Brochier: a festa do bem

Oscar Bessi

Há cidades que, quando entram em festa, não celebram apenas um calendário — celebram uma alma. Nesta semana de Expofesta, Brochier não está apenas abrindo seus portões para um dos eventos populares mais queridos e respeitados do Rio Grande do Sul – está abrindo o peito. E há muito o que comemorar. Em tempos em que o Brasil tantas vezes parece cansado de si mesmo, uma cidade pequena do interior resolve fazer o contrário: insiste em dar certo. Insiste em reunir famílias, encher praças, lotar pavilhões, despertar os bons debates, valorizar sua cultura, seu trabalho, sua gente. Com união e muito esforço, Brochier vai mostrando que comunidade forte não se constrói apenas com concreto armado, mas com pertencimento.

E talvez um dos sinais mais bonitos dessa força esteja justamente onde tudo começa de verdade. Na Educação. Enquanto muita gente ainda trata escola como obrigação burocrática, Brochier decidiu tratá-la como projeto de futuro. O município, com pouco mais de cinco mil habitantes, 100% de escolarização entre crianças de 6 a 14 anos e uma vida comunitária intensa, vem se tornando referência regional justamente por entender algo simples e poderoso: educar não é apenas ensinar conteúdo, é criar horizontes.

Isso se percebe no movimento bonito e quase incessante do calendário escolar e cultural. Há uma comunidade inteira girando em torno da palavra, da escuta, da formação humana. A novíssima Feira do Livro, agora em seu segundo ano, não nasceu só como evento, mas como símbolo de uma cidade que quer colocar livros nas mãos e ideias na cabeça. Os circuitos de palestras sobre cidadania, convivência, saúde emocional e qualidade de vida também dizem muito sobre o lugar que Brochier escolheu ser. Não se trata apenas de ensinar matemática e português, ainda que todos os conhecimentos teóricos, técnicos ou científicos sejam essenciais. Trata-se de formar gente capaz de viver melhor, pensar melhor e cuidar melhor uns dos outros.

E se há uma imagem capaz de resumir tudo isso com beleza, ela talvez esteja no EJA. O que nasceu como desafio em 2024, a partir de 2025 virou exemplo. Sete alunos estavam na primeira formatura histórica ao final das séries iniciais. Hoje, todos, absolutamente todos, estão frequentando o ensino médio. O que, como bem frisa a Secretária Cristiane Scherer, não aconteceria, se olharmos como são essas coisas no país. Eles seguiram porque se empolgaram. Eles seguiram porque entenderam sobre dignidade, espaço, liberdade e conhecimento. Eles seguiram porque a Educação superou seu maior desafio que parece impossível em outros lugares: mostrar que é essencial, que é um caminho.

Hoje, a Educação de Jovens e Adultos deixou de ser apenas uma alternativa e passou a ser orgulho. Com adesão alta, entusiasmo crescente e histórias que comovem, o projeto já carrega algo raro: dignidade compartilhada. E há algo de profundamente simbólico — e bonito — no fato de até mesmo um vereador da cidade frequentar as aulas em busca de sua evolução pessoal, oportunidade que a vida, até então, não lhe havia permitido. Porque quando um homem público senta numa carteira escolar ao lado de outros cidadãos, o que se vê ali é mais do que estudo. É democracia em estado puro. É a lição silenciosa de que nunca é tarde para aprender, recomeçar ou dar o exemplo.

Talvez seja por isso que a Expofesta, neste ano, tenha um sabor ainda mais especial. Porque, entre shows, encontros, tradição e alegria, Brochier também celebra uma escolha coletiva: a de continuar acreditando no valor da inclusão, da cultura, da educação e da convivência. Num país tantas vezes ferido pela desigualdade, pelo desencanto e pelo barulho da intolerância, uma cidade do interior gaúcho oferece uma resposta serena, mas firme: ainda é possível fazer algo muito bom aqui. Ainda é possível melhorar uma comunidade de dentro para fora. Ainda é possível apostar no bem. E vê-lo florescer.

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