Facção tem base em São Paulo e junto com organização criminosa do Vale do Sinos é acusada de movimentar R$ 12 milhões ao mês com o tráfico de drogas - Crédito: Alex Cyrre/Polícia Civil

Montenegro está entre as cidades do Rio Grande do Sul e de outros Estados em que ocorreram buscas de uma mega operação policial contra uma facção criminosa com base em São Paulo, que opera em conjunto com uma organização criminosa do Vale do Sinos, e que é acusada de movimentar aproximadamente R$ 12 milhões por mês com o tráfico de drogas.

A Polícia Civil, por meio da Delegacia de Repressão à Lavagem de Dinheiro do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), deflagrou nesta manhã de terça-feira, dia 20, a Operação Irmandade, no Rio Grande do Sul e em mais cinco estados brasileiros, após quase dois anos de investigação. Três pessoas foram presas e apreendidos documentos, armas, telefones celulares, notebooks, dinheiro e veículos de luxo.

A operação contou com cerca de 330 agentes de segurança pública nos 6 estados, cumprindo 72 mandados de busca e apreensão, 5 de prisão preventiva, além de bloqueio/indisponibilidade de ativos financeiros, veículos e imóveis, no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Bahia e Pará. Outras 19 prisões temporárias solicitadas foram indeferidas.

Operação Irmandade combate organização criminosa envolvida em lavagem de dinheiro, tráfico de drogas e armas
– Crédito: Jorge Felipe/Polícia Civil

O total, ainda a ser apurado nos bloqueios de ativos bancários, na bolsa de valores, em criptomoedas, bem como imóveis no vale dos Sinos, pode chegar a mais de 3,5 milhões de reais até o momento. O total de medidas cautelares sendo efetivadas, só no dia de hoje, chega a 254, sendo ao longo da investigação 385 solicitadas e cumpridas.

As cidades abrangidas na operação de hoje são Porto Alegre, Canoas, Cachoeirinha, Guaíba, Sapucaia do Sul, São Leopoldo, Novo Hamburgo, Estância Velha, Encruzilhada do Sul, Charqueadas, Montenegro e Quaraí, todas no RS, bem como Florianópolis/SC, Foz do Iguaçu/PR, Londrina/PR, Colombo/PR, Ponta Porã/MS, Campo Grande/MS, Porto Seguro/BA e Belém/PA. Diligências foram feitas também em São Paulo.

A ação de hoje teve apoio do Gabinete de Inteligência e Assuntos Estratégicos/GIE, Delegacia de Roubos do DEIC, Núcleo de Inteligência e GAES/Susepe, DPs de Quaraí e Encruzilhada do Sul/DPI, Draco/São Leopoldo, CORE/DPM, dentre outros Departamentos da Polícia Civil gaúcha, além das Polícias Civis de SC, PR, MS, BA e PA.

A Operação também contou com o apoio logístico do Ministério da Justiça/SEOPI. A União tem disponibilizado passagens e diárias para policiais dos estados federados em ações de combate às grandes facções criminosas.

A investigação
Com uma análise durante dois anos de mais de dezenas de contas bancárias, locais, pessoas físicas e jurídicas, com bloqueios judiciais nos 6 Estados, foi possível confirmar que alguns milhões em lucros de venda de drogas em diversas cidades gaúchas foram depositados em contas de laranjas daqui e de outros Estados, como pagamento da grande distribuição feita em solo gaúcho, passando por operadores logísticos e financeiros moradores no Rio Grande do Sul.

Foi comprovado que uma facção de amplitude nacional de origem paulista está operando em conjunto, pelo menos desde 2017, com uma facção que tem base no Vale dos Sinos. Foi identificado e amplamente comprovado um elo entre operadores do grupo nacional com um apenado gaúcho, sendo que os dois gerenciam um esquema com 45 operadores responsáveis pela parte financeira e logística, ou seja, transações envolvendo pelo menos R$ 12 milhões de reais por mês a partir do Estado, além de distribuição de entorpecentes e lavagem de dinheiro.

São robustas as provas sobre os alvos gaúchos e de outros Estados, como um indivíduo baiano, um dos principais operadores logísticos da facção paulista, preso pela Polícia Federal no Estado do Pará e cumprindo pena em presídio local. O operador baiano, hoje alvo da operação, havia sido preso em flagrante, sendo responsável por operar com aviões e mais de 500kg de cocaína no norte do País.

O contato dele foi um gaúcho que atualmente está na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (PASC). O líder gaúcho foi preso em São Paulo, em decorrência de investigação no Estado de Minas Gerais por tráfico de entorpecentes em 2020 e, além disso, um irmão dele, nos últimos meses, foi detido durante negociação de uma metralhadora .50 no Rio de Janeiro com o Comando Vermelho. Outros dois investigados foram presos em 2017 no Estado do Rio de Janeiro com mais de 17 mil munições de vários calibres.

No expediente policial também foi amplamente comprovado que a organização gaúcha passou, inclusive, a operar em outros Estados, tanto em distribuição de drogas, quanto em tráfico de armas. Ou seja, os alvos gaúchos de hoje estão trabalhando também para a grande facção nacional, além de apoio no branqueamento de capitais.

O líder baiano, para garantir remessas de drogas e armas para o grupo gaúcho, exigiu que os traficantes passassem a realizar depósitos bancários com dinheiro obtido na distribuição estadual a pessoas jurídicas e físicas indicadas por ele, sendo todos laranjas e na maioria do Paraná, Mato Grosso do Sul, Bahia e São Paulo.

Segundo o delegado Adriano Nonnenmacher, titular da DRLD/Denarc, tudo era gerenciado por três grandes gerentes/operadores financeiros gaúchos, com vinculação criminosa com mais 36 pessoas físicas no Rio Grande do Sul e demais suspeitos e empresas naqueles Estados.

Os operadores gaúchos tinham que garantir a distribuição e logística da droga pela organização nacional e depois ficavam responsáveis por pagar pelos entorpecentes via depósitos bancários em contas de pessoas físicas e jurídicas em outros Estados, mas também pela lavagem de dinheiro do lucro interno obtido pela facção gaúcha ao redistribuir no âmbito Estadual a outros grandes traficantes locais.

Do total de 47 investigados entre pessoas físicas e jurídicas, e 72 locais alvos de mandados de busca e apreensão, dois ficam em Foz do Iguaçu, um em Colombo, um no Pará, um em Porto Seguro, além de empresas naquele Estado e também Mato Grosso do Sul, Campo Grande e Ponta Porã. Contudo, a investigação apontou que, de 2017 a 2019, dois irmãos de São Leopoldo eram os responsáveis por gerenciar a lavagem de dinheiro dos lucros da redistribuição interna e o pagamento ao núcleo nacional, envolvendo o baiano detido no Pará com o líder gaúcho desta organização, ora preso na PASC. Recentemente, este papel de gerenciamento passou para outro gaúcho, natural de Canoas/RS e que está morando em Florianópolis/SC, alvo de prisão preventiva.

Conforme Nonnenmacher, foi possível comprovar, dentro do Inquérito Policial, que houve uma movimentação de R$ 16 milhões nas contas bancárias deste último operador que agia a mando dos líderes, espraiando créditos aos demais laranjas recrutados e também fazendo com que estes fizessem pagamentos à célula nacional. Desde 2017 até o momento, a organização movimentou aproximadamente 120 milhões ao ano, dentre todas as pessoas físicas e jurídicas suspeitas e minuciosamente analisadas. “Eles realizavam um emaranhado de transações bancárias no Rio Grande do Sul e nos outros cinco Estados, estruturadas em pequenas quantias para burlar fiscalizações das autoridades, muitas vezes realizando triangulações entre laranjas, inda e vinda de créditos para pagamento ao operador nacional e distribuição de lucros entre os operadores gaúchos por terem exercido as funções de logística de drogas internamente, mediante uso de contas de passagem, dentre outras condutas de mascaramento muito bem executadas”, destacou.

O Diretor de Investigações do Denarc, delegado Carlos Henrique Braga Wendt, ressaltou que durante a investigação da DRLD foi constatado que o grupo teve toneladas de maconha e cocaína apreendidas pelas forças de segurança pública. Ele explica, ainda, que a organização criminosa é suspeita de trazer fuzis, bem como de operadores gaúchos trabalharem vendendo armas e drogas também para outros Estados a mando da facção nacional, fatos amplamente comprovados no Inquérito. “Os extratos bancários e variados relatórios fiscais, bem como de inteligência financeira, confirmaram uma movimentação anual de R$ 120 milhões de reais das pessoas físicas e jurídicas investigadas. Para a Polícia Civil, essa união criminosa se tornou o maior esquema de venda de drogas e de lavagem de dinheiro no Rio Grande do Sul”, relatou.

“Parte do dinheiro que se obtém da entrada de drogas internamente é para distribuir lucros entre todos, gaúchos e a grande facção, através de gerentes financeiros e laranjas gaúchos. Por sua vez, outra parte do lucro da revenda de entorpecentes para outros grandes traficantes regionais também é depositado em contas bancárias destes mesmos operadores gaúchos para pagamentos, que na complexa rede estruturada novamente enviam aos laranjas dos operadores nacionais que fizeram a distribuição originária, num ciclo vicioso e discreto, mas que com muito trabalho conseguimos elucidar”, explica o Diretor do Denarc, delegado Vladimir Urach.

Para a surpresa da investigação, uma destas contas vinculadas à facção gaúcha como forma de lavagem de dinheiro pertence a um menino de apenas sete anos de idade e que reside em Santa Maria, na Região Central, além de financiamento de grandes roubos a assaltantes gaúchos.
Para dificultar o rastreamento, as contas das pessoas físicas e jurídicas criadas eram abertas e fechadas constantemente, em curto espaço de tempo, e sempre eram transacionadas pequenas quantias, separadamente, mediante depósitos e saques, em um emaranhado complexo de troca sistemática de operadores, para não chamar a atenção das autoridades, mas de grande volume global.

Os grupos também abriram empresas de fachada em outros Estados, mas um dos motivos foi pelo fato de que pudessem usar vários veículos e dinheiro em espécie, a maioria de luxo e todos em nome de laranjas, para uso e gozo somente por pouco tempo, para evitar ações policiais. Ou seja, eles trocavam de automóveis a todo momento, vivendo muito de dinheiro em espécie, apesar de movimentarem milhões de reais nas centenas de contas analisadas, mas em curto espaço de tempo. Ou seja, abriam e fechavam contas constantemente.

Apesar disso, a Polícia Civil conseguiu identificar e indisponibilizar 21 carros e dois imóveis em Novo Hamburgo, avaliados em cerca de R$ 3,5 milhões, ainda pendente a contabilização dos demais ativos financeiros em bancos, bolsa de valores e criptomoedas bloqueados hoje. Em um dos imóveis funcionou por muito tempo uma boate, que também foi usada para a lavagem de capitais, mesclando os lucros da grande distribuição de entorpecentes e de festas ali realizadas, inclusive com fotos obtidas pela Polícia Civil de integrantes da facção nacional que vinham ao Estado e neste local. “Os grupos têm como característica usar bastante dinheiro em espécie para viver, abrir e fechar empresas para integrar e mesclar valores ilícitos, usando como passagem contas bancárias destas empresas e de pessoas físicas acima de qualquer suspeita”, destacou Nonnenmacher.

O grupo estaria usando doleiros, um gaúcho, que tem mandado de busca e apreensão contra ele, e suspeitas acerca de um paranaense já investigado na Operação Lava-Jato. Também há nos Autos, indícios que os ativos estão sendo enviados para a Bolívia, Paraguai e Colômbia, além dos créditos vindos de outros Estados do Brasil para a célula gaúcha. Inclusive, foram encontradas conversas em que um Colombiano estaria comprando grande quantidade de maconha da facção nacional, via organização gaúcha.

O operador baiano, detido no Pará, e que mantém uma sociedade com o preso da PASC, foi citado recentemente pela imprensa francesa sobre as drogas que entram na Europa.

O delegado Endrigo Veiga Marques, diretor do Gabinete de Inteligência e Assuntos Estratégicos/GIE, destaca que a integração entre as inteligências das polícias civis dos estados envolvidos foi fundamental para o êxito da operação.

 

 

 

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