A produção de aves em aviários, uma das maiores riquezas da região, teve início no Seminário de Salvador do Sul Reprodução/Internet

A ordem religiosa dos jesuítas se destaca no mundo inteiro pelo extraordinário valor que dá à educação. E não somente à educação religiosa. Também no campo das ciências, os padres jesuítas se destacaram muito. Considerando o número relativamente pequeno de padres, é impressionante a contribuição que eles já deram ao desenvolvimento científico mundial. Eles se interessaram por todas as áreas de conhecimento, inclusive a ciência da administração. E é notável, também, que embora os padres sejam pessoalmente desapegados dos valores materiais, eles sempre souberam desenvolver atividades empresariais. Um exemplo bem atual deste talento jesuítico é a Universidade do Vale do Sinos, a UNISINOS, que é um dos maiores empreendimentos brasileiros na área educacional, administrado pelos padres com grande competência.

Um outro exemplo deste talento dos jesuítas para os negócios pôde ser observado no colégio dos jesuítas em Salvador do Sul, onde foi implantado o primeiro grande aviário do estado. Começando modestamente, o empreendimento desenvolveu-se de forma extraordinária, transformando-se no maior estabelecimento comercial deste ramo no Rio Grande do Sul. O empreendimento acabou sendo abandonado, depois de sofrer um sério revés, mas deu uma notável contribuição para o desenvolvimento da avicultura no estado e, especialmente, na região. Não é por acaso que o município de Salvador do Sul, embora seja muito pequeno, é hoje o maior produtor de ovos e de perus no Rio Grande do Sul.

O principal personagem desta história é o irmão jesuíta Inácio John. Filho de Aloísio e Alzira John, ele nasceu em 4 de abril de 1934, na pequena localidade de Vale das Flores, no município de Bom Princípio. Aos 15 anos, ele ingressou no seminário jesuítico de Pareci Novo e, desde então, dedicou toda a sua vida a servir à ordem dos jesuítas. Em 1958, o Irmão Inácio foi transferido para Florianópolis, onde ficou por seis anos, trabalhando no Colégio Catarinense. E lá, como sempre gostou de lidar com animais, começou uma pequena criação de galinhas para atender às necessidades de alimentação do próprio colégio. Dentro do espírito jesuítico de dedicação aos estudos, o irmão procurou aprimorar os seus conhecimentos sobre o assunto lendo publicações especializadas no assunto, como a revista Avicultura Brasileira.

Irmão Inácio cria uma grande empresa
Quando, em 1964, foi transferido para o Colégio Santo Inácio, em Salvador do Sul, o irmão Inácio assumiu a administração da cozinha daquele grande estabelecimento. E, como o colégio gastava bastante na compra de ovos e de carne, resolveu criar um aviário. Sua iniciativa contou com o apoio da administração do colégio e desenvolveu-se muito bem. Tão bem que, depois de algum tempo, passou a produzir muito mais do que o necessário para a alimentação dos alunos do colégio. A venda dos ovos tornou-se uma fonte de receita para ajudar a cobrir a manutenção do seminário.

O primeiro grande aviário do estado foi construído junto ao Seminário de Salvador do Sul
Arquivo/FN

Na época não havia ainda produção de ovos de granja no Rio Grande do Sul e os produtos do aviário criado pelo irmão Inácio John conquistaram o mercado de Porto Alegre, onde eram vendidos pelos grandes supermercados. Antes disto os ovos de granja que haviam para vender em Porto Alegre eram importados de São Paulo. O irmão tornou-se membro da Associação Gaúcha de Avicultura, reunindo-se semanalmente com outros produtores que, naquela época, eram os pioneiros da produção avícola no estado. Com seus colegas da Associação Avícola, o irmão fez várias viagens para São Paulo, onde visitou as principais granjas produtoras de ovos, que pertenciam a imigrantes japoneses. E a granja do Colégio Santo Inácio foi a primeira no estado a adquirir uma máquina para selecionar os ovos pelo seu peso. Ela era importada do Japão e selecionava 3.000 ovos por hora. Muitos produtores gaúchos foram visitar a granja para conhecer novidades como esta e aprender as técnicas modernas de produção avícola. E o irmão Inácio, da mesma forma como aprendeu com os japoneses paulistas, não se negava a transmitir o que sabia para os produtores que o visitavam. O empreendimento cresceu tanto que chegou a contar com 70 mil aves poedeiras e o lucro da atividade era muito grande, representando um recurso importante para o colégio. Por vinte anos a granja do Colégio Santo Inácio existiu, até que veio a sucumbir devido a uma verdadeira catástrofe.

A catástrofe
Todo milho utilizado pela granja para a elaboração da ração dada às galinhas era fornecido por uma grande empresa, uma multinacional de grande renome. Mas, em meados da década de 80, aconteceu um problema gravíssimo. Houve uma grande mortandade de aves na granja e ela acabou sendo interditada pela Secretaria do Meio Ambiente. Estudos feitos pelos técnicos especializados demonstraram que a causa do desastre foi um produto utilizado no tratamento do milho fornecido à granja. O resultado disto foi que a granja foi à falência, acabando com a obra admirável que o irmão Inácio vinha desenvolvendo há tantos anos.

Este fato representou, na época, um grande sofrimento para o irmão Inácio. Mas acabou lhe trazendo um benefício, pois ele foi transferido para a cidade de Roma, onde trabalhou por dez anos na administração do Colégio Pio Brasileiro. Neste estabelecimento, onde estudam padres e seminaristas brasileiros, ele viveu o que considera terem sido os melhores anos da sua vida. Lá ele conviveu com as maiores autoridades da Igreja e teve, inclusive, vários contatos com o Papa. Depois desta passagem pela Itália, que lhe proporcionou inclusive a oportunidade de fazer viagens pela Europa, o irmão retornou ao Brasil e trabalhou em estabelecimentos jesuíticos no estado e no Paraná. Hoje, com 70 anos de idade *, ele voltou a residir e a trabalhar no Colégio Santo Inácio, em Salvado do Sul.

Ele tem, assim, a oportunidade de voltar a viver no local onde desenvolveu a sua obra mais notável. Salvadorenses como Enor Müller, um dos fundadores da Frangosul, e Elemar Graff, proprietário da Granja Canarinho (uma das maiores produtoras de ovos do estado) colheram com o irmão ensinamentos importantes para o início das suas atividades. E todos reconhecem a importância da atividade do irmão Inácio John para o desenvolvimento da avicultura no Rio Grande do Sul e, principalmente, no município de Salvador do Sul e região. O seu trabalho dedicado e persistente representou o empurrão inicial para a criação de uma das maiores riquezas do Vale do Caí.

 

* Texto escrito em agosto de 2009.

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