Augusto e João Honoré Brochier foram pioneiros na exploração da madeira no Vale do Caí

A história do município de Montenegro foi narrada de forma magistral pelo brilhante historiador Antônio Carlos Fernandes Rosa na extensa e detalhada obra intitulada História de Montenegro, contida no primeiro volume da compilação Montenegro de Ontem e de Hoje. É da sua obra que extraímos os dados fundamentais para este relato sobre os fundadores de Brochier. Antônio Carlos Fernandes Rosa, já falecido, foi o irmão mais novo do ex-deputado e interventor federal (governador nomeado pelo presidente da República) do Rio Grande do Sul, Cylon Rosa. Foi também empresário, proprietário da revenda de automóveis Rosauto.

A colonização inicial da região onde atualmente se situa o município de Brochier foi bastante diferenciada. A maior parte do Vale do Caí teve colonizadores luso-brasileiros como primeiros colonizadores, seguidos após por colonos alemães. Brochier, no entanto, passou diretamente do domínio dos índios para o de imigrantes europeus: os irmãos Brochier.

Isto aconteceu a partir de 1832, quando chegaram ao local os irmãos João Honoré e Augusto Brochier.

João Honoré, o mais velho dos irmãos Brochier, nasceu na Argélia, que era na época uma colônia francesa, em 1805. Augusto nasceu em Paris, em 27 de janeiro de 1814. Eles viviam na França como relojoeiros. Embarcaram no porto de Marselha, em 1829 e chegaram a Porto Alegre em dezembro deste mesmo ano, passando antes por Montevidéu. Ao chegarem ao Brasil, portanto, João Honoré tinha apenas 24 anos e Augusto não mais do que 15. Eles viveram em Brochier por 55 anos, até 1887, ano em que ambos morreram: João Honoré com 82 anos e Augusto com 72.

Longe da Civilização

Na época em que os Brochier chegaram à região, o único núcleo populacional já estruturado existente no Vale do Caí – com igreja e uma pequena povoação em torno, dotada de precário comércio e escola – era o de Capela de Santana. Mas as terras próximas ao rio Caí já estavam todas tomadas por fazendas, inclusive no local onde hoje se situa Montenegro. E mesmo algumas áreas um pouco mais distantes do rio Caí, como Costa da Serra, as terras já haviam sido distribuídos e ocupadas. Por isto, os irmãos Brochier tiveram de se aventurar mais para o interior, adquirindo – de segunda mão (não diretamente do governo) – terras que ainda estavam desabitadas naquela época, situadas ao norte de Costa da Serra. Este era um local por onde os índios ainda costumavam incursionar.

Os índios eram nômades, viviam percorrendo os extensos territórios desabitados, caçando e colhendo frutos da mata. E eles tinham até um acampamento na região de Serra Velha, junto ao Arroio Santa Cruz ou de um dos seus afluentes. Ali, de tempos em tempos, a tribo se instalava, até esgotar a caça e as frutas existentes nas matas mais próximas. Então eles mudavam-se para outro ponto e só retornavam tempo depois, quando de novo o local pudesse lhes fornecer alimento abundante. Eram índios da tribo dos patos, pertencentes à grande nação tupi-guarani. Eles eram habituados a conviver com os portugueses de muito tempo, mas esta convivência não era sempre pacífica. No Vale do Caí já haviam se verificado confrontos entre os primeiros colonizadores lusos que haviam se instalado com fazendas na região do atual município de Montenegro. Os índios costumavam atacar as propriedades dos colonos, causando danos e promovendo pilhagens, o que levou os colonos a se organizarem numa tropa que perseguiu os índios expulsando-os das redondezas. Isto aconteceu em 1817, antes da chegada dos irmãos Brochier, e a expedição de luso-brasileiros foi comandada por Custódio Machado. Depois disto os índios deixaram de percorrer as propriedades dos lusos, situadas por perto do rio Caí. Mas eles ainda continuavam excursionando pelos terrenos mais afastados do rio, como é o caso do atual município de Brochier.

A descoberta das araucárias

Quando vieram tomar posse das terras que haviam adquirido, João Honoré e Augusto instalaram-se no mesmo local onde hoje está situada a cidade de Brochier. De início, eles construíram choças precárias que depois foram substituídas por duas boas casas construídas por eles mesmos com madeira extraída das matas locais. As duas casas, feitas com grossas tábuas de pinho, resistiram ao tempo, chegando praticamente inteiras até a década de 1990, quando foram demolidas.

O historiador Antônio Carlos Fernandes da Rosa as visitou antes da demolição e escreveu sobre elas dizendo que as tábuas de que eram construídas resistiram à ação do tempo “provavelmente por provirem de pinheiros velhos, com muito cerne, e também por sua espessura de 5 centímetros ou mais”. Afirma também o doutor Rosa que “A ação do tempo se fez sentir na formação de estrias longitudinais na parte externa das tábuas, sem contudo provocar apodrecimento.”

Note-se que os Brochier, mesmo dispondo de grande quantidade de madeiras de lei nas suas terras, escolheram a das araucárias para usar na construção das suas casas. Esta árvore tem o tronco reto e é boa de trabalhar, além de ser muito resistente, como prova a durabilidade das casas dos irmãos Brochier. As duas casas eram bem próximas uma da outra e estavam posicionadas em ângulo, o que provavelmente foi feito para possibilitar que, no caso de ataque dos índios ou outros agressores, os dois irmãos pudessem se ajudar na defesa. Da frente de qualquer uma das casas se avistava perfeitamente a frente da outra.

Relações diplomáticas

Mas os irmãos Brochier, mesmo se preparando para a luta, buscaram manter com os índios uma relação pacífica. Tendo descoberto a existência de um acampamento indígena nas imediações, eles trataram de comprar presentes para os selvagens na primeira viagem que fizeram a Porto Alegre. Ao voltarem, deixaram facas, garfos, colheres, colares e fitas coloridas, espelhos e outros objetos que, sabidamente, eram do gosto dos índios.

Os irmãos Brochier deixaram estes presentes em galhos de árvores, junto à fonte onde os índios costumavam se abastecer de água. Escondidos por perto, os Brochier observaram as mulheres índias amarrarem seus cabelos com as fitas e se olharem nos espelhos e os homens pegarem os garfos e facas, fazendo gestos como se estivessem comendo. Vendo a alegria dos índios, os irmãos se apresentaram a eles fazendo gestos de paz e amizade.

Os índios os receberam bem e os convidaram a ir até a taba, onde foram recepcionados e presenteados com alimentos. A partir de então, os índios e os Brochier passaram a fazer trocas comerciais e mantiveram uma boa e duradoura relação de amizade.

Histórias como esta foram guardadas pela tradição da família, passadas de pai para filho até serem registradas por historiadores como Campos Neto.

Outra história transmitida oralmente diz que o cacique da tribo, em certa ocasião, convidou João Honoré para uma caçada. Corajosamente, ele aceitou o convite e foi, sozinho, participar da caçada com os índios. Conquistou, assim, maior confiança e amizade com eles.

Entre os índios e feras

Os Brochier souberam tratar com os índios, respeitando seus costumes e direitos. Mas a convivência entre brancos e índios nem sempre era pacífica. Certa vez um agregado ou escravo dos irmãos Brochier se desentendeu com os selvagens e estes o mataram, além de sequestrar sua mulher e os filhos. João Honoré e Augusto não reagiram, deixando o caso por isto mesmo e preservando a paz com os índios.

Outra história preservada pela família Brochier conta que Augusto encontrou – numa caçada – um filhote de onça e trouxe-o para casa. Criou-o como um animal doméstico, solto pelo pátio da sua casa. Manso e treinado, o animal (um macho) não molestava os outros bichos de criação. Mas uma vez, quando a onça já era adulta, Augusto a viu matando uma galinha. Augusto bateu na onça com um relho, pensando em castigá-la para que deixasse de molestar as aves domésticas. Mas a onça teve uma reação inesperada. Enfurecida, atacou o seu dono com extrema violência. Derrubou Augusto e o feriu com as garras e os dentes e o teria matado se não fosse a pronta intervenção de seu irmão, que abateu a fera com um certeiro tiro de espingarda, quando ela estava sobre Augusto, em plena luta. João Honoré fez isto apesar de ser entrevado e viver preso a uma cadeira de rodas. Ele viveu assim a maior parte da sua longa vida. Veio para o Brasil com boa saúde, mas perdeu os movimentos nas pernas devido a uma picada de cobra venenosa. Não se sabe quando isto aconteceu, mas o fato dele haver se mantido solteiro sugere que tenha sofrido o acidente quando era ainda jovem. Mesmo assim ele teve um filho natural chamado Gabriel, que casou-se e deixou descendentes.

Augusto Brochier casou em 1840, com uma francesa 26 anos mais nova do que ele. O casal deixou 12 filhos.

Prosperidade

Os irmãos Brochier dedicavam-se à exploração de madeira, que extraíam das suas terras e vendiam em Porto Alegre. Pelo visto, naquela época existia muito pinheiro (araucárias) na região e esta madeira leve e de tronco reto, fácil de cortar, transportar e serrar, era muito apreciada na época. Os Brochier possuíam serraria própria. Na época, como não havia energia elétrica, as serrarias costumavam ser movidas pela força de um moinho. Uma roda movida pela força da água corrente movimentava a serra que cortava a madeira. Naquela época não existiam estradas e o transporte era feito apenas no lombo de cavalos ou burros. Para levar a madeira até Porto Alegre, os Brochier valiam-se do arroio Maratá e do rio Caí. O arroio, naquela época, era mais profundo e navegável. Mesmo assim, o transporte da madeira só podia ser feito nas épocas de chuva, quando o nível da água se elevava.
Os Brochier, possivelmente, tinham o conhecimento necessário para construir engenhos deste tipo (afinal, se eram relojoeiros na França, tinham conhecimento de mecânica). Consta que eles adquiriram uma grande área de terras em troca de um engenho de serra e, vendendo lotes desta terra, ele atraíram colonos alemães que vieram se instalar na região na década de 1850.
Os irmãos Brochier, além de corajosos e empreendedores, eram homens cultos e contribuíram grandemente para o desenvolvimento da região na qual se estabeleceram.

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