Venezuelanos que estão no Vale do Caí falam se querem voltar para a Venezuela

Um grande número de venezuelanos migrou para o Rio Grande do Sul, incluindo o Vale do Caí, nos últimos anos, em função da crise na Venezuela. Muitos vieram só com a roupa do corpo, junto com a família, em busca de emprego e de uma vida melhor. Agora com a mudança em seu país, em que o então presidente Nicolás Maduro foi retirado do poder após uma intervenção norte-americana, os venezuelanos que estão na região vivem uma grande expectativa sobre o futuro do país e se será possível retornar. Mas a situação ainda é de incerteza. A reportagem conversou com Abimeleth Espinosa, que é Bispo da Igreja Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e trabalha em um frigorífico. E também com Jesus Salvador Rodrigues, que é geometrista em uma loja de pneus e proprietário de uma lancheria de culinária venezuelana. Ambos moram em Montenegro. Será que querem voltar para a Venezuela?

Bispo e trabalho em frigorífico
Abimeleth está em Montenegro desde 2020, quando veio com esposa, três filhos e nora. “Não tinha emprego e não sabia falar português. Meu contato era um amigo que já estava em Montenegro”, relata, em entrevista para a Rádio América. Na Venezuela era professor de música, com formação em pedagogia. Lecionava em escolas, mas como não era suficiente para sustentar a família, também tocava em eventos e estabelecimentos. “A crise era mito grande. E sentimos que tínhamos de sair. Só que tinha a pandemia”, lembra. Inicialmente a esposa trabalhou em um mercado e “Abi” em um frigorífico em São Sebastião do Caí. Mas ele conta que sofreu um acidente de trabalho e ficou afastado. Então passou a trabalhar em um Bistrô e atualmente está empregado em um frigorífico em Montenegro, além de atuar na igreja. Como a vida melhorou, depois vieram mais irmã, sobrinho e mãe. “Estamos muito gratos ao povo do Brasil e especialmente de Montenegro. Nos sentimos em casa”, agradece.
Já sobre a intervenção na Venezuela, Abimeleth diz que foi uma surpresa, mesmo que se esperasse que algo pudesse acontecer. Cita que o sentimento é de alívio, mas fica a preocupação sobre o futuro do país. Lembra que quando era professor na Venezuela, tinha que participar de eventos usando roupa vermelha e bater palma para as autoridades. Atualmente, em contato por telefone com familiares que estão lá, diz que ainda não pode fazer críticas e comentar sobre política, temendo pelos que seguem no país. “Não sabemos o que vai acontecer lá. Nós queremos continuar em Montenegro. Compramos casa e carro aqui. Meus filhos casaram aqui e já tenho netos montenegrinos. Voltar para a Venezuela só se for para passear e rever familiares. E quando estiver mais tranquilo”, projeta, recordando que quando chegou tinha só uma mala e uma mochila, em grande parte ocupada pelos instrumentos musicais que toca e segue utilizando em suas apresentações.


Culinária venezuelana em Montenegro
Já Jesus Salvador Rodriguez chegou em Montenegro mais tarde. Veio em 2023 com esposa e filha. Pais e irmã já estavam na cidade. Passou a trabalhar no mesmo ramo, de geometria de pneus, além da abrir o Rincon Guayanés, de culinária venezuelana, no bairro São João, próximo ao Parque Centenário. Enquanto preparava um lanche para a reportagem, conta que mais familiares vieram depois. “A crise na Venezuela iniciou por volta de 2006. O que se ganhava gastava tudo em comida e não durava uma semana. O dinheiro (Bolívar) não vale nada. Se tomava café da manhã, não almoçava e nem jantava. Se almoçava não jantava”, recorda, dizendo que só era possível fazer uma refeição por dia. E diz que muitas famílias não tinham nada.
Além de geometrista, através de uma sociedade com um food truck abriu o estabelecimento em Montenegro que é frequentado por venezuelanos e brasileiros. Preparou um Pepito, que é muito bem servido, com carnes, calabresa, bacon, alface, cebola, tomate, ovo, queijo, presunto e batata palha, além de molho. Tem também arepa, salsichapa e empanada, além de hamburger, cachorro-quente e bebidas venezuelanas. “Penso em ficar em Montenegro e quando puder ir passear na Venezuela. Se a coisa melhorar. Montenegro é muito bom”, afirma, enquanto conversa com um primo que trabalha em Salvador do Sul.



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