Muitos imigrantes morreram na viagem de navio da Europa para o Brasil Reprodução/FN

Para se ter uma melhor ideia do que foi a saga destes primeiros colonizadores, narramos aqui a história contada por um dos primeiros imigrantes que se fixou em São José do Hortêncio. História transcrita por Leopoldo Petry no seu livro sobre São Leopoldo.

O narrador partiu, em 1829, da Província Renana com destino ao porto alemão de Bremen numa viagem em carreta puxada por mulas que durou três semanas. No porto, ele teve de esperar mais 14 semanas, junto com outros imigrantes, até a partida do navio que os levaria para o Brasil.

“Chegou enfim o dia em que nos despedimos para sempre da nossa Pátria. Embarcamos no navio Olberz, de três mastros, mas já um tanto velho. Além do Comandante e dos marinheiros, vinham neste navio 875 passageiros. A princípio navegávamos nas proximidades da costa inglesa, numa zona onde, no ano anterior, havia naufragado um transporte de imigrantes. Esses salvaram-se. Tiveram, porém, de permanecer na cidade de Plymouth até a chegada de um navio que os levasse. Julgando que o comandante do seu navio provocara o acidente com o intuito de vendê-los posteriormente como escravos, não simpatizavam muito com ele. Em certa ocasião, ao passar perto de algumas mulheres que estavam lavando roupa, estas avançaram sobre o comandante e o espancaram com as peças de roupa molhadas, o que produziu enorme hilariedade entre os ingleses que testemunharam a luta. Também o nosso comandante se viu, em certa ocasião, em palpos de aranha.

Quando navegávamos perto do equador, onde mais intenso se faz sentir o calor do sol, a água nos era fornecida em quantidade insuficiente e de má qualidade, o que motivou vários casos de doença entre os passageiros.

Nomeamos uma comissão que foi apresentar nossas reclamações ao comandante. Este, porém, irritou-se e mandou postar um canhão na popa do navio, com o fim de nos atemorizar. Não conseguindo, todavia, o seu intento, mandou satisfazer o nosso justo pedido.

Em outra ocasião, o nosso navio teria ido irremediavelmente a pique se, além do nosso, não houvesse viajado ao Brasil outro comandante velho e muito prático.

Certa noite fomos despertados repentinamente por uma gritaria que nos fez gelar o sangue nas veias. Subindo, assustados, ao convés, vimos o velho comandante, auxiliado por vários marinheiros, empregar todos os esforços para mudar o rumo do navio. O que, finalmente, conseguiu.

Se tivesse chegado cinco minutos mais tarde, nos disse ele, estaríamos todos sepultados no fundo do oceano, pois iríamos diretamente de encontro a um recife, onde teria se despedaçado a nossa embarcação.

Apesar da viagem haver corrido relativamente bem, vieram a falecer 50 pessoas durante ela. Mas também nasceram 50, de modo que não sofreu alteração o número de passageiros com que saímos da Europa.”

Construindo um novo lar

“A viagem até o Rio de Janeiro durou 14 semanas e ali tivemos de esperar outras 14 por uma embarcação menor que nos trouxesse a Porto Alegre.

Alguns moços que viajavam em nossa companhia ficaram naquela cidade (Rio de Janeiro) e se alistaram no Exército Brasileiro.

Nós, porém, continuamos a viagem para o Rio Grande, onde chegamos após 14 dias e, desta cidade, seguimos para Porto Alegre depois de alguns dias de demora. Dali, em lanchas, chegamos ao porto do Rio dos Sinos denominado Passo. Hoje, São Lepoldo. Ali desembarcamos e seguimos para a Feitoria Velha, uma fazenda imperial, onde fomos acomodados em construções de madeira. A nossa viagem toda havia durado 49 semanas.

Na Feitoria ficamos um ano inteiro, esperando que nos fossem indicados os lotes que nos haviam sido destinados.

Seguimos, então, da Feitoria para a Estância Velha, onde as mulheres e crianças foram acolhidas nas casas dos colonos chegados nos anos anteriores. Enquanto isto, nós, homens, seguimos mato a dentro, para dar início à cultura de nossas terras.

A ferramenta nos fora fornecida pelo governo, mas não conhecíamos os métodos para trabalhar nossas imensas florestas virgens. Fazíamos uma pequena derrubada, picávamos em seguida os ramos das árvores, amontoando-os para queimar quando estivessem secos. Não nos animávamos a por fogo na derrubada toda, com receio de fazer devastações no mato.

Os tocos grossos eram arrastados com grande custo às beiradas do mato. Ou, quando havia alguma sanga (riacho) na vizinhança, eram nela atirados. Em seguida eram escavadas as raizes porque julgávamos que elas impediriam o desenvolvimento das plantas.

Do mesmo modo desajeitado procedíamos com a semeadura, plantando o milho de grão em grão, ao passo que amontoávamos demasiadamente o trigo e o centeio. O resultado foi que as primeiras colheitas ficaram muito aquém das nossas esperanças.

Em nada melhor eram as nossas primeiras habitações. Quatro postes fincados no chão, paredes de ramos de árvores, cobertas de barro amassado; algumas aberturas para janelas, outra maior para a porta; o telhado coberto de capim. E a casa estava pronta.”

Começo difícil

“Os pregos eram substituídos por cipós. Alguns caixões serviam como cadeiras e mesas.
A nossa comida de todo dia consistia de milho socado a mão e abóboras cozidas.
Muitas vezes nos lembrávamos, naquele tempo, do delicioso pão que tínhamos na Europa.
Nossos corações se enchiam de pesar e o desânimo ameaçava apossar-se de nós, quando víamos as dificuldades que, a cada passo, encontrávamos. Porém, era forçoso lutar e lutamos.

Também não havia fósforos e quando acontecia de apagar-se o fogo no nosso rancho, era preciso correr ao vizinho mais próximo para pedir um tiçãozinho.

Estradas não havia e as compras tinham de ser feitas no Passo, onde existiam duas vendas: uma de Inácio Rasch, na margem esquerda do rio, e outra de Adão Hoefel, na margem direita. Só mais tarde abriram-se novas casas de comércio em Estância Velha e em Hamburgo Velho.

Os produtos da nossa lavoura tinham de ser carregados nas costas até aquelas vendas, quando não conseguíamos vendê-los aos novos imigrantes ou aos tropeiros que, de vez em quando, visitavam as colônias. Aliás, os preços naquele tempo eram pouco animadores.

Se por um lado se adquiria um quilo de carne por três centavos, por outro não recebíamos mais do que 80 centavos por um saco de feijão. Um trabalhador comum ganhava meia pataca (16 centavos) por dia de trabalho, enquanto um carpinteiro ganhava pataca e meia (48 centavos).Em tais circunstâncias era preciso fazer todo tipo de economia.

Tendo iniciado a cultura do algodão e do linho com algum resultado, fabricávamos os tecidos para o nosso uso e as tingíamos com diversas cores com tintas extraídas de cipós. E, se nossas roupas não eram lá muito elegantes, não deixavam de ser bastante resistentes. As xícaras eram substituídas por porongos.

Além das dificuldades a que nos referimos acima, ainda havia o perigo dos bugres que vagavam pelas florestas virgens ao norte da colônia e, várias vezes, puseram os colonos em sobressalto”.

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