Após cobrir as despedidas de Pelé, seis Copas do Mundo e 317 Corridas de Fórmula 1, fotógrafo mora em sítio no Pareci e lembra muitas histórias do Rei do futebol que completou 80 anos - Crédito: Daniel Fuchs Klein/FN

“Brinco sempre: fui acompanhado por um fotógrafo desde meu nascimento, em Três Corações, e esse implacável marcador estava a serviço de Placar.” A declaração é assinada por Pelé. E ele se refere ao fotógrafo e jornalista Lemyr Martins, que aos 83 anos mora num sítio em Pareci Novo, próximo ao Balneário do Cascalho, onde auxilia a esposa Dione no cultivo de orquídeas, uma das grandes paixões do casal que no próximo ano vai completar 60 anos de casamento.

Lemyr mostra a “Foto do Século”, de Pelé comemorando gol com um soco no ar na Copa de 70
– Crédito: Daniel Fuchs Klein/FN
Crédito: Placar

Nos 80 anos do Rei do Futebol, muitas são as homenagens a Pelé. E Lemyr conviveu de perto com Edson Arantes do Nascimento. Foi o único jornalista que esteve em todas as despedidas de Pelé, pela Seleção Brasileira no Maracanã, pelo Santos na Vila Belmiro e também pelo Cosmos em Nova York. Cobriu também seis Copas do Mundo e registrou fotos que estão entre as mais publicadas no Brasil e no mundo, como a do soco no ar de Pelé comemorando gol na Copa de 1970 no México, a qual foi considerada a “Foto do Século”. Lemyr foi o único jornalista estrangeiro presente no milésimo gol de Pelé, ocorrido no Suriname, em 1971, e registrou o número 1000 costurado pela esposa Dione numa camiseta vestida pelo rei para a capa da Placar. Já em 1970, outra fotografia registra Lemyr entrevistando Pelé e Garrincha.

Lemir, com a esposa Dione, tem cultivado orquídeas no sítio no Pareci e já ganharam vários prêmios em exposições – Crédito: Guilherme Baptista/FN

No Pareci, cercado de orquídeas e ao lado da esposa, que é psicóloga aposentado, Lemyr mostra com orgulho os livros já lançados, como Arquivos da Fórmula 1, Uma estrela chamada Senna, A Saga dos Fittipaldi, 50 anos de Fotojornalismo, entre outros. Também os prêmios conquistados no jornalismo e na fotografia, e mais recentemente nas exposições de orquídeas. Enquanto isso mostra as páginas da edição especial da Placar de setembro, com fotos que registrou de Pelé ao longo da carreira. O jornalista catarinense da cidade de Mafra, chegou ao Rio Grande do Sul em 1955 para estudar fotografia. Foi responsável pelo Serviço de Divulgação de Fotografia e Televisão do Palácio Piratini na época da Legalidade, registrando imagens de Leonel Brizola, João Goulart (Jango) e Jânio Quadros. Trabalhou em grandes veículos de comunicação, como Ultima Hora, Zero Hora, Jornal do Brasil, Estadão, Jornal da Tarde, Edição de Esportes, Placar (tendo sido um dos fundadores e editor de fotos, editor de automobilismo e editor executivo), Grid, Ação e Quatro Rodas. Além de políticos e craques do futebol, na Fórmula 1 conviveu com Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna e Rubens Barrichello.

Admiração por Pelé

Lemyr recebeu a reportagem do Fato Novo em seu sítio. Falou do tempo que tinha contato direto com os jogadores, inclusive os mais famosos, sem necessitar falar antes com empresários ou assessores. “O Pelé era sensacional. Acompanhei excursões do Santos e da Seleção Brasileira”, recorda. Lembrou que no centenário da Federação Holandesa, em 1974, os holandeses pediram para Lemyr conseguir uma fotografar Pelé usando uma camiseta da seleção holandesa. “Mandaram uma camisa. Fui na Vila Belmiro e consegui fotografar. A foto fez o maior sucesso na Holanda”, conta.

Lemyr com Pelé no Gol Mil
– Crédito: Placar

Uma das defesas mais difíceis da história, a do goleiro Gordon Banks, da Inglaterra, numa cabeçada de Pelé em 1970 no México, também foi registrada em várias fotos de Lemyr Martins, que inclusive estampam a edição especial da revista Placar. “O Pelé atendia muito bem a imprensa. É uma pessoa maravilhosa”, elogia. Conta que na primeira edição da Placar, em março de 1970, três meses antes da Copa, fez uma foto para a capa da revista, em que Pelé aparece segurando uma réplica da taça Jules Rimet. “Era uma réplica de cinco milímetros de espessura. Estava pendurada na CBF e na hora de retirar quebrou o pedestal. Na concentração pedi para o Pelé segurar sem aparecer que tava quebrada. Ele aceitou sorrindo”, lembra. “Vivi toda essa época do Pelé intensamente. A foto em que apareço entrevistando Pelé e Garruincha, por exemplo, é o meu troféu. Quanta gente gostaria? E ainda bater um papo de duas horas e meia, no Rio de Janeiro. A matéria foi agora reproduzida na íntegra pela Placar”, mostra.

Lemyr entrevistando Pelé e Garrincha
– Crédito: Placar

“A primeira fotografia que fiz de Pelé foi em 1961, num jogo contra o Grêmio”, recorda. De lá para cá foram muitos registros do rei do futebol. Outra foto de Lemyr mostra a reação de Pelé, em 3 de julho de 1970, após chutar do meio campo e a bola quase entrar na estreia na Copa diante da Tchecoslováquia. Mesmo vencendo por 4 a 1, um dos lances de maior destaque do jogo foi justamente de uma jogada que não resultou em gol, com chutaço de Pelé por cobertura, registrado pelas lentes de Lemyr. “O Pelé colocou as duas mãos na cabeça. Foi quando fiz a foto”, conta o consagrado fotógrafo. “O Pelé foi eleito o atleta do século. O que podemos dizer mais?”, questiona Lemyr, sobre a satisfação de ter acompanhado de perto a carreira do rei do futebol. “Ele sempre foi muito emotivo, chora por qualquer coisa.”, afirma. “Pelé sempre diz que tem que agradecer a Deus por ter sido tão feliz, de ser recebido bem em todos os lugares. Ele é maravilhoso”, conclui.

Declaração de Pelé, na revista Placar, sobre o jornalista Lemyr Martins – Reprodução/FN

A entrevista foi gravada também em vídeo e pode ser acompanhada na íntegra  na internet no endereço

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