Chuvas no RS: ciclo de tragédias e falhas

O fantasma das águas não precisou de dois anos inteiros para assombrar novamente o coração do Rio Grande do Sul. Nestes últimos dias, as paisagens do Vale do Taquari, do Rio Pardo e das margens do Caí foram novamente tomadas por aquele ruído abafado e tenebroso da correnteza subindo, arrastando o que encontra pela frente. O cenário evoca instantaneamente o trauma vivo de maio de 2024: a mesma correria de quem parecia não ter ouvido os alertas, a mesma mobilização para milhares de resgates entre vidas e patrimônios, o mesmo cheiro de lama ensopada e os mesmos olhares desolados de quem vê o esforço de meses escorrer pelo ralo outra vez. Novas pontes em velhas quedas.
A diferença, contudo, é a camada de desespero acumulado. Se há dois anos o sentimento era de espanto diante do inédito, hoje o que se lê no rosto de quem ergue os móveis é a exaustão moral de quem descobriu que viver aqui se tornou uma roleta-russa climática. E que, no fundo, por trás dos tantos braços que se estendem em ajuda, há um número gigantesco de braços cruzados que poderiam ter agido antes. E não cumpriram seu papel. Nem depois de tamanhas e duras lições.
Para além da força incontrolável da natureza, a tragédia repetida expõe a ruína da gestão pública e do planejamento urbano. Cientistas, estudiosos, urbanistas e geólogos cansaram de desenhar mapas e dar alertas, mas a prática nas cidades seguiu o caminho oposto à ciência como se nada, em tempo algum, tivesse acontecido. É escandaloso constatar que, em diversos bairros marcados pelo histórico recente de alagamentos, a resposta de algumas gestões municipais tenha sido o asfaltamento apressado sobre áreas de várzea e de risco.
Ou seja, em vez de se criar bacias de retenção, parques alagáveis e soluções baseadas na natureza, há quem esteja à frente de poderes públicos e ainda considere melhor cobrir a terra com concreto estéril, eliminando a capacidade de absorção do solo e acelerando a água diretamente para dentro das casas. Vende-se uma ilusão de progresso e maquiagem eleitoral sobre superfícies impermeáveis, empurrando a conta, mais uma vez, para a porta das famílias, e isto em áreas cada vez mais extensas. E as provas de que a natureza não aceita mais a loucura humana estão aí. Não há negacionista que consiga contestar.
O que escancara vivermos outra vez dias de medo não é a falta de verba ou de estudos, mas a gritante falta de coragem política e de visão estratégica aos gestores públicos. Governar no século XXI exige desapropriações difíceis, remoção planejada de comunidades em áreas de risco permanente e infraestrutura pesada de drenagem e contenção. No entanto, o que se observa é uma gestão reativa, refém do curto prazo, que prefere financiar obras de fachada a enfrentar o lobby imobiliário e as reformas estruturais necessárias. Há uma negligência quase criminosa na lentidão das obras de reconstrução prometidas desde 2024, onde planos de contingência mirabolantes continuam engavetados enquanto a população conta os minutos a cada medição das cotas dos rios.
Surge, então, a incômoda provocação: houve falha na Defesa Civil gaúcha, ao dizer que não havia risco de cheias e mudar o alerta quando as águas já invadiam casas? Ou fomos nós, como sociedade, que ignoramos os alertas? Precisamos que alguém nos avise do óbvio todo dia? A resposta exige ceticismo. A Defesa Civil aperfeiçoou seus sistemas de emissão de alertas via celulares e redes, emitindo avisos de perigo com antecedência. Porém, um alerta sem um plano de fuga viável é apenas a crônica de um desastre anunciado. De nada adianta o celular tocar com alarme estridente se a cidade não tem abrigos descentralizados, rotas seguras e suporte logístico para remover pessoas e animais a tempo. Do outro lado da moeda, nossa sociedade também padece de um torpor coletivo — um ciclo de negação onde preferimos acreditar que “o pior já passou” a cobrar atitudes drásticas das autoridades, normalizando o absurdo até que a água volte a bater no peito.
Enquanto os rios do RS lentamente começam a recuar, o rastro deixado na região dos Vales não é apenas de lama, mas de indignação profunda. Não podemos mais tratar eventos recorrentes como se fossem surpresas trágicas e isoladas. Se a sociedade continuar aceitando o asfalto eleitoreiro no lugar do planejamento ambiental, e se os governantes continuarem agindo como meros administradores de danos e distribuidores de cestas básicas, o Estado estará condenado a reconstruir perpetuamente sobre as próprias ruínas. O Rio Grande precisa decidir se vai finalmente encarar a emergência climática com a gravidade que ela exige e passar a agir de verdade, com atos e fatos e muita educação ambiental. Ou se continuaremos a assistir, impassíveis, a conversão da nossa história em um ciclo interminável de perdas, onde a única coisa que muda é o calendário da dor.



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