Uma dor que ninguém deveria conhecer

Oscar Bessi

Minha irmã chorava sobre o caixão da minha sobrinha, há poucos dias, enquanto pedia desculpas por não conseguir salvá-la da doença que a vitimou. Ao fecharem o caixão, ela se agarrou em meus braços e em quem estava perto e pedia, desesperada, fora de si, para que não deixássemos fazer aquilo, era a filha dela. Eu já vivi muitos momentos de luto. Mas naquele grito intenso havia uma espécie de silêncio que nenhum livro consegue traduzir. Era o choro de quem não deveria estar ali, diante de uma filha morta. Pais deveriam acompanhar filhos ao primeiro dia de aula, à formatura, ao casamento, ao nascimento dos netos. Deveriam envelhecer ouvindo reclamações sobre a vida, recebendo ligações inesperadas, esperando visitas aos domingos. Mas não deveriam enterrá-los. Não existe ordem natural para uma mãe sepultar a filha, nem para um pai reconhecer no caixão o rosto daquele que um dia segurou no colo. Talvez por isso certas mortes não terminem no cemitério: elas continuam vivendo dentro de quem ficou, como uma porta que jamais volta a fechar.

O Brasil parece ter se acostumado perigosamente a ver crianças e adolescentes morrerem antes da hora. No início deste mês, Micael Leandro da Silva, de apenas 15 anos, jogador das categorias de base do CSA e com passagem pelo São Paulo, foi baleado durante um torneio de futebol em Maceió. A polícia investiga a possibilidade de ele ter sido morto por engano, em meio a disparos contra pessoas que estavam no local. É uma frase que deveria nos envergonhar: “morto por engano”. Como se a vida pudesse ser um endereço digitado errado, um rosto confundido, uma bala sem destino. Mas a bala sempre encontra alguém. E, quando encontra um menino de 15 anos, não leva apenas uma vida: leva os planos de uma família inteira, o futuro de um jogador, o abraço de uma mãe, o orgulho de um pai.

Há também mortes que não acontecem nas ruas, mas dentro de telas que cabem na palma da mão. Uma adolescente de 13 anos morreu em julho, em Naviraí, Mato Grosso do Sul, depois de ser submetida a uma situação de violência e incentivo à automutilação durante uma transmissão no Discord. O caso provocou investigação policial e levou a Agência Nacional de Proteção de Dados a determinar a suspensão das transmissões ao vivo da plataforma no Brasil, diante das falhas de proteção de crianças e adolescentes. Um remédio pífio, vamos combinar. E, enquanto ainda tentamos compreender esta tragédia, chegam outras: duas meninas, de apenas 3 e 5 anos, foram mortas pelo próprio pai em São Paulo para, segundo a investigação, atingir emocionalmente a mãe. No Rio Grande do Sul, ano passado, o menino Vitor Gambirazi, de 9 anos, morreu após ser atacado dentro de uma escola em Estação. São histórias diferentes, circunstâncias diferentes, mas todas deixam a mesma pergunta atravessada na garganta: em que momento deixamos de conseguir proteger os nossos filhos?

Os números ajudam a dimensionar aquilo que a emoção às vezes não consegue alcançar. Em 2024, o Brasil registrou 2.356 mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes de zero a 17 anos. Um crescimento de cerca de 3,7% em relação ao ano anterior, mesmo enquanto a violência letal em geral apresentava redução. Entre 2021 e 2023, foram pelo menos 15.101 mortes violentas intencionais nessa faixa ampliada analisada pelo levantamento do UNICEF e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública — uma média de 13,5 vidas perdidas por dia somente em 2023. No Rio Grande do Sul, foram registradas 81 mortes violentas de crianças e adolescentes de zero a 17 anos em 2024, aumento de 17% sobre o ano anterior. Não que eu seja fã de estatísticas. Mas certos números são importantes porque ajudam a cobrar políticas públicas, segurança, proteção, educação e responsabilidade. Mas nenhum número consegue registrar a cadeira vazia na mesa, o quarto que permanece arrumado, a roupa que ninguém tem coragem de guardar, o telefone que a mãe continua olhando por alguns segundos, esperando uma mensagem que nunca mais chegará.

Talvez seja por isso que a frase precise ser repetida, até perder o sentido de frase e ganhar o peso de um compromisso: pais não deveriam enterrar seus filhos. Não deveriam enterrá-los por causa do tráfico, das armas, da violência doméstica, da negligência, da crueldade entre adolescentes, da omissão nas redes ou da incapacidade do Estado de enxergar os sinais antes que seja tarde. Não deveriam morrer pela química brutal de alimentos processados para viciar, lucrar e detonar saúdes frágeis. Uma criança não é estatística. Um adolescente não é número de ocorrência. Cada um deles é alguém que ainda estava começando a escrever a própria história. Minha irmã, diante do caixão da filha, não chorava apenas pela morte de alguém que amava: chorava também por todos os amanhãs que morreram naquele dia. E talvez seja essa a imagem que devêssemos carregar quando ouvirmos a próxima notícia. Antes de qualquer manchete, antes de qualquer estatística, existe uma mãe ou um pai que gostaria apenas de ter mais uma vez o filho entrando pela porta de casa. E isso, convenhamos, nunca deveria ser pedir demais.

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