Monumento ao padre Cristovão de Mendoza, em Santa Lúcia do Piaí Foto: Eduardo Kauer

Ao padre Mendoza se atribui a introdução do gado no Rio Grande do Sul. Foi ele que providenciou a vinda de matrizes do gado para o território gaúcho das Missões. Para isto ele providenciou a passagem do gado através do Rio Uruguai. A partir de então o gado bovino, as mulas e os cavalos passaram a se propagar também pelos campos do Rio Grande do Sul formando enormes manadas. E isto veio a ter grande repercussão na economia e na fase inicial da história gaúcha.

Ele atuava na redução de Guairá, no Paraná, quando esta foi atacada e destruída pela bandeira de Raposo Tavares, em 1631. Corajoso, lutou em defesa da redução e foi ferido em combate. Depois disto foi destacado para atuar na recém criada redução de Jesus-Maria, no Rio Grande do Sul. Chegou lá em 1635, quando já se anunciava que Raposo Tavares preparava nova bandeira para atacar justamente esta e outras reduções recém criadas no Rio Grande. Ele soube logo disto e não recuou. Dispôs-se a lutar para salvar os índios da escravidão e conquistá-los para a fé cristã. Os índios gostavam dele. Chamavam-no de Pai Quirito. A fama da sua bondade se espalhou entre os índios da região do Tape, inclusive nos vales do rios Taquari e Caí, onde ele passou a desenvolver sua principal atividade de conquista de almas. Para evitar a ação dos bandeirantes, tornava-se urgente que os índios se reúnissem nas reduções e se preparassem para defendê-las do ataque dos escravizadores.

Neste trabalho, o padre Cristóvão percorre a bacia do Caí, convencendo numerosos índios a se reunirem aos demais na redução de Jesus-Maria. Foi então, no dia 25 de abril de 1635, que aconteceu o martírio do padre Cristóvão, morto por índios hostis, ainda não catequizados, da tribo Ibianguara. O local da tragédia foi junto ao arroio de Ibiá (hoje denominado Piaí). Este local, segundo o grande historiador Aurélio Porto, corresponde à localidade de Santa Lúcia do Piaí, próxima às atuais cidades de Nova Petrópolis e Gramado, que pertence atualmente ao município de Caxias do Sul. Mas, até meados do século XX, Santa Lúcia era um dos distritos que compunham o município de São Sebastião do Caí.

O mártir do Vale do Caí

O padre Mendoza se dirigia para a região de Caaguá (Campos de Cima da Serra, Sâo Francisco de Paula), atravessando o território então denominado Ibiá. O padre era grande conhecedor desta região, que percorria navegando pelos rios Taquari e Caí, fazendo contatos com índios que tentava reunir num esforço de resistência contra os bandeirantes escravagistas. Ele foi morto pelos índios liderados pelo feiticeiro Tayubaí e outros caciques. Comandados pelo cacique Guaimica, os índios da redução Jesus-Maria perseguiram os ibianguaras que haviam matado o padre Cristóvão e capturaram Tayubaí. O feiticeiro foi levado até o local do martírio do padre e, lá, morto a pauladas.

Seguindo relatos deixados pelos jesuítas da época, o historiador Aurélio Porto (no seu livro História das Missões Orientais do Uruguai) narrou a morte do padre Cristóvão da seguinte forma:

“Quando o padre chegou junto ao arroio, começara a chover. Relâmpagos contínuos cortavam o céu em ziguezagues de fogo. E, ali mesmo, desmontando do cavalo em que viajava, procurou abrigar-se. Para o que os índios amigos da sua comitiva começaram logo uns a erguer o rancho e outros a trazer lenha para fazer a comida e alguns a arrancar a palha para fazer as suas choças.

Poucos eram estes companheiros, mas valentes, pois os caaguaras, certos de que nada aconteceria ao bom padre, haviam ficado em suas aldeias. Voltavam os índios amigos carregados de lenha e de palha, quando do mato surgiram os índios, armados em guerra, que lhe tomaram o passo. Alguns dos companheiros índios conseguiram chegar até o lugar onde estava o sacerdote, avisando-o aos gritos do perigo que corria. Mesmo estando desarmados, tentaram resistir ao ataque dos selvagens. Mas, ante a superioridade numérica dos inimigos, a maior parte tratou de fugir para o mato, sob uma nuvem de flechas. Alguns poucos ficaram junto de Cristóvão, enfrentando o perigo.

Padre e guerreiro

O padre, assim que foi avisado, voltou a montar no seu cavalo e usou um escudo que um dos índios da sua comitiva lhe havia alcançado. Defendia-se com ele das flechas de que era alvo. Como entre os índios que o acompanhavam existiam alguns que ainda não haviam recebido o batismo, o padre gritava para eles, dizendo para que fugissem, mantendo consigo apenas os índios que já haviam se tornado cristãos.

Um dos índios da comitiva que ainda permanecia pagão foi atingido por várias flechas e isto causou grande aflição ao padre. “Água”, gritava. “Tragam-me água para batizá-lo”. Mas ninguém o atendia naquela confusão horrível.

Logo os selvagens cercaram o padre, que permanecia montado em seu cavalo, brandindo seus tacapes e atirando flechas contra ele. O cavalo caiu num atoleiro e o padre teve de apear-se dele. Poderia ter fugido, mas não quis. Sua fé o levava a ter desprezo pela vida temporal, dando mais importância para a salvação para a vida eterna daqueles que o cercavam.

Instintivamente, o padre defendia-se com o escudo. Mas este foi se tornando pesado com o acúmulo de flechas que a ele se prendiam. Cristóvão quis quebrá-las, para aliviar o peso. Mas, com isto, ficou descoberto e seu rosto foi atingido por um flechaço que o deixou aturdido. Então um dos selvagens chegou por trás do padre e tirou-lhe o chapéu, enquanto um outro vibrou-lhe o tacape e atingiu-o, derrubando-o por terra. Os selvagens deram novos golpes de tacape e flechaços no padre, até considerá-lo como morto. Um dos feiticeiros da tribo agressora tratou, então, de cortar uma das orelhas do sacerdote, que já era tido como morto. Tiraram, ainda, todas as suas roupas e arrancaram dele o crucifixo que pendia do pescoço. Os selvagens blasfemavam e diziam para o Cristo: “Salva-o”.

Duro de Matar

Como a chuva tornou-se mais forte, os índios selvagens correram para as suas aldeias. Voltariam no dia seguinte para queimar o corpo e furar o ventre pois, segundo a sua crença, se não fizessem assim, quando o corpo inchasse o mesmo aconteceria com o corpo daquele que o matou. Levaram com eles as roupas do padre e as dos meninos índios, seus ajudantes de missa, cujos corpos jaziam ao lado do corpo do sacerdote, que eles não quiseram abandonar, pois preferiam subir com ele à bem-aventurança eterna.

Mas Pai Quirito não morrera ainda. Quando anoiteceu ele voltou a si. A escuridão era completa, chovia e fazia muito frio. Ele estava deitado sobre a terra fofa do banhado e o sangue lhe escorria de inúmeras feridas. Acima de tudo, lhe causava dor o pudor da nudez. Procurou em torno alguma coisa para se cobrir, mas não encontrou nada.

Ele estava só, com a cabeça partida, uma orelha decepada (que os índios levaram como troféu), o rosto ensanguentado, um olho vazado, o corpo moído a pancadas, molhado, duro de frio e banhado em seu próprio sangue. Conseguiu levantar-se e, arrastando-se, andou um pequeno trecho a procura de abrigo e tentando encontrar algum dos seus companheiros. Quando lhe faltaram as forças, ele se estendeu novamente sobre a terra, sentindo as dores das feridas e tiritando pelo frio, que aumentava na medida que a noite mais avançava.

A morte

Pela manhã, os selvagens voltaram e, não o encontrando no local onde o haviam deixado, conseguiram localizá-lo pelo rastro de sangue, que seguiram até encontrá-lo novamente. O padre ainda estava vivo. Ergueram-no, continuaram com o martírio e, ao mesmo tempo, escarneceram do Deus branco que não o protegeu. O padre respondeu-lhes com mansidão, dizendo que viera par fazê-los filhos do verdadeiro Deus e Deus permitira que ele fosse assim tratado para sua própria glória e para a salvação deles. Os selvagens mandaram que ele se calasse, mas o padre Cristóvão continuava fazendo a sua pregação. Deram-lhe novos golpes que fizeram o sangue jorrar das feridas já abertas. Com um deles, arrancaram-lhe os dentes, que foram recolhidos depois por um rapaz e levados até os padres da redução Jesus-Maria.

Mesmo assim, o padre continuava a pregar. Os índios decidiram, então, levá-lo para o mato e fizeram isto atravessando o seu corpo com um pau comprido, para melhor carregá-lo. No mato, colocaram-no dentro de uma choça de palha. Enquanto isto, o padre ainda lhes dizia que não se importava com o que eles estavam fazendo com o seu corpo, pois à sua alma, que mais importava, nenhum mal poderiam fazer e logo ele subiria ao Céu para gozar da paz do Senhor.

Furiosos com o que o padre lhes dizia, os selvagens cortaram-lhe o nariz, a outra orelha e os lábios. E, como ainda assim ele continuava sua pregação, arrancaram-lhe a língua e cortaram-lhe o peito e o ventre. O padre, agonizando, olhava para o Céu. Os selvagens acabaram arrancando-lhe as entranhas e o coração, que cravaram de flechas para certificar-se de que o padre morreria mesmo.”

O padre Cristóvão Mendoza morreu aos 46 anos. E o relato do seu martírio é baseado nos escritos deixados pelo padre Diogo de Boroa, jesuíta que era o superior do padre martirizado, na época dos acontecimentos.

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