Nossos filhos, o perigo digital e mais uma lei para (des)cumprir

Nesses tempos tecnológicos e rápidos demais, volta e meia surge um novo medo. Uma nova ameaça. E quase sempre contra os nossos filhos. Talvez para que voltemos a prestar atenção neles, que ainda estão ali, em carne e osso e olhar carente, bem ao nosso lado. Os nossos filhos. Morremos de medo de perdê-los, ainda que quase todos os dias a gente troque eles por trabalhos sempre tão importantes, ou reuniões, ou compromissos inadiáveis, ou redes sociais abdutoras. É triste só se dar conta de que tem filhos ao levar um susto. Coisa dessa vida contemporânea, onde até o afeto acaba terceirizado.
Há pouco tempo era o jogo da baleia azul que apavorava. Criado na Rússia, dizem. E, ao contrário da vodca, essa paternidade os poloneses não reivindicaram. O tal jogo da baleia azul induzia à automutilação e ao suicídio. Fazia crer que as baleias azuis se suicidavam ao encalhar e encalhavam com frequência pelo seu tamanho. Tá, esse negócio de encalhar é ruim. Tive uma vizinha que repetia isso todo instante. Mas o maior mamífero do planeta só corre risco de vida, mesmo, quando topa com humanos. Embora os colorados tenham outras explicações para a tristeza da baleia azul. Melhor nem comentar. Depois veio Momo. Agora é o Roblox e seus meandros.
Hoje os perigos já não chegam apenas como desafios explícitos ou figuras grotescas. Eles vêm disfarçados de diversão, de socialização, de jogo inofensivo. Plataformas como o Roblox — esse universo de “menadros” virtuais onde tudo parece lúdico demais para ser levado a sério — escondem interações que escapam ao controle, conversas sem rosto, convites sutis, portas que se abrem para quem não deveria estar ali. O problema não é o jogo em si, como nunca foi só a baleia ou a boneca Momo. O problema é o abandono silencioso, a terceirização da vigilância para algoritmos, a ilusão confortável de que “com o meu filho isso não acontece”. Acontece. Sempre acontece quando ninguém está olhando. E quase sempre quando os adultos estão ocupados demais para perceber que o perigo já não bate à porta — ele entra pelo Wi-Fi.
É nesse cenário que surge o chamado “ECA digital”, recentemente sancionado, prometendo proteção, responsabilidade e limites no ambiente virtual. No papel, tudo parece correto, necessário, até urgente. Mas lei alguma funciona sozinha. Se não houver fiscalização, educação digital real, diálogo dentro de casa e presença concreta, será apenas mais um texto bonito ignorado na prática — como tantos outros que aprendemos a citar depois da tragédia. Crianças não se protegem sozinhas. Adolescente nenhum é imune por intuição. O ECA digital pode ser um marco, ou apenas mais uma placa de advertência caída na beira da estrada. A diferença estará em nós: se vamos seguir em frente distraídos, ou se, finalmente, vamos reduzir a velocidade e olhar para quem caminha ao nosso lado.



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