Desvio e Bala Perdida

Oscar Bessi

Marcaram entrevista com o Padre. Queriam casar. Mas com uma condição, entrariam fantasiados.

– Fantasiados?

– Aham. Vimos na Tv. Maneiro!

– Maneiro?

– Da hora!

– Ah, claro, claro. E… Fantasiados do quê?

– Desvio e Verba Pública.

– Hein?!

– Nada vai nos separar.

– A gente pensou também em ele entrar de governo, eu de corrupção.

– Ou conduto e empreiteira.

– Conduto? Não era asfalto, amor?

– Epa! Podem parar, não posso permitir uma coisa dessas!

– Não?

– Não. Meus filhos, casamento não é carnaval.

– Entendemos tudo, Padre. O senhor não quer encrenca. E de Shrek e Fiona, pode?

– Barbie e Ken?

– Oswaldir e Carlos Magrão?

– Oi?

– Nada. Esquece.

– Vamos fazer assim: esqueçam isto. Nada de fantasia.

– Bah. É o nosso casamento, padre, dá licença! E eu quero entrar vestida de verba pública e ponto final.

– É. E eu de desvio.

– E como seriam estas fantasias? Podem me explicar?

– A minha, “verba pública”, é um vestido com uma cauda que não acaba mais. Só que, quanto mais entra, mais desaparece. Ninguém alcança. E todos metem a mão mesmo assim.

– Metem a mão? Todos?

– Calma, Padre. Todos não. Só os amigos.

– Não é muito doido?

– Eu…

– Simbologia, Padre. Depois do anúncio e da foto, a verba pública some. E aí só o desvio sabe onde foi parar. Sacou?

– Mais ou menos.

– Pra completar o cenário, uma faixa na frente da igreja onde se lê “o que é desse homem, o povo não come”.

– Jesus Cristo! Que absurdo! Sem chances, não vou permitir uma coisa dessas.

– Mas Padre…

– Não. Vocês vão ao CTG pra dançar rap? Ao restaurante pra tomar banho de lama na frente de todo mundo? Nem pensar. Então, se querem algo diferente, casem noutro lugar. Casamento é sério, não é festa a fantasia.

– Ih, o senhor tá purfa.

– Tô o quê?

– Casamento é que é fantasia! A realidade é pegação, Padre. O fica-fica. Tá ligado?

– Vou ligar é uma bela penitência pra vocês.

– Quê?

– Desvio, enquanto a verba pública reza pra voltar ao bom caminho, você vem comigo. Vamos visitar um posto de saúde da periferia, há muito trabalho por lá pra te sensibilizar.

– Posto de saúde?

– Isso.

– Desses que tem tiroteio perto?

– Pode ser.

– Ih, padre. Tá. O senhor venceu. A gente deixa de lado esse negócio de fantasia.

– Bah, benhê! Por quê?

– Te liga, mor: desvio de bacana é grana no bolso, aí é bom. Mas desvio de pobre é bala perdida. Tô fora. Bora pro cartório fazer união estável que tá mais em conta.

 

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