No processo de imigração da Europa para o Brasil, muitas pessoas morreram durante a travessia do Oceano Atlântico Reprodução/Internet

As viagens transatlânticas não eram nada confortáveis na época em que os primeiros colonos alemães vieram para o Brasil, no início do século XIX. Pior do que isto, com as péssimas condições de higiene e da época e com a falta de recursos médicos, fazer estas viagens era muito perigoso e muitas pessoas morreram durante a travessia do Oceano Atlântico. Ou, como foi o caso do pai de João Guilherme Winter, na viagem de barco do porto do Rio de Janeiro para o de Rio Grande.

Poucas viagens, entretanto, foram tão arriscadas e penosas como aquela em que João Guilherme, seus pais e irmãos fizeram no veleiro Cäcilia (Cecília). Este navio saiu do porto alemão de Bremen em janeiro de 1827 mas naufragou logo no início da viagem, de modo que a maioria dos passageiros só chegaram ao Brasil em 1829.

Há mais de cem anos o Padre Theodor Amstad colheu a história desta viagem contada por pessoas que dela participaram (ou de descendentes das mesmas) e a narrou nos seguintes termos:
“No Canal da Mancha o navio foi tomado por uma forte tormenta. Quando o seu comandante o julgou perdido, pôs-se a salvo com um dos botes salva-vidas, deixando os pobres emigrantes entregues ao seu destino. O veleiro já se inclinava para um lado, e os seus ocupantes viam chegada a hora derradeira, quando um dos emigrantes, de nome Altmayer, propôs que todos fizessem a promessa de que, caso todos fossem salvos e chegassem um dia ao Brasil, se consagrasse o dia da chegada como feriado e que tal costume se perpetuasse pelos dias a fora, de descendente a descendente.

E Deus atendeu aos rogos, à sua maneira. A fim de que o navio, que cada vez mais se inclinava para o lado, pudesse erguer-se novamente.

Filipe Schmitz fez a sugestão: – Vamos cortar os mastros… O plano foi aceito, e, como bons carpinteiros, Schmitz e seus ajudantes, em pouco tempo derrubaram os mastros. O navio ergueu-se de novo, mas era um destroço, sem mastros e velas. Em cima desta carcaça, os náufragos ainda vagaram por duas semanas em mar aberto até que um navio inglês os encontrou e levou para o porto mais próximo, o de Plimouth, na Inglaterra.

Conta-se que, certo dia, estando as mulheres a lavar roupa na praia, passou por lá o capitão do navio Cäcilia. Sob o comando enérgico da senhora Bohnenberg, todas as lavadeiras puseram-se a surrar o capitão com a roupa molhada, o que provocou o riso dos ingleses que assistiam à cena.

Difícil jornada

Por essa época da estada dos alemães na Inglaterra, teria passado uma princesa austríaca por lá – talvez a segunda Imperatriz D. Amália von Leuchtenberg – e arranjado para os emigrantes outro navio para realizar a travessia ao Brasil. Nesse navio aportaram, finalmente, ao Brasil em 29 de setembro de 1829. Na Baumschneis (Dois Irmãos), onde muitos dos chamados “ingleses” firmaram residência, ainda hoje esta data de 29 de setembro é festejada com o Kerb de São Miguel (Michelskerb).”

Ainda segundo o padre Amstad, cerca de 100 famílias teriam participado desta viagem. Vinte delas teriam se estabelecido em Dois Irmãos e outras vinte em São José do Hortêncio. Entre estas últimas estariam as de sobrenome Fey, Fritsch, Gauer, Hammes, Hermann, Juchem, Karling, Müller, Nedel, Petry, Reichert, Schmitz (o grande e o pequeno), Spindler, Stumpf, Weber, Welter e Winter.

João Guilherme Winter era um rapaz de 19 anos quando ocorreu o naufrágio. E, assim como ele, outros sobreviventes desta viagem tumultuada fixarem-se inicialmente nas colônias velhas de Hortêncio, Dois Irmãos Bom Jardim (hoje Ivoti) e Vale do Feijão. Mas depois rumaram para outras terras. E vários deles, também a exemplo de Winter, foram se fixar em Bom Princípio.

O colono João Spindler, que foi um dos participantes desta viagem, a narrou assim numa carta que escreveu para parentes na Alemanha logo depois do acontecimento:
“No dia 6 de janeiro entramos no mar com bons ventos. Mas, diante da costa holandesa, fomos surpreendidos por uma horrível e tenebrosa tempestade que nos atirou de um lado para outro, da uma hora do dia 12 até às 12 do dia 13. Sofremos um naufrágio extraordinário. Dois marinheiros foram tragados pelas ondas, e mais 20 dos nossos colonos morreram afogados. Muitas almas, cheias de medo e desespero, esperavam, como as nossas, pela salvação. Quando a nossa desgraça parecia ser a maior outro navio nos avistou e rebocou nossa carcaça destruída, com os sobreviventes, para o porto da cidade de Fallmuth (sic) na Inglaterra, onde ainda nos encontramos.”

A terrível tempestade ocorreu, portanto, seis dias após a partida do porto de Bremen e teve a duração de 23 horas.

O Monsenhor Matias Gansweidt, baseado em relato de Miguel Schmitz (bisneto de Felipe Schmitz que participou da viagem acidentada) narra o horror vivido pelos viajantes com estas palavras:
“Um vagalhão após outro vinha rebentar no convés, e todo objeto não amarrado passava a ser varrido para o mar ou era atirado, como, aliás, no porão de carga, incessantemente em volta, até fazer-se em destroços. (…) A maioria dos passageiros jazia gemendo no chão da sala, segurando-se firme em alguma barra ou em uma armação de cama, enquanto a parte restante do corpo era jogada, de cá para lá, através dos movimentos oscilatórios. Outros procurando, por sua vez, um amparo nas vigas de ferro, lá se encontravam com as pernas abertas e as costas vergadas, soltando gemidos e queixas.”

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