Feminicídios: estamos sempre chegando tarde demais

O assassinato de Gislaine Reguss, 34 anos, em Montenegro, rompeu mais uma vez a falsa sensação de normalidade que vivemos na nossa região. E que ultimamente tem sido abalada por notícias policiais tão surpreendentes quanto impactantes. Ela havia vindo de São Leopoldo para visitar uma sobrinha do homem com quem se relacionava. Não veio para ficar. Não veio para afrontar o destino. Veio para uma visita, dessas que parecem pequenas no calendário da vida. Mas terminou como mais um capítulo de uma triste estatística que insiste em crescer.
Segundo a Polícia Civil, o suspeito, de 52 anos, cumpria pena em regime semiaberto, o que lhe permitia sair para trabalhar durante o dia. Ele deveria retornar ao Instituto Penal de São Leopoldo até as 21h. Em vez disso, foi até a casa da sobrinha com a vítima. Houve discussão. Que descambou para a tragédia. Gislaine foi morta com pelo menos nove facadas. Brutalidade e violência que, infelizmente, parecem se banalizar nos nossos noticiários. Na fuga para uma área de mata próxima, foi preso pelas guarnições da Brigada Militar, acionadas inicialmente para verificar mais uma situação – de tantas – enquadrada na Lei Maria da Penha. Quando os policiais chegaram, já não havia mais o que proteger.
O caso guarda uma dessas ironias sombrias que às vezes aparecem nas páginas policiais: semanas antes, o assassino havia sido registrado um desaparecimento da vítima. Um gesto que parece roteiro de ficção policial, mas que na vida real carrega algo ainda mais perturbador: a capacidade humana de simular preocupação enquanto o perigo já está ali, na sua alma agressora. Há outras questões de desajustes comportamentais nesta relação que não vem ao caso, por respeito à vítima.
Ela não tinha medida protetiva. E essa ausência costuma ser interpretada como silêncio, quando na verdade pode ser apenas medo, dependência emocional, vergonha ou a esperança — quase sempre frustrada — de que a violência pare antes do ponto final. A Lei Maria da Penha existe, mas a distância entre a lei escrita e a coragem de pedir socorro ainda é grande demais para muitas mulheres.
Este crime ocorre num momento curioso e inquietante no Rio Grande do Sul. Os indicadores oficiais celebram a redução de homicídios. É uma notícia importante, sem dúvida. Mas, paralelamente, os feminicídios mais que dobraram em fevereiro de 2026, um ano que começa manchado pelo sangue e pela dor de mais de duas dezenas de mulheres. É como se uma parte da violência estivesse diminuindo enquanto outra, mais silenciosa e doméstica, ganhasse espaço dentro das casas, longe das estatísticas que costumam abrir coletivas de imprensa.
Isso deveria nos ensinar cautela com comemorações. Segurança pública não é campeonato de números, e muito menos competição de gráficos. Quando uma mulher é assassinada por quem dizia amá-la, não há indicador que consiga suavizar a brutalidade do fato.
Também deveria provocar reflexão na área da educação e da gestão pública. Combater o feminicídio exige mais do que campanhas pontuais, slogans ou a criação de novas secretarias com nomes vistosos e muitos cargos de confiança para acomodar correligionários em anos eleitorais. Exige investimento contínuo em prevenção, proteção real às vítimas, investigação eficiente e, sobretudo, transformação cultural — aquela que começa muito antes da polícia ser chamada.
Porque cada feminicídio revela algo que ainda não fomos capazes de resolver como sociedade: a ideia antiga e persistente de que a vida de uma mulher pode ser tratada como propriedade emocional de alguém. Enquanto essa mentalidade continuar sobrevivendo nas sombras das relações, cidades inteiras continuarão acordando com a sensação amarga de que, mais uma vez, todos nós chegamos tarde demais.



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