Jessé Andarilho participa nas escolas e da Feira do Livro de Montenegro - Divulgação/FN

A Central Única das Favelas (CUFA) de Montenegro iniciou os seus trabalhos em 8 de setembro de 2008, com a missão de contribuir para o desenvolvimento social, econômico e cultural das periferias, através de projetos que valorizem talentos e aptidões individuais e ou coletivas destinadas prioritariamente a crianças, jovens e mulheres de comunidades periféricas. Em comemoração a data está trazendo o escritor carioca Jesse Andarilho, que participa nesta semana do Andarilho nas Escolas e de um bate-papo na Feira do Livro do município.

Jessé Andarilho

Jessé Andarilho nasceu no bairro do Lins, Zona Norte do Rio de Janeiro, e cresceu em Antares, comunidade localizada em Santa Cruz, último bairro da linha do trem, de mesmo nome, que liga o Centro aos bairros do subúrbio da cidade.  Na literatura, ideias sobre o subúrbio carioca aparecem, por exemplo, em Clara dos Anjos (1922), de Lima Barreto, onde o autor descreve o subúrbio como “o refúgio dos infelizes”.  Na música, Chico Buarque canta em Subúrbio (2006): “Lá não tem brisa, não tem verde-azuis, não tem frescura nem atrevimento. Lá não figura no mapa, no avesso da montanha, é labirinto, é contrassenha, é cara a tapa.”

Em 1974, a Comunidade de Antares surgiu como o primeiro conjunto habitacional de Santa Cruz.  O conjunto habitacional, assim como vários outros da Zona Oeste, foram destinos de vários moradores cariocas removidos da Zona Sul, de bairros como Lagoa, Gávea e Leblon.  Antares, por exemplo, em 1977, recebeu moradores do Vidigal.  A política repressiva de remoção das favelas foi uma das marcas da ditatura militar, principalmente na década de 1960.

Em 1949, no documento oficial do primeiro censo das favelas, encontramos percepções sobre os moradores de favelas como: “Não é de surpreender o fato de os pretos e pardos prevalecerem nas favelas. Hereditariamente atrasados, desprovidos de ambição e mal ajustados às exigências sociais modernas, fornecem em quase todos os nossos núcleos urbanos os maiores contingentes para as baixas camadas da população.”

A viagem de trem de Santa Cruz para o centro da cidade demora uma hora e trinta minutos.  Neste trajeto Jessé Andarilho foi escrevendo textos que vêm resultando nos seus livros.  Escrito em um celular, e em viagens de trem, Jessé Andarilho lançou em 2014 o romance Fiel (Editora Objetiva), em que conta um período determinante na vida do personagem Felipe, jovem e morador da comunidade do Antares.  O romance aborda a relação de Felipe com o tráfico de drogas e as tensões surgidas entre a sua formação familiar e as seduções do mundo.

Jessé Andarilho lançou o livro Efetivo variável (Editora Objetiva). Este seu segundo romance narra as experiências de Vinícius. Recruta e, assim como Felipe, morador da comunidade do Antares, Vinícius tem seu cotidiano impactado pela paixão por Isabela – filha do Sargento, pelas desventuras no quartel, onde, inicialmente, não gostaria de estar, e pelas dificuldades de formulações de expectativas para o futuro, que, na idade e perspectiva de um recruta, parecem sempre ter uma urgência determinante.

Três aspectos na literatura de Jessé Andarilho chamam atenção: a extensão do mapa literário do Rio de Janeiro, seus personagens vivem e circulam por regiões pouco exploradas nas representações literárias da cidade. Santa Cruz, Sepetiba e Campo Grande são cenários das suas histórias.

A linguagem direta é utilizada com proeza para contar uma boa história, fruto da escrita no celular, como também do objetivo de produzir uma literatura que capte a atenção daqueles não muito habituados à leitura literária; observam-se também no seu texto as subjetividades dos seus personagens, principalmente os protagonistas, jovens moradores das comunidades cariocas, que, mobilizados por suas potências de viver, erram, acertam, hesitam, sonham, sofrem, se apaixonam, temem, estudam, agem e seguem lutando por uma vida melhor e aprendendo continuamente no encontro e no diálogo com o outro.

Estes personagens, em alguns aspectos próximos das realidades vividas e observadas pelo autor, rasuram os estereótipos que, tradicionalmente, são representados nos que compõem esta camada da população e as regiões onde vivem – marcadas por profundas desigualdades sociais, mostrando que há ainda muito a ser explorado na literatura brasileira contemporânea.

Jessé Andarilho inverte, ao menos no campo simbólico, a lógica das remoções.  Parece compreender que as principais disputas se travam nos campos das ideias, das narrativas, da memória e da representação.

Andarilho nas Escolas de Montenegro

– 02/10 – 19:30 HORAS – ESCOLA ESTADUAL CIEP

– 03/10 –  08:00 HORAS – ESCOLA ESTADUAL JOSÉ GARIBALDI

– 03/10 – 10:00 HORAS – ESCOLA ESTADUAL PAULO RIBEIRO CAMPOS – POLIVALENTE

– 03/10 – 14:00 HORAS – ESCOLA ESTADUAL TANAC

– 04/10 – 09:00 HORAS – ESCOLA ESTADUAL JORGE GUILHERME MOOJEN

Andarilho na Feira do Livro

–  03/10 – 19:00 HORAS – PRAÇA RUI BARBOSA DE MONTENEGRO

 

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