Cuidado! A ideologia do ódio pode te atingir

Oscar Bessi

É muito fácil esbravejar contra o que incomoda e dizer que tem que acabar com tudo, de preferência de forma violenta. É muito mais fácil tirar conclusões repetindo apenas o que outros disseram em redes sociais, sem parar para pensar e muito menos conferir se é verdade. Anda fácil argumentar igual papagaio, apenas repetindo sons sem uma mínima coordenação mental.

É que pensar dá trabalho. E muitos seres humanos têm uma preguiça danada de usar o cérebro. Não gostam de ler, têm dificuldades em entender, são meros reprodutores da conversa alheia. E se alguém tentar esclarecer, nossa!, aí ofende. E merece ser agredido, verbal ou fisicamente.

O mundo anda perigoso. Há ideias que não se anunciam como perigo. Elas chegam vestidas de simplicidade, de respostas fáceis, de certezas absolutas. A ideologia do ódio e da mentira costuma seduzir porque dispensa o esforço de pensar: oferece culpados prontos, soluções rápidas e um conforto emocional imediato. Antes de ideologia, é desabafo. Não requer estudo.

Em vez de pontes, constrói muros; em vez de diálogo, propõe o grito. E assim, quase sem perceber, um país, um estado ou até um pequeno município pode ser conduzido por vozes que não desejam resolver problemas, mas apenas alimentar conflitos. E ajudar sua turminha se locupletando no poder.

O discurso da intolerância tem uma característica inquietante: ele se sustenta na recusa. Recusa da ciência, das evidências, das pesquisas, da complexidade da vida humana. Tudo aquilo que exige reflexão é descartado como se fosse “fraqueza” ou “invenção”. No lugar, instala-se a crença cega, a opinião travestida de verdade e o ataque como método. Quando a violência — seja ela simbólica ou concreta — passa a ser vista como ferramenta legítima, abre-se uma fenda perigosa no tecido social, por onde escorrem o medo, o ressentimento e a desumanização.

Mas talvez o aspecto mais perturbador seja o quanto essa lógica encontra terreno fértil. O ser humano, cansado, inseguro ou frustrado, muitas vezes escolhe o caminho mais curto: o da emoção instantânea. É mais fácil sentir raiva do que compreender, mais confortável repetir do que questionar, mais rápido atacar do que construir. A preguiça de pesquisar, de ouvir o outro lado, de elaborar um pensamento próprio transforma cidadãos em eco — e ecos não pensam, apenas reproduzem.

Assim, pouco a pouco, instala-se uma espécie de imbecilização coletiva, onde a ignorância deixa de ser uma limitação e passa a ser um estilo de vida. Há quem ostente a própria incapacidade de compreender como se fosse coragem, quem confunda grosseria com autenticidade, quem celebre a própria estupidez como sinal de força. E é nesse cenário que reside o maior risco: quando a burrice deixa de envergonhar e passa a orgulhar, a sociedade não apenas adoece — ela perde a capacidade de se curar. E, podem acreditar, uma hora essa estupidez fácil vai te agredir e te ferir, ou atingir quem você ama.

 

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