Aos quatro dias de setembro

Oscar Bessi

Há alguns anos, o filme O que é isso, companheiro?, inspirado no livro de Fernando Gabeira, concorreu ao Oscar com o título em inglês Four Days in September – ou Quatro dias em setembro. Quando vi o título dado por Hollywood, lembrei de certa feita quando, ao interrogar uma testemunha em um Inquérito Policial Militar, só ao colocar a data no depoimento é que fui me dar conta de que era o meu aniversário. E já passava do meio-dia. Minha preocupação foi ligar para a minha mãe; afinal, fazíamos aniversário na mesma data. Para ela, era um dia muito especial, e já vou contar o motivo. Enfim, não foi a única vez que, trabalhando, esqueci ou não pude comemorar com a família. Mas qualquer policial, profissional da área da saúde, do jornalismo e de tantas outras áreas sabe que isso faz parte.

Antes de falar sobre a minha mãe e o dia 4 de setembro, justifico o texto desta coluna. Nunca escrevi sobre isso para publicação em um jornal. Mas, este ano, meu dia iniciará ao lado de uma das grandes figuras humanas que admiro: o jornalista Guilherme Batista. Sim, nós dois nascemos no dia 4 de setembro. E, embora há tantos anos nos cruzemos nos caminhos da notícia policial, pela primeira vez estaremos lado a lado. No front da notícia, na bancada da Rádio América. Uma coincidência que me enche de orgulho e alegria, pois Guilherme é uma dessas raras pessoas de quem aprendi a me tornar fã em todos os sentidos: pela seriedade do seu trabalho, pela ética, pela postura, pela inteligência crítica que nunca faz estardalhaço, pela dedicação com que se entrega ao que faz e, acima de tudo, por seus valores humanos e familiares, que já são sua marca conhecida entre todos os amigos. Não é muito fácil, nos dias de hoje — em que qualquer charlatão se vale das mídias e redes sociais para mentir, escandalizar e gritar opiniões sem qualquer embasamento para ganhar seguidores, e em que o besteirol invade mentes de todas as idades, manipulando realidades e aniquilando conhecimentos —, alguém seguir firme com tamanha seriedade, verdade e compromisso com o que ainda se salva no jornalismo moderno. Este, sim, merece todos os nossos aplausos e os votos de uma vida longa no comando da nossa imprensa regional.

É o meu segundo aniversário sem a minha mãe, e isso ainda soa meio estranho, deixando-me — a mim, um veterano — meio sem saber ao certo o que fazer. Porque, por 54 anos, os nossos aniversários foram comandados por ela. Mesmo quando eu não estava a fim de comemorar (ou não podia), ela decidia fazer algo e simplesmente fazia, às vezes me chamando à realidade e à participação naquele jeito despojado dela (e lá vinham uns palavrões à la Dercy Gonçalves) que todos conheciam bem. Quando ela fez 70 anos, patrocinou uma festa gigante que chamou de “meus 15 anos”. Planejava outra grande festa para os 80, já que repetia que iria até os 120. Não deu. Mas, onde estiver hoje, certamente está comemorando muito a sua passagem cheia de luz entre nós.

Muitas vezes a minha mãe contou a história daquele parto quase trágico numa tarde de setembro de 1970. Com dores horríveis e uma depressão incontrolável, foi a pé até um médico no bairro onde morava, Tristeza (que nome para a situação!), em Porto Alegre. Não ouviram mais sinais do bebê no seu ventre e a mandaram dar um jeito de ir para o hospital, pois não poderiam levá-la. Sozinha, ela voltou para casa para pegar suas coisas e chamou um táxi. Não se tinha telefone, então pediu que alguém chamasse meu pai, que estava no quartel. Eu, que no caso era o bebê sem sinais vitais, havia me enrolado no cordão umbilical e estava prestes a perder a vida por falta de ar. Nessas coisas divinas do destino, acabamos nos salvando, mas o parto prematuro e às pressas cobrou seu preço: ambos pegamos infecções hospitalares graves, não pôde sequer haver amamentação e, quando meu pai chegou, disseram-lhe que talvez tivessem que escolher pela vida de um ou de outro para prosseguir. Enfim, naqueles tempos de poucos recursos, em que dar certo dependia de milagre ou sorte, parece que tivemos os dois.

Talvez seja por esse início complicado, lá no dia 4 de setembro de 1970, que tudo o que aprendi a admirar neste mundo fossem a humildade dos que se sabem iguais a todos, mesmo com suas conquistas pessoais, a sinceridade dos inocentes e a empatia dos que colocam o bem-querer acima de quaisquer outros sentimentos. Talvez por isso eu tenha tido uma trajetória tão intolerante com arrogantes, abusadores, prepotentes, egocêntricos, egoístas, pilantras, criminosos e pavões humanos de toda ordem. Talvez por isso eu tenha me dado “mal”, segundo as convenções, em tanta coisa que me desafiei a encarar. Talvez por isso também eu tenha me dado bem em outras. Mas a vida de ninguém é uma planilha de cálculos, reta e exata em resultados. A vida é a vida. É o resultado do que somos, fazemos e deixamos no caminho.

Sou um virginiano com ascendente em Aquário, sendo Cão no horóscopo chinês, com elemento Metal. Não que leve isso muito a sério, até por acreditar que os seres humanos são resultados de seus meios, suas experiências, traumas, dores, frustrações, amores, vivências, alegrias e travessias. Mas, sempre que leio sobre o assunto, gosto das relações e até enxergo algumas características minhas ali nesses signos. Enfim, um dia, ainda menino, sonhei ser escritor, sonhei ser policial, sonhei tantas coisas. Essas duas primeiras consegui, de forma mediana, mas de um jeito que me fez feliz. E hoje, escrever esta coluna, nesta data, para o Fato Novo, em mais uma parceria com meu amigo e também aniversariante Guilherme Batista – coincidentemente após fecharmos um ano de parceria, em agosto -, é um desses presentes que a vida decidiu me dar. Além da própria vida.

0 Comentários

Deixe um Comentário

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Lost Password