Sílvio Nazário (ao lado de uma de suas esculturas) tinha 65 anos e estava internado na UTI do hospital de Osório - Arquivo/FN

Silvio Nazário dos Santos foi um dos grandes artistas de São Sebastião do Caí e da região. Era pintor, escultor e poeta. “Tinha um talento nato. Deixou um legado artístico que reproduz a sua história”, declara a sobrinha de Sílvio, a psicóloga Márcia Hoff de Oliveira, que mantinha contato diário com o tio.

O artista plástico faleceu na tarde desta quarta-feira, dia 3, aos 65 anos de idade. Estava internado na UTI do Hospital São Vicente de Paulo, em Osório, onde testou positivo para Covid-19. O sepultamento está previsto para o início da noite de hoje. Não terá velório. A família está providenciando o translado do corpo direto de Osório para o cemitério do Caí, com a despedida restrita aos familiares mais próximos. Deixa filho, irmãs, demais parentes e muitos amigos. Foi a primeira morte por coronavírus em São Sebastião do Caí e a segunda na região. A primeira foi de uma idosa de 76 anos, de Montenegro.

Silvio Nazario, em foto recente, deixou uma grande produção cultural, além de ter sido dono de um bar que marcou história
– Reprodução/FN

Um mês atrás Silvio foi submetido a uma cirurgia no joelho, para colocação de pino. Depois de recuperado, acabou sofrendo um acidente de moto. Foi removido do Caí para o Pronto Socorro de Canoas. Retornou para casa, mas segundo os familiares logo passou a sentir problemas respiratórios e dores pelo corpo. Foi transferido do Hospital Sagrada Família, do Caí, para a UTI do Hospital de Osório em 26 de maio, tendo sido feito teste e diagnosticado positivo para Covid-19. O vírus fez com que seu quadro se agravasse, com muita dificuldade para respirar e comprometendo a função renal. E acabou não resistindo.

Morador do Loteamento São Rafael, Silvio era bastante conhecido e teve ativa participação na comunidade caiense.Além do trabalho artístico, que inclui a pintura de quadros, poemas e esculturas, foi dono do bar “Por que Não”, que foi bastante movimentado no Caí. Conforme Márcia, nos últimos anos o tio continuava pintando, fazendo esculturas e escrevendo, tendo deixado um grande acervo. “Tinha um sofrimento muito grande, com bipolaridade e transtorno depressivo. E transformava isso em arte”, afirma a psicóloga e sobrinha. “Vou cuidar do acervo dele com todo o carinho”, completa Márcia, que também é artista plástica.

Pintor, escultor e escritor

Em 31 de janeiro de 2011, no blog Histórias do Vale do Caí, de autoria do jornalista Renato Klein, foi postado um texto sobre a história do artista Sílvio Nazario. E a foto dele ao lado de uma de suas esculturas, “A Fuga”, plantada entre as árvores da Praça Orestes Lucas.

“Caiense nato, filho de um antigo sapateiro caiense, Sílvio Nazário era uma pessoa inquieta. Seu pai, conhecido como Jorge Sapateiro, tinha sua casa, e oficina, na frente da praça. Muito perto da antiga biblioteca pública (o que pode ter influído bastante na sua formação).

Reprodução/FN

Sílvio era pobre, mas leu muito e estudou muito. Jovem ainda foi para Porto Alegre e lá teve vários empregos, com os quais custeou os seus estudos.
Estudou contabilidade, entrou na universidade e estudou Ciências, na PUC. Depois fez Pedagogia e vários cursos de especialização, principalmente nas áreas de cinema e teatro.
Nazário calcula que já fez 5.000 esculturas. Desde as bem pequenas (com dois centímetros de altura), às bem grandes, com até dois metros e 40 centímetros. Mas, como a maioria dos artistas brasileiros, ganhou muito pouco com a sua obra e tem a maioria das suas obras guardadas em um grande depósito que mandou construir junto à sua casa. Duas de suas estátuas, feitas com ferro de sucata, estão visíveis para os caienses. Uma delas é A Fuga, que pode ser vista na praça Orestes Lucas, ao lado do forum. A outra é A Família, que se encontra no hall do Centro de Cultura.
Nazário escreveu muitos roteiros cinematográficos. Alguns muito bem avaliados, mas que ainda não foram filmados. E, também, muitos livros, sendo dois deles publicados: Os Padres da Minha Vida e Eram os Deuses Psiquiatras.
As suas inquietudes levaram Sílvio Nazário a criar um bar chamado Por que Não, que fez sucesso no Caí por algum tempo, mas acabou fechando. O bar deixou saudades em muitas pessoas, que admiravam a proposta inovadora do estabelecimento.” (Renato Klein)

O próprio Silvio Nazario fez uma postagem no blog. “Sou muito feliz com tudo que realizei durante a vida. Cinco faculdades, milhares de esculturas,dois livros editados e mais 8 prontos aguardando patrocínio,filme premiado em Gramado”, escreveu na época.

Várias são as homenagens ao artista plástico caiense
– Reprodução/FN

Amigo de Silvio Nazario, Carlos Alexandre MBmaq fez hoje uma postagem em sua homenagem:

“Ao amigo.

Muitas pessoas são o que são…

Gritos, rebeldes, arriados, sérios, cativantes, seguros, criativos, sensatos, FORTES, às vezes frágeis, feras escondidas dentro de um corpo mimoso, ou o contrário, valentes ou covardes, pra baixo, pra cima vivaaa,..

Acho que eu vi todas essas qualidades no mesmo homem.

Taxar alguém é fácil, mas conhecer ela e saber como são de verdade é para poucos.

Tive nesse homem uma força para lutar às vezes contra o que me fazia mal. Aprendi mais de mim mesmo e por isso obtive certo conhecimento.

Lúdico, criativo, exótico, assim posso descrever meu amigo “Jeguelef”, apelido carinhoso para o grande Silvio Nazário.

Fique com Deus amigo.”

O escritor

Marcia enviou um dos últimos textos escritos por Silvio Nazário.

“Sinta os sabores, que gosto tem o sorriso, tente sorrir e não deixe de provar, não esqueça o gosto do beijo PROVE….. A SOLIDÃO pode ser amarga, PODE SER DOCE, SINTA OS GOSTOS E OS SABORES QUE A VIDA TEM.

ARRISQUE sinta o sabor do novo, mesmo velho…,o novo continua .SE PROVAR, sinta o medo pode ser que tenha sabor.

A gente é o que é. Os outros são o que são. A vida passa e eu passarinho. Abraço tudo o que temo a alegria vai abraçar meu desespero . Se me esquecerem esqueçam bem devagarinho….AS CORES DESBOTAM

Pinturas e esculturas

 

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