Reflexões sobre a pressa

Saí para correr. Correr de verdade. Não para fugir, não para chegar antes. Correr porque o corpo pede, porque o coração gosta de lembrar que ainda sabe bater fora das urgências. A rua quase vazia. Noite aberta. Passos ritmados. Respiração obediente. A cidade parecia em câmera lenta, dessas que a gente usa para acreditar que ainda controla alguma coisa. Nos fones de ouvido, a trilha sonora que me faz bem, ao corpo e à alma.
Foi quando quase fui atropelado. Um carro passou raspando. Rápido demais. Pressa demais. Nenhuma necessidade aparente. Não era horário de pico. Não havia fila, não havia atraso previsível para aquele horário, não havia o apocalipse anunciado no semáforo seguinte. Havia apenas alguém com um surto de raiva, exibicionismo ou muita pressa de chegar a lugar nenhum. E eu, ali, correndo para lugar nenhum também — mas em paz.
A pressa é curiosa. Ela promete ganhar tempo, mas rouba o sentido. Aperta o peito, fecha os olhos, endurece a voz. A pressa empurra, xinga, acelera. E quando não encontra trânsito, inventa. Quando não encontra obstáculo, cria um inimigo. Às vezes, o inimigo é um pedestre, um ciclista, o carro do outro. Às vezes, um corredor. Na maioria das vezes, nada além da própria vida atravessando fora do script.
O tempo, esse velho irônico, não se comove. Ele não anda mais rápido porque alguém buzinou. Não desacelera porque alguém pediu. O tempo segue. Firme. Indiferente. A vida corre no ritmo que quiser, gostemos ou não. E não há pé no acelerador capaz de negociar com isso. No máximo, há corpos cansados, nervos gastos e histórias interrompidas cedo demais.
Não parei de correr, apesar do susto e da indignação. Um pouco mais atento. Um pouco mais lúcido. Sem pressa. Porque entendi, ali no asfalto, que correr por prazer ainda é humano e atropelar por ansiedade ainda é desumano. A vida não está atrasada. Nunca esteve. Somos nós que, às vezes, insistimos em chegar antes do que somos capazes de viver.



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