João Victor Friederich foi assassinado em Novo Hamburgo e o corpo encontrado no interior do Caí - Crédito: Reprodução/FN

Os exames de DNA realizados pelo Instituto Geral de Perícias (IGP) confirmaram que o corpo encontrado no interior de São Sebastião do Caí no último dia 13 de março é mesmo de João Victor Friedrich de Oliveira, 31 anos, vítima de homicídio em Novo Hamburgo. A Polícia Civil solicitou os exames, sendo coletado sangue da mãe e filha da vítima, os quais confirmaram a identidade.

Morador de Estância Velha, João Victor desapareceu em 6 de março. Sócio de uma empresa de consórcios de imóveis, ele estaria no apartamento da namorada, de 16 anos, no centro de Novo Hamburgo, onde teria sido baleado e imagens gravadas por uma câmera mostraram o corpo sendo colocado dentro do porta-malas de uma caminhonete Mercedes Benz.

Mercedes Benz onde teria sido transportado o corpo no porta-malas foi encontrado queimado em Portão
– Crédito: Brigada Militar

Dentro do apartamento, além de sangue, foram encontrados 2,2 milhões em euros e reais, armas, drogas, 28 celulares e placas oficiais da Câmara dos Deputados. A Mercedes foi encontrada queimada, dois dias depois, no interior do município de Portão. Era roubada e tinha as placas clonadas. A namorada do desaparecido e sua mãe, de 35 anos, foram logo detidas. Um dos principais suspeitos de envolvimento no caso, pai da namorada da vítima, chegou a ser preso, mas fugiu da Delegacia de Novo Hamburgo, sendo depois capturado por policiais hamburguenses em Santa Catarina.

Além do dinheiro, foram apreendidos veículos utilizados para possível fuga, drogas, armas e munições, 118 celulares e chips, além de coldres, porta algemas e vestimentas da Polícia Rodoviária Federal. Também foram encontradas 30 placas de veículos (algumas com identificação da Câmara dos Deputados e do Senado), lacres de placas e documentos falsos.

Urubus sobrevoando

Um agricultor estava pastoreando vacas no Morro Schneider quando visualizou urubus sobrevoando o local e ao verificar se deparou com o corpo parcialmente enterrado, somente com joelhos e rosto para o lado de fora. A Brigada Militar isolou o local e foram acionadas a Polícia e a perícia. Em razão do estado do corpo não era possível a identificação. A vítima estava só de cueca e tênis, sobre um casaco cinza e enrolado num lençol.

Alguns veículos, inclusive de modelo Toyota Corolla teriam sido vistos por moradores próximos da chácara. O modelo do veículo é igual ao que teria sido usado por um dos acusados e que foi apreendido. A propriedade fica próxima da divisa com Portão, município onde foi incendiado e abandonado o Mercedes Benz em que teria sido transportado o corpo no porta-malas. O encontro de cadáver foi registrado na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Montenegro, mas a investigação do crime está sendo feita pela Polícia de Novo Hamburgo, cidade em que ocorreu o assassinato.

Morto por sogros e namorada

A Promotoria de Justiça de Novo Hamburgo apresentou denúncia contra cinco pessoas envolvidas na morte de João Victor Friedrich de Oliveira, ocorrido em 6 de março deste ano na rua Marcílio Dias, bairro Rio Branco. E a Justiça aceitou a denúncia contra três homens e duas mulheres, que agora se tornaram réus no processo. A investigação policial concluiu que o assassinato teria sido uma queima de arquivo. Três pessoas devem responder diretamente por homicídio qualificado pelos motivos torpe, mediante dissimulação, por recurso que dificultou a defesa da vítima e para assegurar a ocultação, impunidade e vantagem de outros crimes. Os cinco foram denunciados por participação em organização criminosa armada com o objetivo de cometer crimes com o fim de obter vantagem financeira e que culminaram no homicídio. Além da divisão de tarefas, os denunciados comunicavam-se através de vários chips de celulares e utilizavam identidades falsas para não serem descobertos pela polícia.

Entre os acusados estão os pais da namorada de João Victor e um comparsa. O sogro da vítima teria sido o responsável por remover o cadáver do local do crime e com o auxílio de um quinto denunciado, ocultou o corpo, enterrando-o no mato no Caí. Os dois também teriam ateado fogo no veículo onde o corpo foi transportado. Outros dois acusados não teriam relação direta com o homicídio, mas também respondem pelo crime. E ainda a namorada, uma adolescente de 16 anos, que responde em procedimento separado por ser menor de idade. Ela chegou a ser internada na Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase), mas atualmente está em liberdade. E uma sexta pessoa, uma mulher, moradora de Novo Hamburgo, foi presa ontem, terça-feira. Ela não está entre os cinco réus, mas é investigada por ter auxiliado os autores do crime a se desfazerem de provas.

Conforme as investigações, o crime foi premeditado. João Victor era sócio de um dos denunciados e namorava a filha dele, de 16 anos. O pai e a mãe da adolescente adquiriram um carro e inseriram nele placas clonadas. Esse mesmo automóvel foi utilizado, no dia 6, para levar o corpo até o Caí e foi encontrado dois dias depois carbonizado na Estrada do Luizinho, em Portão.

Segundo a denúncia do MP, os denunciados aproveitaram uma briga entre os namorados para matar a vítima. Na madrugada, entre 3h30 e 4h, o sogro e um segundo comparsa teriam se dirigido até a residência onde estava João Victor, a sogra e a namorada, e foram por ele recebidos na garagem. Já dentro do apartamento, os dois homens e a adolescente teriam atirado contra João Victor, que estava desarmado e foi atingido por tiros enquanto estava de costas. Vizinhos ouviram os disparos e chamaram a Brigada Militar, que prendeu em flagrante a sogra da vítima enquanto preparava a fuga dela e da filha. Ela foi presa dentro de um carro, com malas grandes, enquanto que a jovem estava ainda no apartamento.

Para a Polícia, acusados queriam ficar com os R$ 2,1 milhões encontrados no apartamento em Novo Hamburgo
-Crédito: Soldado Carlos Zoch/Brigada Militar

Conforme o entendimento do MP, o crime foi cometido para garantir que os denunciados ficassem com o dinheiro que acabou sendo apreendido e como “queima de arquivo”. Os valores teriam sido obtidos a partir de diversos golpes. O sogro da vítima é acusado de ser o responsável pela articulação do crime e por providenciar as armas e munição, além de retirar o corpo do local e o levar até onde foi enterrado no interior de São Sebastião do Caí

De acordo com a investigação, depois de retirar o cadáver do apartamento enrolado em um cobertor, os sogros e um terceiro denunciado conduziram João Victor de elevador até o estacionamento do prédio. Eles teriam adulterado a cena do crime e tentaram se desfazer das provas e indícios que comprovam a autoria e materialidade do homicídio. Conforme foi apurado, o corpo foi mantido dentro do elevador enquanto a sogra cobria uma das câmeras de segurança da garagem. Depois, colocaram a vítima no porta-malas do carro clonado e deixaram o local. A Polícia apurou que a sogra foi a responsável por limpar as manchas de sangue deixadas no chão do estacionamento. Uma quarta envolvida no crime buscou com o sogro da vítima um edredom e um cobertor que foram utilizados para enrolar o corpo e os descartou em um matagal no bairro Primavera, em Novo Hamburgo.

O casal (sogros), mais dois homens e duas mulheres, estão presos. A adolescente alegou que atirou no namorado durante uma briga. Já o pai dela alegou que apenas escondeu o corpo. A mãe e um comparsa não se manifestaram durante o depoimento. Já uma mulher presa na semana passada negou envolvimento. E um preso ainda não foi ouvido pela Polícia. Os nomes dos indiciados não são divulgados para preservar a identidade da menor, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Carteiras da OAB falsas

A denúncia também descreve o crime de falsificação de documento público, pois o sogro da vítima de homicídio possuía três carteiras da OAB falsificadas, com sua fotografia e nomes de terceiros, bem como o crime de favorecimento pessoal, quando dois dos denunciados tentaram auxiliá-lo na fuga – eles foram presos em flagrante quando praticavam outros crimes –, além do ilícito de corrupção de menor (pelo envolvimento da adolescente na morte do próprio namorado).

 

 

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