Venezuela, Brad Pitt e a Desinteligência nada Artificial

Oscar Bessi

Foi verdade, não boato, deepfake ou montagem de grupo de WhatsApp: o presidente da Venezuela foi capturado após ação militar dos Estados Unidos. Fato consumado. O problema é que, a partir daí, a realidade pediu calma, mas nas redes sociais o povo iniciou um carnaval fora de época, nesse duelo imbeciloide de polarização que aproveita até o inaproveitável para disparar fagulhas contra a opinião contrária. Em poucas horas, a Venezuela virou tudo ao mesmo tempo: campo de guerra, bloco de comemoração, final de Copa do Mundo e reprise de protesto antigo — tudo dependendo do humor político de quem estava compartilhando o vídeo errado com convicção absoluta.

As redes sociais, sempre prestativas em piorar qualquer situação, passaram a espalhar imagens sem qualquer compromisso com o tempo, o lugar ou o bom senso. Teve vídeo de protesto de anos atrás tratado como “agora há pouco”, teve comemoração pró-Trump que era jogo de futebol na época lá do Obama, teve até bandeira levantada que não combinava com país nenhum. Mas nada disso importa: a imagem precisa confirmar a crença de quem posta. A verdade virou detalhe, o importante é vencer a discussão no grupo da família, ou dos amigos, antes do almoço.

Enquanto isso, aqui no Rio Grande do Sul, outra história viralizou com força: a da senhora que acreditava estar noiva de Brad Pitt. E aí o povo resolveu brincar de roteirista de comédia pastelão. Memes surgiram em escala industrial, piadas brotaram mais rápido que fake news eleitoral e até gente famosa e instituição pública entrou na onda, usando a imagem do ator como se fosse figurinha de bom dia. O riso foi geral. Mas a empatia, convenhamos, ficou presa nalgum engarrafamento.

O curioso é que os dois casos se encontram no mesmo ponto: a facilidade com que se consome e se espalha qualquer narrativa sem parar dois segundos para pensar. Na Venezuela, imagens falsas ganham status de documento histórico; no caso da falsa noiva gaúcha de Hollywood, a vítima vira personagem de entretenimento popular sem qualquer respeito pela sua imagem ou as repercussões para ela e sua família. A inteligência pode até ser artificial, mas a falta de filtro é bem humana — e anda em promoção.

No fim das contas, o mundo segue assim: a verdade confirmada disputa espaço com vídeos aleatórios e o sofrimento real perde para a piada pronta. Entre a queda de um ditador e o noivado imaginário com Brad Pitt, o que mais se espalha não é informação nem compaixão — é a certeza barulhenta de quem nunca conferiu nada, mas compartilhou com gosto uma baboseira e se achando a última bolacha daquele velho pacote. De lixo.

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