A falta de coordenação da cadeia de frutas, legumes e verduras é apontada como principal limitante para modernização do setor | Reprodução/FN

Pode parecer estranha a pergunta. A razão de toda a organização de uma cadeia de suprimentos não é justamente atender os anseios do consumidor em produto seguro e de qualidade? Mas, para o consumidor se tornar prioritário, é importante uma maior coordenação e integração entre os agentes da cadeia. É preciso mais coordenação para exigir e fiscalizar padrões mínimos em prol da qualidade e uma integração maior entre os elos da cadeia, especialmente uma proximidade entre produtor e o varejo.

A falta de coordenação da cadeia de frutas, legumes e verduras é apontada como principal limitante para modernização do setor. Sem ela, é difícil incluir agendas importantes como: padronização, rastreabilidade e segurança do alimento. Mas, de quem, é a responsabilidade de promover essa coordenação? Do Governo, das Centrais de Abastecimento, das Associações de Produtores, do Varejo ou do Consumidor? O que se observa é que todos os avanços registrados em prol da coordenação da cadeia são descentralizados e empreendidos por iniciativas de empresas isoladamente, ora do produtor, ora do varejo ou das centrais de abastecimento. A falta de coordenação das iniciativas entre esses elos da cadeia e a ausência de um projeto mais amplo em prol da modernização limitam os benefícios na forma de melhor qualidade (sob conceito mais amplo) para o setor com um todo.

Primeiro passo para a melhoria da qualidade é ter uma linguagem única na cadeia, por meio da padronização. Padronizar é muito mais do que definir o tamanho do hortifruti. Estabelecer um padrão de qualidade é dar garantia ao produtor, proporcionando uma linguagem comum entre os agentes da cadeia.

Mas, por quê o setor ainda não avançou neste requisito básico? A principal resposta é a baixa exigência dos compradores aliada a uma infraestrutura limitada de classificação, concentrada em produtores de grande escala. Há, também, “pré-conceitos” por parte de alguns agentes do setor em dar um passo à frente da padronização – o principal é que a padronização pode dificultar o escoamento de produtos de qualidade inferior. No geral, esse argumento não tem base econômica, visto que o mercado avança se o produto é confiável.

O setor ainda está longe de uma linguagem única quanto aos padrões dos hortifrutis que permita uma precificação por critérios objetivos e transparência. Para o avanço no setor neste quesito (padronização), duas ações são essenciais: a precificação por peso e outra a não comercialização da fruta verde. Isso já permitiria menos distorções quanto à precificação ao longo da cadeia e uma melhoria na qualidade do produto.

Contudo, essa discussão necessária de padronização, por si só, está muito aquém dos anseios do consumidor quanto à qualidade no conceito expandido (incluindo não só sua aparência, mas a maturação e a segurança do alimento em termos de resíduos de defensivos). É preciso avançar mais, porém, isso só é possível com uma integração maior entre o produtor, comerciantes e o varejo.

Uma das formas de integração seria a cadeia adotar o “Manuseio Mínimo” – em resumo: o produto depois de embalado na origem ou nos packing house não ser mais manuseado. O objetivo é diminuir a manipulação do produto nas embalagens e reembalagens ou fracionamentos em quantidades menores, que chegaria ao consumidor na embalagem original. Frutas que são colhidas sem cuidados, ou simplesmente jogadas nas embalagens de coletas com certeza sofre após colhidas um processo de pauperização, principalmente as que são colhidas pré-amadurecidas e seus processo de amadurecimento se dão pós-colheita. Claro que iniciativas como essa não ficaria restrita a um só elo do setor, já que todos teriam que se adequar para comercializar um produto embalado, inclusive o varejo. Além disso, iniciativas de padronização, rastreabilidade e conveniência (produtos embalados) tenderiam a ser fomentadas a partir do Manuseio Mínimo.

A dúvida é: quem se habilita a coordenar a cadeia com Manuseio Mínimo para beneficiar a todos? A grande questão é como coordenar a cadeia para conseguir prover o manuseio mínimo, já que é uma política que vai englobar vários elos do setor. Algumas redes de supermercados já se organizaram junto aos seus fornecedores para ofertar um produto que praticamente não é mais manipulado pela rede. No entanto, para que iniciativas isoladas e bem intencionadas se mantenham viáveis, é importante uma formalização do setor como um todo, sempre com o enfoque geral da qualidade e até menos desperdício de alimentos, aliás, diga-se de passagem, está em percentuais elevadíssimos.

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