Brochier: impunidade e uma tragédia anunciada

Uma quinta-feira pesada para a nossa belíssima Brochier. Além de outras duas mortes absolutamente inesperadas, acidentais, de uma jovem e uma criança, um casal de idosos foi brutalmente assassinado. Espancados, torturados, silenciados dentro da própria propriedade. Eles pagaram com a vida por algo banal: a cobrança de dívidas de aluguel, água e luz. O autor? Um homem com extensa ficha criminal, inclusive por homicídio. Um criminoso de carreira desde a adolescência. Um homem que já tinha mostrado ao mundo do que era capaz — e que, ainda assim, estava solto. Livre, leve e solto para matar outra vez.
Morreram pessoas do bem. E morreu também mais um tanto da nossa crença (ou esperança de acreditar) em justiça neste país.
O casal fez o que muitos fariam: estendeu a mão. Ofereceu casa para alugar. Confiou. O criminoso conseguiu emprego em fornos de carvão, teve nova chance, novo endereço, novo começo. Recebeu oportunidades que o Estado não consegue oferecer a quase ninguém: confiança e dignidade. Retribuiu com violência. Tudo porque o idoso ousou cobrar o que era devido. Como se a vida tivesse menos valor que algumas contas atrasadas.
Há um detalhe que dói ainda mais. O idoso havia registrado ocorrência por ameaça. Ou seja, percebeu o perigo e procurou ajuda. Pediu socorro dentro das regras do jogo. Das regras da lei. Mas ameaça, no nosso sistema legal, é tratada como delito menor. Papel que vira arquivo. Palavra que não vira proteção. Bobagem de gente do povo, que não merece audiência, assim como é tratado o furto do tênis de um trabalhador que não tem dinheiro para comprar o outro: pequeno furto! Pequena monta, excelências? Para quem vive como nababo, talvez. Como ameaça. Ah, mas não é homicídio, não interessa na estatística do governo. Mesmo quando o acusado é alguém com histórico de sangue nas mãos? Mesmo quando os sinais são claros de que haverá uma tragédia? Mesmo quando é um cidadão trabalhador, com uma vida inteira de honestidade e impostos pagos, tendo sua vida ameaçada pela prepotência de um bandido? Ah. A burocracia pesa mais que o pressentimento e, a formalidade, mais que a prudência. E viva a estatística boa de voto!
A polícia fez sua parte: agiu rápido e prendeu o assassino. De novo. Quantas vezes mesmo, ele já foi preso? Quantas vezes, mesmo ele já foi solto? E foi solto para voltar a fazer o quê?
E então a pergunta ecoa pelas ruas silenciosas da pequena cidade e do mundo que, perplexo, assiste mais um episódio brutal e lamentável de violência, inacreditável, como tantos outros que se repetem todos os dias numa competição macabra de horrores e choques: esse crime bárbaro não poderia ter sido evitado? Quantas fichas criminais são necessárias para que alguém deixe de ser tratado como risco e passe a ser visto como ameaça real? A impunidade não puxa o gatilho. Não desfere golpes. Mas abre a porta. E, quando o Estado (como um todo, em todos os seus três poderes que nos sugam tanto em impostos) falha em agir diante dos avisos, a conta chega. E, quase sempre, quem paga é quem não merece.



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