Léo Angst articulou a estratégia eleitoral que resultou na surpreendente eleição de Hilário Junges para prefeito de Bom Princípio Arquivo/FN

Passados vários anos da fundação da Colônia de Santa Maria da Soledade, os sonhos grandiosos do Conde de Montravel estavam longe de realizar-se. Ele não levou em conta as dificuldades representadas pela deficiência nos meios de comunicação e a incompetência do governo brasileiro para superá-las. Em 1870, como se sabe pelo livro de Michael Mulhall, já havia o projeto de construção de uma ferrovia que ligaria São Sebastião do Caí a São Leopoldo. Esta obra, que depois poderia ser estendida até Bom Princípio, Feliz e São Vendelino sem maiores dificuldades, teria contribuído muito para o progresso do Vale do Caí. Mas jamais foi concretizada.

Ocorreu, no ano de 1953, um movimento separatista com o objetivo de desligar São Vendelino e Bom Princípio de Montenegro e integrar estas duas comunidades ao município de São Sebastião do Caí. Foi feito um plebiscito e a emancipação foi aprovada pelo povo e confirmada pelo governo estadual. Uma decisão lógica e sensata, uma vez que o Caí era muito mais próximo e acessível do que Montenegro. Observe-se, porém, que São Vendelino e Bom Princípio eram tão pequenos e inexpressivos naquela época que não se pensou em emancipação, preferindo a anexação ao Caí.

Depois disto o asfalto chegou a Bom Princípio e a São Vendelino. Um grande acontecimento. Desenvolveram-se a indústria, o comércio, a agricultura. Com isto, em 1981 surgiu um movimento emancipacionista em Bom Princípio liderado por Arno Carrard (advogado principiense, bisneto do antigo administrador da Colônia de Santa Maria da Soledade, Eugênio Carrard). Tupandi, que era distrito do município de Montenegro, integrou-se ao projeto de emancipação de Bom Princípio. São Vendelino não pode fazer o mesmo porque foi incluído, antes, no projeto de emancipação de Barão. Mas a população de São Vendelino mobilizou-se contra a sua inclusão no projeto de Barão, pois seria muito inconveniente passar a pertencer àquele município, já que a futura sede ficaria distante e ligada por estrada ruim. Seria mais conveniente para os vendelinenses ter sua sede municipal no Caí ou em Bom Princípio, cidades com as quais estava ligada por estrada asfaltada. O plebiscito para a emancipação de Barão ocorreu no dia 7 de março de 1982. Apenas 156 eleitores de São Vendelino votaram pelo sim, contra 654 que votaram pelo não. Com isto, o plebiscito de Barão acabou com vitória do não.

Este fato acabou representando um obstáculo para a emancipação de Bom Princípio, pois se o município de Bom Princípio fosse criado, São Vendelino (que continuaria pertencendo ao Caí ) ficaria isolado da sua sede municipal. Em virtude disto, foi suspenso o plebiscito para a emancipação de Bom Princípio, que estava marcado para o dia 28 de março. Foi feita, então uma reformulação do projeto emancipacionista de Bom Princípio, com a inclusão de São Vendelino. O novo plebiscito para a emancipação de Bom Princípio foi realizado no dia 25 de abril e a criação do município foi aprovada por larga diferença de votos. Em Piedade, 86,3 % dos eleitores optaram pelo sim. Em São Vendelino, o percentual foi de 71 %. E assim, São Vendelino passou a pertencer ao novo município.

Se a chegada do asfalto deu um primeiro impulso à revitalização de São Vendelino, foi com a emancipação que o progresso realmente intensificou-se. Já foram grandes os benefícios com a emancipação de Bom Princípio, que passou a viver desligado do Caí a partir do ano de 1982. São Vendelino era parte do novo município e tinha muito mais força política do que antes, quando pertencia ao Caí. Para ter-se uma ideia disto, basta dizer que o primeiro prefeito de Bom Princípio, Hilário Junges, que era vereador de Tupandi, elegeu-se graças a uma bem urdida estratégia política baseada na soma dos votos de três candidatos do mesmo partido, o PDS. Isto era permitido pela lei eleitoral da época, dentro do sistema da sublegenda. E quem armou esta estratégia que permitiu a surpreendente vitória de Hilário Junges foi o presidente do PDS local naquela época, Léo Angst, que é de São Vendelino. Além disto, um dos três candidatos do PDS, cujos votos foram somados para resultar na vitória do partido era de São Vendelino: Alfredo Hoffelder. Com esta estratégia, o PDS conseguiu tirar das mãos do emancipador de Bom Princípio, Arno Carrard (do PMDB) uma vitória que então parecia certa.

Enquanto pertenceu a Bom Princípio, São Vendelino já viu uma melhora significativa no atendimento às suas demandas, se comparado ao que aconteceu no tempo em que viveu sob a tutela das distantes sedes municipais de Montenegro e, depois, São Sebastião do Caí. Ajudou para isto o fato de que, ao contrário do que acontecia antes (quando pertencia a Montenegro ou ao Caí), São Vendelino agora era uma parte importante do município, com peso político muito mais significativo do que antes.

Mas a maior contribuição de Bom Princípio foi mostrar aos vendelinenses que a emancipação pode trazer excelentes resultados para o desenvolvimento de uma comunidade. Bom Princípio teve um progresso formidável depois da sua emancipação e, consequentemente, inspirou no povo e nas lideranças de São Vendelino o desejo de seguir pelo mesmo caminho.

Benéficas evoluções políticas
As alterações políticas (primeiro a mudança de município de Montenegro para o do Caí e depois para Bom Princípio) foram benéficas. Imagine-se como, no tempo em que São Vendelino pertencia a Montenegro, este distrito vivia distante da sede do poder municipal e das suas atenções. Com a subordinação ao Caí, as coisas já melhoraram. No período em que São Vendelino e Bom Princípio pertenceram ao município do Caí, estes dois distritos tiveram grande força na política caiense. Tanto que o principiense Heitor Pedro Selbach foi, em duas ocasiões, prefeito do município. E as vantagens de passar a pertencer ao Caí tornaram-se mais notadas depois que o asfalto passou a ligar Caí a São Vendelino, em 1973. E quando o poder municipal passou a estar sediado em Bom Princípio, foi melhor ainda. Agora a sede do município ficava a apenas alguns quilômetros (por estrada asfaltada). Antes de 1953, um vendelinense levaria horas para ir até a sede do seu município (em Montenegro), depois de 1982 este tempo ficou reduzido a alguns minutos.

Depois da sua emancipação, Bom Princípio passou a desenvolver-se de forma extraordinária e isto impulsionou também o crescimento de São Vendelino e de Tupandi. E o sucesso da emancipação de Bom Princípio fez com que surgisse na mente de alguns líderes de São Vendelino a sua emancipação. Uma ideia audaciosa, pois São Vendelino, mesmo com o progresso que começara a experimentar com o asfalto e a emancipação de Bom Princípio, era ainda uma localidade muito pequena e pobre.

Sem indústrias, com pouco comércio, sem nenhuma agência bancária, a vila de São Vendelino não parecia ter a menor condição de ser a sede de um município. Mesmo assim a emancipação ocorreu. E quando o município foi criado a sua população era pouco superior a 1.000 habitantes. Bem menos do que a população da Colônia de Santa Maria da Soledade em 1866. Depois de mais de um século, a população local, ao invés de crescer, havia diminuído.

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