Com o apoio da família, colegas, alunos e amigos, Carla lutou bravamente contra a doença, mas não resistiu e faleceu nesta terça-feira - Reprodução/FN

Em agosto do ano passado a professora Carla Tatiana Silva de Souza, de 41 anos, concedeu entrevista ao Fato Novo, quando falou de sua luta contra a Leucemia. Moradora de Montenegro e professora em Pareci Novo, Carla batalhou desde o início de 2019, com tratamento de quimioterapia e estava bem próxima de ser submetida ao tão sonhado transplante de medula. O doador seria o próprio filho, Lucas Souza, de 24 anos.

Carla lutou de todas as maneiras. Estava sempre no hospital em Porto Alegre e ficava alguns dias em casa, no bairro São João. Por 40 dias ficou em tratamento no hospital. Não podia receber muitas visitas por causa da imunidade baixa em razão da quimioterapia. Mas sempre esteve otimista, com muita esperança. No mês passado Carla passou por nova sessão de quimioterapia e iria se fortalecer para realizar o transplante que poderia salvar sua vida. Por ser filho, Lucas era o doador com maior compatibilidade, com maior possibilidade de cura. Mas neste mês seu quadro clínico teve complicações, já que a doença era muito agressiva. Ela foi submetida a uma cirurgia intestinal no último dia 13. O estado de saúde piorou e entrou em coma, internado no CTI em Porto Alegre. Ela não resistiu e veio a falecer na tarde desta terça-feira, dia 21.

Carla morava em Montenegro e lecionava em duas escolas de Pareci Novo
– Reprodução/FN

Muitas têm sido as homenagens, de familiares, colega, alunos e inúmeros amigos. “Excelente profissional. Amada por todos. Uma guerreira incansável que Deus chamou para continuar lutando lá de cima, ao seu lado! Sua missão foi muito bem cumprida, sempre com aquele sorriso lindo no rosto”, postou a Escola Municipal de Ensino Fundamental Beato Roque, onde Carla lecionava Língua Portuguesa. Também no Pareci, ela era professora de Literatura na Escola Estadual de Ensino Médio São Francisco de Assis. A colega Elisa Larsen, da Escola Beato Roque, lembra da luta da amiga contra a doença. “A Carla era alegre. Gostava de dançar, de fazer festa. Uma professora muito amada, perfeccionista, muito organizada. Gostava de chimarrão, cafezinho e fazer gostosuras pro grupo dos Comensais da Beato, criado para a degustação de guloseimas nas quartas-feiras, durante o recreio na escola. Muito prendada, sincera e vaidosa. Conquistava os alunos com o seu enorme coração de mãe e sinceridade”, recorda Elisa. “A luta dela foi uma batalha triste, ficando muito tempo no hospital. Mas mantinha contato pelo telefone. Ficava triste por não poder abraçar os amigos quando íamos lá. Vários professores foram ao Banco de Sangue para doar, testar a compatibilidade e tentar ajudá-la com um transplante. Também fui. Os professores organizaram campanhas para ajudá-la nas despesas financeiras, pois o marido largou tudo para ficar ao lado dela”, completa Elisa, lembrando que os alunos também gravaram mensagens, num vídeo que foi enviado para a professora.

Uma grande guerreira

A própria Carla, em agosto de 2019, falou da sua luta contra a leucemia. Recordou que o ano letivo recém tinha começado e quando estava em casa sentiu fortes dores no abdômen. Procurou um médico, que pediu exames e decidiu pela sua internação. Ela foi encaminhada para o Hospital Santa Clara, no complexo da Santa Casa, em Porto Alegre. Através dos exames, foi diagnosticado que Carla tinha um linfoma, que é um tipo de câncer que começa nas células do sistema linfático. Transferida para o Hospital Santa Rita, do complexo hospitalar da Santa Casa, ainda na primeira sessão de quimioterapia os médicos descobriram, numa tomografia, que o intestino estava perfurado. Foi necessária uma cirurgia de emergência.

Após alguns dias da cirurgia e de ficar internada na UTI, Carla retornou para o quarto e depois para casa, seguindo com o tratamento. Depois da terceira sessão de quimioterapia e realização de exames de rotina, a professora recebeu mais uma dura notícia de que o linfoma tinha se transformado em leucemia (câncer no sangue). “Meu chão se abriu”, contou, enquanto estava internada no Hospital Santa Rita. “Desde o início pra mim tudo foi mais difícil. Ficava cinco dias internada e fazia quimioterapia 24 horas ininterruptamente. Agora serão 46 dias. Mais tempo no hospital e com diferentes tipos de quimioterapia”, declarou, em agosto.

Até então Carla não tinha exposto sobre a doença nas redes sociais, mesmo que muitas pessoas já soubessem da situação. No último dia 3 de agosto a professora decidiu fazer uma postagem em sua página no facebook. “Decidi abrir meu coração. Contar a minha história”, justificou, descrevendo sobre a sua luta. “Entre altos e baixos, entre uma quimio e outra, entre a fé e muita vezes a descrença, encontrei forças na minha família, nos meus amigos, nos meus colegas, alunos e pais de alunos, e de pessoas que nem mesmo conheço que não me abandonaram. Todos orando por mim, mandando mensagens positivas, me ajudando de alguma forma, me fazendo acreditar que eu posso, que consigo superar este longo caminho que tenho pela frente”, escreveu.

Ela divulgou a sua luta justamente na esperança de encontrar um doador compatível. No caso do filho Lucas, a possibilidade de dar certo era de 50%, ou seja, um risco muito grande. Mas como até então não tinha sido encontrado outro doador compatível, já estava programado o transplante com a doação do próprio filho. Entretanto, surgiram as complicações.

Ainda na entrevista do ano passado, Carla fez questão de agradecer o município de Pareci Novo, destacando a mobilização da Prefeitura, juntamente com a Secretaria de educação e as escolas, inclusive fornecendo transporte aos doadores. Para a reportagem Carla enviou fotos ao lado do marido Jaime, com a amiga Lori e colegas de escola, que estavam sempre ao seu lado. E também ressaltou o apoio dos familiares, pai Telmo, colegas e amigos, que a apoiaram nesta luta. Na Escola Estadual São Francisco de Assis foi realizada uma rifa para ajudar nas despesas. “Ficaria imensamente feliz em saber que alguém pode me salvar ou salvar a outros, porque quem vive isso na pele sabe a importância desse gesto. Enfim, essa é uma parte da minha história que gostaria de virar a página com um reinício feliz”, escreveu, esperançosa, agradecendo pelo carinho de todos.

A despedida acontece nesta quarta-feira, dia 22, com velório previsto para a partir das 8h da manhã, na sala A da capela mortuária da Funerária Vargas. Já o sepultamento está programado para às 11h da manhã desta quarta-feira, no cemitério de Montenegro.

 

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