Carrinho de lomba a diversão de antigamente | Reprodução/FN

Imagina uma rua onde seu início era no alto de uma ladeira. Daquelas boas de se descer com carrinho de lomba e se estrebuchar em alguma cerca-viva das casas lá embaixo. Uma aventura perigosa, que acendia a adrenalina em nossos anos de crianças pré-adolescentes. Vi muitos amigos voarem para dentro daquele emaranhado de verde que fazia a divisa com o passeio da rua, feitos bonecos de palha. Na época não tinha calçamento, nem calçada. Somente a ladeira arenosa e as cercas de arbustos. Um caminho perfeito para uma aventura de tirar o fôlego. Também de tirar uma unha, tirar um dente, enfim, pagas cobradas pela audácia em completar aquela aventura.

A forma de mostrar coragem, audácia e destreza estava justamente nesta encarada que dávamos para descermos aquela ladeira com nossos frágeis carrinhos de lomba construídos com nossos próprios métodos. Os modelos variavam de acordo com a concepção do irmão ou amigo mais velho, que os construía. Mas a mecânica era sempre a mesma: tinham a parte da frente com reentrâncias para aparecer a barra das rodas da frente que era presa com um único parafuso no meio da tábua onde sentávamos, para colocar os pés e então através do movimento deles podermos dirigir a geringonça. E do lado direito da tábua, uma barra com uma corda até outra barra perto de uma roda traseira, que tinha borracha envolto e que quando se puxava freiava uma das rodas de trás e assim o carrinho perdia velocidade. O problema é que o carrinho sempre puxava para aquele lado devido ao freio unilateral, causando um problema para se dirigir corretamente.

Nas tardes de Domingo era esse o nosso passatempo. Se formavam as duplas e a corrida lomba abaixo iniciava para ver quem dos dois chegava primeiro. Eu adorava participar. Sim, porque tinha uma menina que morava ali perto e sempre vinha olhar nossa brincadeira. Eu queria que ela visse como eu sabia manobrar aquele carrinho. Eu tinha a impressão de que ela sofria com minhas dificuldades nas manobras e que só se importava com minha perfórmance. Então, o desempenho era dobradamente cuidadoso, afinal, tinha que fazer bonito aos olhos dela. Quem sabe no fim da corrida arrancaria um abraço dela, ou até um beijo na bochecha, me deixando completamente ruborizado com tamanha audácia. Só de pensar já ficava corado. Apesar de ela ter apenas dez anos, e eu apenas treze, aquela menina mexia comigo. Gostava de ver ela com seu sorriso de caninos desalinhados devido à sua boca pequena para tantos dentes. E as covinhas nas bochechas. Nossa, as covinhas me cativavam porque pareciam realçar seu sorriso ainda mais, como se elas emoldurassem a sua boca durante seu sorriso como um quadro e assim, a cena ficava mais graciosa. Talvez por isso eu ache até hoje gracioso, doce, ver covinhas nas bochechas de crianças e me fascina este detalhe em mulheres.

Num domingo desses, mais uma competição. Éramos uns vinte garotos da vila, com nossos carrinhos de lomba prontos para iniciar a competição. Meus irmãos e eu também estávamos lá. Havíamos pintado o nosso carrinho de laranja-carmin, uma tinta que tinha sobrado da pintura das rodas de carroça de uma ferraria que ficava na frente de casa. Laranja-fogo, cor destacante no meio dos outros carrinhos. Duplas formadas, e a corrida iniciou. Para minha glória, havia caído para mim no sorteio, o garoto mais ágil da turma, o qual exibia com orgulho as cicatrizes nas pernas dos tantos tombos que já havia levado, e o dedinho menor do pé esquerdo, de onde perdera a unha e ela nunca mais nasceu. Garoto debochado e senhor de si, intimidava a nós todos. Mas eu queria passar por isso, justamente para mostrar minha destreza na condução do carrinho de lomba para a menina das covinhas.

E ela não apareceu. As descidas iniciaram, eu era o quinto a correr. Estava agoniado pensando na frustração em realizar tudo aquilo sem ter minha espectadora preferida. Pois, quando eu e o campeão estávamos alinhados no topo da ladeira, eis que a menina apareceu lá embaixo, juntamente com uma amiga. Abanou envergonhada para mim, como sinalizando: “Olha, estou aqui!” – Descemos. O garoto que competia comigo saiu em disparada, e quando meu carrinho criou movimento, ele já estava no meio da ladeira. larguei o meu carrinho num desespero sem tamanho para tentar ao menos não ser tão vergonhoso o resultado final desta corrida. Meu concorrente gritava feito possuído como se só ele dominasse aquela ladeira.

Eis que um cachorro grande passou correndo na frente do carrinho do garoto que estava competindo comigo. Ele se assustou, puxando o freio com toda a força. Seu carrinho deu um cavalo de pau, e ele, se equilibrando em cima conseguiu ficar sem cair. Mas, o seu carrinho começou a descer o resto da ladeira de costas. Ele, apavorado, vendo eu me aproximando dele, só gritava: “Não vale! Não vale!” – Mas a galera que estava assistindo continuou me incitando a manter a corrida, enquanto meu concorrente, humilhado estava todo sem norte, cuidando para não sair da pista.

Quando me perfilei com ele, aproximei meu carrinho do dele, deixando uma roda encaixar no eixo trazeiro do carrinho dele e fui freiando devagarzinho, diminuindo nossa velocidade. Ele me xingava gritando palavras de ordem, me chamando de covarde, por que não o eliminava de uma vez vencendo a corrida. Eu continuei, centrado no processo de chegar com os dois carrinhos no fim da ladeira devagarinho para ninguém se machucar.
Eu nunca havia recebido tantas vaias em minha vida. Todos me gritavam para eu parar de ser frouxo e dar uma lição naquele colega topete que desdenhava a todos, que havia chegado o momento de fazer ele sentir na pele o que era tratar os outros com desdém. Mas, meu coração dizia para ajudar o garoto em apuros, pois se fosse se machucar eu não me perdoaria por não ter ajudado.

Por fim, paramos de encontro a uma cerca-viva ainda com bastante velocidade. Eu me lanhei todas as pernas , saí todo arranhado. E meu colega rasgou as costas em vários lugares naqueles galhinhos da cerca viva. Fomos vaiados numa gritaria animal, que chegou a amedrontar. Principalmente eu, por não ter deixado ele se danar, e eu ter terminado a corrida, ganhando. Ele levantou bufando de raiva, me chamando de idiota, de maricas. Juntou seu carrinho e foi para casa gritando de dor e ódio. Eu fiquei sentado em cima do carrinho de lomba chorando pela dor de tantos arranhões nas pernas misturados ao suor, era verão, e também por estar sendo tão injustamente vaiado. Eu apenas ainda era uma criança que havia acabado de limpar a consciência ajudando alguém em apuros. Nem pensava mais em competição. E enquanto eu chorava, a plateia vaiava minha atitude em ajudar o topetinho da turma.

Eis que no meio do meu sentimento vejo uma mãozinha esticada para mim. Agarro ela sem olhar para cima, ainda secando as lágrimas. E eis que vejo a menina de covinhas me ajudando a levantar de cima do carrinho de lomba com seu tradicional sorriso, mostrando os caninos desalinhados. Tentei sorrir também, mas só saiu aquela carinha amarela de perdido. Quando estava de pé, ela me abraçou, deu um beijo em minha bochecha suada e disse: “Meu herói!”

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