está aí. É entregar a alguém uma parcela do nosso poder e esperar, em contrapartida, trabalho, responsabilidade e resultados. E isso vale para qualquer candidato, famoso ou desconhecido.
No fim, talvez precisemos recuperar uma palavra que parece ter perdido espaço em tempos de celebridades instantâneas: critério. Votar por amizade, por fanatismo partidário, por religião ou time de futebol? Pela música que cantou no rádio? Antes de perguntar quantos seguidores alguém possui, deveríamos perguntar o que essa pessoa sabe. Antes de admirar sua fama, conhecer suas propostas. Porque o mandato não será exercido com aplausos, gols, músicas, vídeos ou memes. Será exercido com decisões. E quando a eleição passar, nós continuaremos aqui, até o próximo pleito e além, pagando impostos, enfrentando problemas e, principalmente, tendo que viver com as consequências das escolhas que fizemos diante da urna.



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