Orelha e o limite da nossa humanidade

Oscar Bessi

A comoção provocada pelo caso do cão Orelha ultrapassou fronteiras geográficas e digitais. Não foi apenas mais um episódio de violência contra um animal; foi um espelho incômodo colocado diante da sociedade. A dor daquele cão, amplificada pelas redes sociais, sensibilizou anônimos, mobilizou personalidades, artistas e influenciadores, e revelou algo profundo: ainda somos capazes de nos indignar, de nos entristecer e de reagir quando a crueldade se torna impossível de ignorar.

Essa reação coletiva, contudo, precisa ir além do luto virtual e da revolta momentânea. A violência contra animais não nasce isolada. Ela é reflexo de um comportamento humano que, muitas vezes, naturaliza o sofrimento do outro — seja ele um animal, uma pessoa vulnerável ou a própria natureza. Quem agride um ser indefeso demonstra uma ruptura ética grave, uma falha na empatia que também se manifesta em outras formas de violência cotidiana.

O respeito aos animais é um termômetro do grau de civilização de uma sociedade. Eles dependem de nós, não escolhem seus algozes e não têm voz para denunciar abusos. Quando falhamos com eles, falhamos com valores básicos como cuidado, responsabilidade e compaixão. O caso do cão Orelha nos obriga a perguntar: que tipo de humanidade estamos cultivando? E que exemplos estamos deixando para as próximas gerações?

Da mesma forma, a relação predatória com a natureza segue a mesma lógica de dominação e descaso. Destruir, agredir, explorar sem limites — seja um animal, uma floresta ou um rio — nasce da falsa ideia de que tudo existe apenas para servir ao ser humano. Essa mentalidade precisa ser revista com urgência, se quisermos um futuro minimamente justo e sustentável.

Que a memória do cão Orelha não seja apenas mais um nome em meio a tantas tragédias esquecidas. Que sua história sirva como ponto de inflexão, um convite à mudança real de comportamento. Respeitar os animais, o outro e a natureza não é um gesto de bondade opcional; é um dever ético, humano e civilizatório. Enquanto não compreendermos isso plenamente, continuaremos a nos comover — tarde demais — diante de dores que poderiam, e deveriam, ser evitadas.

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