Voto: não entregue sua chave no escuro

Oscar Bessi

A gente espera quatro anos para votar em presidente. Quatro anos. É tempo suficiente para casar, descasar, trocar de emprego, mudar de cidade, envelhecer, ganhar alguns cabelos brancos e perder outros tantos. Mas, quando chega a hora de escolher quem vai governar o país, muita gente parece considerar que cinco minutos de pesquisa já são um exagero. No próximo domingo, 4 de outubro, estaremos novamente diante da urna. E não deveríamos chegar ali como quem escolhe o time para torcer no domingo à tarde. O voto não é camisa, bandeira, grito de guerra nem herança de família. Não deveria ser “o meu candidato contra o teu”. Porque, depois da eleição, não existe Brasil do meu candidato e Brasil do teu candidato. Existe o mesmo país. O mesmo dinheiro público. A mesma escola. O mesmo posto de saúde. A mesma estrada. A mesma segurança. A mesma conta para pagar. E nós somos quem paga a conta.

Por isso, talvez seja uma boa ideia fazer uma coisa cada vez mais rara nestes tempos: pensar antes de apertar o botão. Pesquisar. Investigar. Conferir. Comparar. Desconfiar. Quem é essa pessoa que está pedindo meu voto? O que ela fez antes? O que prometeu? O que realmente conseguiu realizar? Quem está ao lado dela? Quem financia sua campanha? O que seu partido defende? O que ela pensa sobre os assuntos que realmente importam para mim? E, principalmente, aquilo que está sendo dito é fato ou apenas uma frase bonita repetida tantas vezes que acabou parecendo verdade? Porque mentira também faz campanha. Às vezes vem embrulhada em indignação, ou acompanhada de uma bandeira, ou aparece em um vídeo de trinta segundos com música dramática e frases definitivas. Às vezes chega pelo grupo da família, encaminhada por alguém que começa a mensagem dizendo: “Não sei se é verdade, mas…” E lá vai a mentira, correndo mais rápido que a verdade, porque a verdade normalmente precisa parar, respirar e apresentar documentos.

É preciso verificar versões. Quem mente? Sobre o quê? Quem apresenta propostas e quem apenas aponta inimigos? Quem explica o que pretende fazer e quem vive de provocar medo, raiva ou indignação? Não é tão difícil. Dá trabalho, é verdade. Mas escolher alguém para administrar um país durante quatro anos talvez mereça um pouco mais de esforço do que escolher uma série para assistir à noite. Também precisamos tomar cuidado com nossas próprias certezas. É muito fácil acreditar em tudo que confirma aquilo que já pensamos. Quando alguém fala mal de quem eu gosto, é “fake news”. Quando fala mal de quem eu não gosto, é “a verdade que ninguém quer contar”. Assim, deixamos de procurar informação e passamos a procurar confirmação. E isso é perigoso.

Democracia não deveria ser uma competição para descobrir qual torcida grita mais alto. Deveria ser o momento em que milhões de pessoas, cada uma com suas preocupações, seus valores, suas experiências e suas esperanças, escolhem quem receberá uma parcela enorme de poder em seu nome. O voto é pequeno. Um número na urna. Um “confirma”. Um segundo. Mas as consequências podem durar anos. Por isso, não podemos entregar nossa escolha para o algoritmo, para o influenciador, para o amigo fanático, para o parente que “entende tudo de política”, para o vídeo que apareceu no celular ou para o candidato que grita mais alto. Muito menos para a raiva. A raiva é péssima conselheira. O medo também. Não precisamos gostar de todos os candidatos, nem precisamos concordar com ninguém em tudo. Também não precisamos abandonar nossas convicções. Precisamos apenas fazer uma coisa que parece simples, mas que anda bastante esquecida: assumir a responsabilidade pela nossa própria escolha.

Porque votar conscientemente não significa votar em determinado lado. Significa saber por que se está votando. No domingo, ninguém deveria apertar o botão pensando apenas em quem quer derrotar. Deveria pensar em quem está escolhendo para representar seus interesses, seus valores e o país que pretende deixar para os outros. Depois, seja qual for o resultado, continuaremos sendo cidadãos. E continuaremos pagando a conta. É justamente por isso que não podemos terceirizar o voto.

A urna é eletrônica. O botão é pequeno. O gesto dura poucos segundos. Mas, do outro lado daquele clique, existe um país inteiro. E talvez essa seja a imagem que devêssemos levar conosco para a cabine: cada voto é como entregar a chave da nossa casa a alguém. Ninguém, em sã consciência, entregaria a chave de casa a um desconhecido só porque ele gritou mais alto na rua, porque seus amigos gostam dele ou porque ele apenas me convenceu de que os outros são piores. O país também é nossa casa. No domingo, a chave estará na sua mão. Não entregue ela no escuro.

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