Um alemão, que estava de passagem pelo Caí, foi personagem de um trote durante uma "caçada" Reprodução/Internet

Do livro de Max Adolfo Oderich, extraímos esta história que diz muito sobre o modo de vida de antigamente:

“No início do século, o melhor hotel que São Sebastião do Caí possuía pertencia ao senhor Martim Adams. Hoteleiro nato. Sabia receber. Era comunicativo e gentil. Agradava à sua clientela, na maioria composta de viajantes comerciais, que no lombo das suas montarias percorriam o interior do Estado.

Agora, a alma do negócio era a Dona Julia, esposa de Martim. Incansável e intransigente com as camareiras quanto à higiene dos quartos. Dava sempre a última demão no tempero dos pratos servidos. O que tornava as refeições no restaurante do hotel tão saborosas.
Um belo dia, apresentou-se um alemãozinho recém chegado ao Brasil. Muito jovial, mas completamente desambientado, como era natural. Na opinião dos seus colegas viajantes, o tipo ideal para um bom trote. Logo resolveram convencer o novato a participar de uma caçada noturna a um animalzinho chamado Till Tappes. Criatura inofensiva, do tamanho de um coelho, a cuja família diziam pertencer. Lindo pelo, depois de curtido ótimo para a confecção de vistosos tapetes. A sua carne assada ou preparada ao molho, saborosíssima. A caçada era simples. Apenas exigia paciência e muito silêncio. Decorria da seguinte maneira. Alguém tinha de ficar sentado junto a um lampião de querosene aceso, com um grande saco de aniagem. Os demais membros do grupo formariam um círculo ao redor deste alguém.

Vagarosamente, silenciosamente, este círculo se fecharia, enxotando a caça para junto do lampião. Restava agarrar a presa e colocá-la dentro do saco. Risco não existia nenhum.”
“O novato achou a idéia excelente. Concordou ficar encarregado do saco e do lampião. Não conhecia a região e assim não correria o risco de extraviar-se no escuro.

Às 21 horas daquela noite, o hoteleiro e os viajantes subiram o morro do Adão. Instalaram a vítima. À hora da despedida, o senhor Martim mais uma vez recomendou:
– O máximo de silêncio e paciência. A seguir, sorrateiramente, todos regressaram ao hotel, antegozando a cara do alemão no dia seguinte.

Foram dormir. Descansaram em paz, menos o nosso alemão, que estava sentado lá no morro, aguardando a chegada da bicharada. Lá pelas duas horas da madrugada, começou a desconfiar. Às quatro, resolveu desistir, pois o lampião estava dando sinal de pouco querosene.

Voltou, encontrando as ruas da vila às escuras, como breu. Foi dormir e acordou à hora do almoço, tendo sido recebido com chistes e piadas, aceitando tudo bem humorado, como bom perdedor. Intimamente determinado a ir à desforra.”

Leia a Parte 2: Till Tappes II

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